Funções, limites e continuidade
Domínio, inversas, radianos, limites laterais, indeterminações e continuidade antes de derivar.
Domínio e composição
Em , a raiz exige e o denominador exige . Podemos calcular e , mas não nem no conjunto dos reais. O domínio é .
Uma função atribui a cada do domínio um único valor . A imagem é o conjunto dos valores realmente atingidos. Para encontrar o domínio de uma expressão real, impõe todas as condições ao mesmo tempo:
- Um denominador não pode ser zero.
- Uma raiz de índice par exige radicando não negativo.
- Um logaritmo exige argumento positivo.
- Numa composição , deve pertencer ao domínio de e ao domínio de .
Por exemplo, em , o logaritmo exige e a raiz no denominador exige . O domínio é . Não podemos testar limites pela esquerda de dentro deste domínio.
Se for injetiva, valores diferentes de entrada dão valores diferentes de saída. A inversa desfaz a aplicação de e tem como domínio a imagem de . O símbolo não significa .
Por exemplo, com é estritamente crescente, logo injetiva, com imagem . Para , dá . A inversa é , com domínio . Confere: para e para . Sem a restrição do domínio, não teria inversa.
Trigonometria e funções inversas
Nos cálculos diferenciais usamos radianos, e uma volta mede radianos. O ponto da circunferência unitária correspondente ao ângulo é , por isso
A tangente só existe quando . Também usamos , e , nos domínios em que os denominadores não se anulam.
As funções trigonométricas não são injetivas em todo o domínio. Para definir as inversas escolhemos uma restrição:
| Inversa | Domínio | Valores da inversa |
|---|---|---|
Para arco-secante e arco-cossecante, com , usamos e . Os intervalos de valores são e , respetivamente.
Adotamos . Assim, apenas no intervalo principal. Por exemplo, , porque o arco-seno devolve um valor entre e .
As identidades e vão permitir simplificar integrais. Lembra também que exige e que não se separa.
Gráficos transformados
A partir do gráfico de , somar desloca-o unidades na vertical. Por exemplo, sobe dois. Na horizontal, desloca unidades para a direita: é a raiz deslocada duas unidades para a direita, com domínio .
Multiplicar por estica o gráfico; por comprime-o. O sinal menos em espelha o gráfico no eixo vertical.
O que significa um limite
Escrever diz que os valores de ficam tão perto de quanto quisermos quando está suficientemente perto de , com . O valor pode ser diferente ou nem existir.
Isto só faz sentido se puder ser aproximado por pontos do domínio diferentes dele. Se estiver isolado no domínio, não lhe atribuímos limite por esta definição.
Precisamente, para todo existe tal que, para todo no domínio,
Exemplo: provar que . Queremos que a distância entre e seja menor do que um arbitrário. Simplificando essa distância,
Assim, precisamos de . Dado qualquer , escolhemos . Para todo tal que , temos
A escolha de depende de , não de , e funciona para todos os pontos dessa vizinhança. Isto prova o limite pela definição.
Numa função não linear, pode sobrar um fator que ainda depende de . Para provar quando , fatoramos . O segundo fator varia com , por isso limitamo-lo primeiro numa vizinhança fixa.
Se impusermos , temos e . Escolhemos então
A primeira condição garante ; a segunda garante . Logo . Não podemos escolher em função do próprio : o mesmo tem de servir para todos os pontos da vizinhança.
O limite pela esquerda usa ; o limite pela direita usa . Se há domínio dos dois lados, o limite existe e é finito se e só se ambos os limites laterais existem e são iguais. Para , os limites em zero são e . O limite bilateral não existe.
Um limite infinito descreve crescimento sem limite, não um número para substituir numa conta. Por exemplo, quando , mas tende para pela esquerda e pela direita.
Calcular sem L’Hôpital
Se a função é contínua no ponto e a expressão continua definida depois da substituição, substitui diretamente. Nas formas , procura primeiro fatorização ou racionalização.
Para ,
Logo o limite em é , embora a expressão inicial não esteja definida em . Cancelar o fator permite estudar a vizinhança, não acrescenta o ponto ao domínio original.
Com raízes, o conjugado elimina a subtração:
O produto no numerador é . Para , cancelamos esse fator e o limite é , porque a expressão final é contínua em zero:
No infinito, divide pelo termo dominante. Por exemplo,
Se perto de e , o teorema do confronto dá . Como , temos .
Os limites fundamentais, com ângulos em radianos, são
Por mudança de variável, . A forma apenas indica que ainda falta trabalhar. Não tem valor igual a zero.
Continuidade
Uma função é contínua em quando pertence ao domínio e . Num extremo do domínio, usamos o limite do lado disponível. Polinómios são contínuos em ; racionais, exponenciais, logaritmos e funções trigonométricas são contínuos nos seus domínios.
Para tornar contínua a função
calculamos primeiro o limite, que é , e escolhemos .
Se é contínua em , atinge máximo e mínimo nesse intervalo, pelo teorema de Weierstrass. Também atinge todos os valores entre e , pelo teorema do valor intermédio. Assim, tem uma raiz em , pois os valores nos extremos são e . O teorema garante existência; a unicidade exige outro argumento, que veremos com a derivada.
Exercícios
Combinar as condições do domínio
Qual é o domínio real de ?
Pista
Escreve uma condição para cada operação antes de juntar os intervalos.
Mais uma pista
A raiz está no denominador. O radicando tem de ser estritamente positivo.
Solução
Precisamos de e . A primeira condição dá e a segunda . Ambas se verificam em .
- ]-2,3[. O logaritmo exige x>-2; a raiz no denominador exige -3<x<3. A interseção é ]-2,3[.
- [-2,3[. Em x=-2, o argumento do logaritmo é zero. O logaritmo não existe aí.
- ]-3,3[. Este intervalo trata a raiz, mas inclui valores com x+2 não positivo.
- ]-2,3]. Em x=3, o denominador é zero. Esse extremo deve ficar excluído.
Erros frequentes
O domínio é a interseção das condições. Uma raiz pode valer zero, mas um denominador não pode.
Um limite com uma raiz
Calcula por racionalização. Introduz o valor decimal com seis casas.
Pista
A substituição dá . Multiplica pelo conjugado do numerador.
Mais uma pista
O produto é .
Solução
Para perto de zero,
A nova expressão é contínua em zero e vale , aproximadamente . Cancelámos o fator para calcular o limite; a expressão original continua indefinida em zero.
Erros frequentes
Não substituas a indeterminação por zero. Depois de multiplicar pelo conjugado, conserva o fator no denominador.
Domínio, imagem e composição da inversa
Seja . Determina o domínio real, a imagem e a inversa . Verifica as duas composições nos respetivos domínios. Se usares a mesma expressão de para , a igualdade continua válida?
Pista
Depois de isolar , conserva a condição sobre o sinal de . Ao verificar a composição, lembra que .
Solução
A raiz exige e só produz valores não negativos. Todos os são atingidos, pois pertence ao domínio e . Logo o domínio é e a imagem é .
Como a raiz é estritamente crescente, é injetiva. Resolver dá , com . Para , . Para , .
Se prolongarmos a fórmula de aos negativos, para . Por exemplo, , mas . A restrição ao domínio da inversa é parte da resposta.
Confere a tua resposta:
- Indiquei domínio [2,+∞[ e imagem [0,+∞[ de f.
- Obtive g(y)=y²+2 para y≥0 e verifiquei as duas composições.
- Mostrei por que prolongar g aos negativos não dá uma inversa em todo o real.
Escolher o valor que fecha uma colagem
Escolhe para que seja contínua em :
Pista
Calcula separadamente os dois limites laterais.
Mais uma pista
O valor no ponto deve coincidir com ambos os limites.
Solução
Pela esquerda, . Pela direita, . O limite bilateral existe e vale . A continuidade exige , portanto .
Erros frequentes
Se os limites laterais fossem diferentes, nenhuma escolha de tornaria a função contínua. Alterar um ponto não altera esses limites.
Provar um limite com uma cota local
Prova que pela definição com e . Um aluno propõe . Explica por que esta escolha não é uma justificação válida e constrói uma escolha que dependa apenas de .
Pista
Fatora a diferença. Primeiro restringe a uma vizinhança fixa de para obter uma cota do fator que ainda depende de .
Solução
Temos . A proposta do aluno depende do ponto , mas a definição exige escolher uma única vizinhança que funcione para todos os seus pontos. Precisamos de limitar antes dessa escolha.
Dado , toma . Se , então , portanto e . Assim,
O limite está provado. A condição controla o segundo fator; controla o erro. O mínimo garante as duas condições ao mesmo tempo, para qualquer .
Confere a tua resposta:
- Fatorei |x²−9|=|x−3||x+3| e limitei o segundo fator.
- Para ε>0 arbitrário, escolhi δ=min(1,ε/7), ou outra escolha positiva suficiente.
- Provei a desigualdade para todos os x com 0<|x−3|<δ, sem escolher δ em função de x.