Equações diferenciais ordinárias

Separáveis, homogéneas, lineares e Bernoulli, com ponte para as EDOs lineares de segunda ordem.

TLDR

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Ordem e linearidade

Uma equação diferencial ordinária, ou EDO, relaciona uma função desconhecida y(x)y(x) com as suas derivadas. A ordem é a da derivada mais alta presente. Resolver é encontrar funções que satisfaçam a equação num intervalo.

Uma EDO é linear se yy e as suas derivadas aparecem à primeira potência, sem produtos entre si, e os coeficientes dependem apenas de xx. Assim, y′+xy=sin⁡xy'+xy=\sin x é linear, mas y′=y2y'=y^2 não é. Uma linear é homogénea quando o termo independente é zero. Não confundas isto com a outra noção de “homogénea” usada abaixo em primeira ordem.

Uma solução geral contém constantes arbitrárias. Um problema de valor inicial acrescenta valores de yy e, em ordens superiores, das derivadas num ponto, e devemos indicar o intervalo onde a solução e os cálculos estão definidos.

Variáveis separáveis

Se y′=f(x)g(y)y'=f(x)g(y) e g(y)≠0g(y)\ne0, podemos escrever

dyg(y)=f(x)dx⟹∫dyg(y)=∫f(x)dx.\begin{gathered} \frac{dy}{g(y)}=f(x)dx\\ \Longrightarrow \int\frac{dy}{g(y)}=\int f(x)dx. \end{gathered}

Em y′=xyy'=xy, a função y=0y=0 é solução. Para y≠0y\ne0,

∫dyy=∫xdx⟹ln⁡∣y∣=x22+C.\begin{gathered} \int\frac{dy}{y}=\int xdx\\ \Longrightarrow \ln|y|=\frac{x^2}{2}+C. \end{gathered}

Logo y=Kex2/2y=Ke^{x^2/2}, com K∈RK\in\mathbb R. O valor K=0K=0 recupera a solução constante. Se y(0)=2y(0)=2, temos K=2K=2. A verificação é y′=xKex2/2=xyy'=xKe^{x^2/2}=xy.

Já em y′=y2y'=y^2, as soluções não nulas são y=1/(C−x)y=1/(C-x), e y=0y=0 é separada. Com y(0)=1y(0)=1, a solução é 1/(1−x)1/(1-x) no maior intervalo que contém zero sem atravessar a singularidade, ]−∞,1[]-\infty,1[.

Equações homogéneas de primeira ordem

Uma equação da forma y′=F(y/x)y'=F(y/x), com x≠0x\ne0, usa v=y/xv=y/x. Como y=xv(x)y=xv(x), a derivada é y′=v+xv′y'=v+xv'. Então

xv′=F(v)−v.xv'=F(v)-v.

A equação resultante é separável. Verifica também os valores constantes de vv que anulam F(v)−vF(v)-v, antes de dividir.

Para y′=1+y/xy'=1+y/x, temos v+xv′=1+vv+xv'=1+v, logo v′=1/xv'=1/x. Assim v=ln⁡∣x∣+Cv=\ln|x|+C e

y=x(ln⁡∣x∣+C),x≠0.y=x(\ln|x|+C),\qquad x\ne0.

Derivando, y′=ln⁡∣x∣+C+1=1+y/xy'=\ln|x|+C+1=1+y/x. Trabalhamos em ]0,+∞[]0,+\infty[ ou ]−∞,0[]-\infty,0[, com uma constante em cada intervalo.

Lineares de primeira ordem e Bernoulli

Para y′+P(x)y=Q(x)y'+P(x)y=Q(x), usa o fator integrante

μ(x)=e∫P(x)dx.\mu(x)=e^{\int P(x)dx}.

Como μ′=Pμ\mu'=P\mu, o lado esquerdo depois de multiplicar é (μy)′(\mu y)'. Por isso

y=1μ(∫μQ dx+C).y=\frac1\mu\left(\int\mu Q\,dx+C\right).

A constante na primitiva de PP apenas multiplica μ\mu por uma constante não nula; podemos escolher uma primitiva qualquer. Se P,QP,Q são contínuas num intervalo que contém x0x_0, o problema com y(x0)=y0y(x_0)=y_0 tem uma única solução nesse intervalo.

Para y′+2y=e−xy'+2y=e^{-x}, escolhemos μ=e2x\mu=e^{2x}. A multiplicação transforma a equação em

e2xy′+2e2xy=ex⟹(e2xy)′=ex.e^{2x}y'+2e^{2x}y=e^x \quad\Longrightarrow\quad (e^{2x}y)'=e^x.

Integrar dá e2xy=ex+Ce^{2x}y=e^x+C, logo y=e−x+Ce−2xy=e^{-x}+Ce^{-2x}. Se y(0)=2y(0)=2, então 1+C=21+C=2 e C=1C=1. A derivada é −e−x−2e−2x-e^{-x}-2e^{-2x}; somar 2y2y deixa apenas e−xe^{-x}, confirmando a equação.

Uma equação de Bernoulli tem forma y′+Py=Qyny'+Py=Qy^n, n≠0,1n\ne0,1. O termo yny^n impede o uso direto do fator integrante. Para soluções não nulas, multiplica por y−ny^{-n} e toma v=y1−nv=y^{1-n}. Pela cadeia, v′=(1−n)y−ny′v'=(1-n)y^{-n}y' e a equação lineariza:

v′+(1−n)Pv=(1−n)Q.v'+(1-n)Pv=(1-n)Q.

É uma linear em vv. No fim, volta a yy e verifica soluções excluídas pela divisão.

Por exemplo, em y′+y=y2y'+y=y^2, toma v=1/yv=1/y. A equação passa a v′−v=−1v'-v=-1. O fator integrante é e−xe^{-x} e

(e−xv)′=−e−x⟹v=1+Cexy=11+Cex.\begin{gathered} (e^{-x}v)'=-e^{-x}\\ \Longrightarrow v=1+Ce^x\\ y=\frac1{1+Ce^x}. \end{gathered}

Também há a solução y=0y=0. Escolhe intervalos onde o denominador não se anula. y=1y=1 aparece com C=0C=0.

Segunda ordem: para onde seguir

Uma equação como y′′+y=sin⁡xy''+y=\sin x já não se resolve com as técnicas acima: a homogénea precisa de duas constantes e o termo independente pede uma particular construída para a ordem dois. A página seguinte trata a característica e os problemas de valor inicial, a escolha da particular com ressonância e a variação dos parâmetros para os termos que não cabem nos candidatos.

Exercícios

Fator integrante com um coeficiente singular

Resolve y′+(2/x)y=xy'+(2/x)y=x, com y(1)=1y(1)=1. Indica o maior intervalo da solução que contém o ponto inicial.

Pista

Escolhe um intervalo onde 2/x2/x é contínua antes de calcular o fator integrante. Multiplicar por ele deve produzir uma derivada de produto.

Solução

O ponto inicial está em ]0,+∞[]0,+\infty[. Nesse intervalo, μ=e∫2/x dx=e2ln⁡x=x2\mu=e^{\int2/x\,dx}=e^{2\ln x}=x^2. A equação passa a (x2y)′=x3(x^2y)'=x^3, logo x2y=x4/4+Cx^2y=x^4/4+C. De y(1)=1y(1)=1 resulta C=3/4C=3/4:

y(x)=x24+34x2,x>0.y(x)=\frac{x^2}{4}+\frac{3}{4x^2},\qquad x>0.

A derivada é x/2−3/(2x3)x/2-3/(2x^3); somar (2/x)y=x/2+3/(2x3)(2/x)y=x/2+3/(2x^3) dá xx. O maior intervalo que contém 11 é ]0,+∞[]0,+\infty[. A equação não está definida em zero e esta solução também diverge ao aproximar-se dele.

Confere a tua resposta:

  • Escolhi o intervalo positivo e o fator integrante x².
  • Obtive y=x²/4+3/(4x²) pela condição y(1)=1.
  • Verifiquei a equação e excluí a travessia de zero.
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Mudança homogénea e intervalo de solução

Resolve y′=(x2+y2)/x2y'=(x^2+y^2)/x^2, com y(1)=1/2y(1)=1/2. Usa a mudança v=y/xv=y/x e determina o maior intervalo de solução que contém 11.

Pista

Depois de derivar y=xvy=xv, a equação em vv fica separável. Completa o quadrado em v2−v+1v^2-v+1.

Solução

Trabalhamos com x>0x>0, pois o intervalo contém 11 e não pode atravessar a singularidade em zero. Com y=xvy=xv, temos

xv′=v2−v+1=(v−1/2)2+3/4.xv'=v^2-v+1=(v-1/2)^2+3/4.

O lado direito é positivo, por isso não perdemos soluções constantes ao separar. A integração dá

23arctan⁡2v−13=ln⁡x+C.\frac2{\sqrt3}\arctan\frac{2v-1}{\sqrt3}=\ln x+C.

Em x=1x=1, v=1/2v=1/2, logo C=0C=0. No ramo que contém esse dado,

y(x)=x[12+32tan⁡(32ln⁡x)].y(x)=x\left[\frac12+\frac{\sqrt3}{2} \tan\left(\frac{\sqrt3}{2}\ln x\right)\right].

A tangente tem os primeiros polos quando ln⁡x=±π/3\ln x=\pm\pi/\sqrt3. O maior intervalo que contém 11 é ]e−π/3,eπ/3[]e^{-\pi/\sqrt3},e^{\pi/\sqrt3}[. A derivada de vv satisfaz xv′=v2−v+1xv'=v^2-v+1, confirmando y′=1+(y/x)2y'=1+(y/x)^2.

Confere a tua resposta:

  • Usei y=xv e y′=v+xv′.
  • Completei o quadrado e integrei a equação separável.
  • Apliquei y(1)=1/2 e indiquei o intervalo onde o ramo não tem polos.
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Solução e intervalo de uma separável

Resolve y′=xy2y'=xy^2, y(0)=1y(0)=1, e indica o maior intervalo da solução que contém zero.

Pista

Separa usando 1/y², mas verifica y=0 à parte.

Mais uma pista

∫y−2dy=−1/y\int y^{-2}dy=-1/y. Usa a condição inicial antes de escolher o intervalo.

Solução

A solução constante y=0y=0 não satisfaz o dado inicial. Para a solução não nula,

−1y=x22+C.-\frac1y=\frac{x^2}{2}+C.

Em zero, C=−1C=-1. Então y=1/(1−x2/2)y=1/(1-x^2/2). Os zeros do denominador são ±2\pm\sqrt2, por isso o maior intervalo que contém zero é ]−2,2[]-\sqrt2,\sqrt2[. A derivada é x/(1−x2/2)2=xy2x/(1-x^2/2)^2=xy^2.

Confere a tua resposta:

  • Integrei com sinal negativo.
  • Usei y(0)=1.
  • Indiquei o intervalo entre menos raiz de dois e raiz de dois.

Erros frequentes

A fórmula não define uma única solução através dos polos. O intervalo tem de conter o ponto inicial.

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Bernoulli com dado inicial

Resolve y′+2y=2y2y'+2y=2y^2, y(0)=1/2y(0)=1/2.

Pista

Para soluções não nulas, usa v=1/y.

Mais uma pista

A equação em v é v′−2v=−2.

Solução

Multiplicando por y−2y^{-2} e usando v′=−y−2y′v'=-y^{-2}y', obtemos v′−2v=−2v'-2v=-2. O fator integrante é e−2xe^{-2x}:

(e−2xv)′=−2e−2x,v=1+Ce2x.(e^{-2x}v)'=-2e^{-2x},\quad v=1+Ce^{2x}.

Como v(0)=2v(0)=2, temos C=1C=1 e y=1/(1+e2x)y=1/(1+e^{2x}). O denominador nunca se anula. A solução vale em R\mathbb R. y=0y=0 é solução da equação, mas não deste problema inicial.

Confere a tua resposta:

  • Reduzi a uma linear em v.
  • Determinei C pela condição inicial.
  • Verifiquei a solução em todo o real.

Erros frequentes

A derivada de 1/y inclui um sinal negativo. Não uses y=0 na substituição v=1/y.

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