Conteúdos da cadeira

Séries numéricas

Convergência e soma de séries, do teste do termo geral aos critérios de comparação, d'Alembert, Cauchy e Leibniz.

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Uma série numérica nan\sum_{n} a_n é a soma de infinitas parcelas, definida como o limite das somas parciais SN=a0++aNS_N = a_0 + \dots + a_N. A pergunta central é dupla: a série converge (o limite existe e é finito)? E, se converge, quanto vale a soma? A ordem de ataque é sempre a mesma: primeiro o teste do termo geral, depois a identificação da família, e só então os critérios gerais.

O teste do termo geral e as séries geométricas

Se liman0\lim a_n \ne 0, a série an\sum a_n diverge forçosamente. É o teste do termo geral (ou do nn-ésimo termo). Atenção à lógica: se o limite é zero, o teste não conclui nada. A série harmónica 1/n\sum 1/n diverge apesar de 1/n01/n \to 0.

A família mais importante é a série geométrica n=0arn\sum_{n=0}^{\infty} ar^n, de razão rr. Converge se e só se r<1|r| < 1, e nesse caso a soma é

S=a1r.S = \frac{a}{1-r}.

Por exemplo, n=0(1/2)n\sum_{n=0}^{\infty} (1/2)^n tem a=1a = 1 e r=1/2r = 1/2, logo soma 1/(11/2)=21/(1 - 1/2) = 2. Podes confirmar com as somas parciais: 11, 1,51{,}5, 1,751{,}75, 1,8751{,}875, a aproximar-se de 22. Se r1|r| \ge 1, a série diverge (para r=1r = 1 a soma cresce sem limite; para r=1r = -1 oscila).

A série-pp, n=11/np\sum_{n=1}^{\infty} 1/n^p, converge se e só se p>1p > 1. Serve de bitola para os testes de comparação: se o termo geral se comporta como 1/np1/n^p, já sabes a resposta esperada.

Séries telescópicas: somar por cancelamento

Uma série é telescópica quando o termo geral se escreve como diferença de parcelas consecutivas de uma sucessão, de modo que quase tudo cancela na soma parcial.

Exemplo completo: estudar n=01/((n+1)(n+3))\sum_{n=0}^{\infty} 1/((n+1)(n+3)). Começa pela decomposição:

1(n+1)(n+3)=12(1n+11n+3).\frac{1}{(n+1)(n+3)} = \frac{1}{2}\left(\frac{1}{n+1} - \frac{1}{n+3}\right).

Confirma: 12(n+3)(n+1)(n+1)(n+3)=122(n+1)(n+3)\frac{1}{2} \cdot \frac{(n+3) - (n+1)}{(n+1)(n+3)} = \frac{1}{2} \cdot \frac{2}{(n+1)(n+3)}. Certo. A soma parcial é

SN=12[(1+12++1N+1)(13++1N+3)].S_N = \frac{1}{2}\left[\left(1 + \frac{1}{2} + \dots + \frac{1}{N+1}\right) - \left(\frac{1}{3} + \dots + \frac{1}{N+3}\right)\right].

Tudo cancela exceto os dois primeiros termos da primeira lista e os dois últimos da segunda:

SN=12(1+121N+21N+3)N1232=34.S_N = \frac{1}{2}\left(1 + \frac{1}{2} - \frac{1}{N+2} - \frac{1}{N+3}\right) \xrightarrow[N \to \infty]{} \frac{1}{2} \cdot \frac{3}{2} = \frac{3}{4}.

A série converge com soma 3/43/4. Repara que o teste do termo geral aqui dá 00 (inconclusivo), e é a estrutura telescópica que resolve.

Critérios de convergência

Quando a série não é geométrica nem telescópica, há uma caixa de ferramentas. Para séries de termos positivos:

  • Comparação: se 0anbn0 \le a_n \le b_n e bn\sum b_n converge, então an\sum a_n converge. Se an\sum a_n diverge, bn\sum b_n também diverge. Compara com séries geométricas ou séries-pp.
  • Critério do integral: se an=f(n)a_n = f(n) com ff positiva e decrescente, an\sum a_n e 1f(x)dx\int_1^{\infty} f(x)\,dx têm a mesma natureza.
  • Critério de d’Alembert (razão): calcula L=liman+1/anL = \lim a_{n+1}/a_n. Se L<1L < 1, converge; se L>1L > 1, diverge; se L=1L = 1, inconclusivo. É o favorito quando há fatoriais ou exponenciais, como em n!/nn\sum n!/n^n ou 2n/n!\sum 2^n/n!.
  • Critério de Cauchy (raiz): calcula L=limannL = \lim \sqrt[n]{a_n}, com a mesma leitura. É o favorito quando há potências nn-ésimas, como em (n/(2n+1))n\sum (n/(2n+1))^n.

Um exemplo de d’Alembert: para n=12n/n!\sum_{n=1}^{\infty} 2^n/n!, tem-se an+1/an=2/(n+1)0<1a_{n+1}/a_n = 2/(n+1) \to 0 < 1, logo converge.

Para séries com sinais alternados, o critério de Leibniz diz que (1)nbn\sum (-1)^n b_n, com bnb_n decrescente para 00, converge. É o que garante a convergência de (1)n+1/n\sum (-1)^{n+1}/n. Distingue convergência absoluta (converge an\sum |a_n|, o que implica convergência) de convergência simples (converge mas não absolutamente), como é o caso desta série alternada.

Estratégia de resolução

Perante uma série nova, segue esta ordem. Primeiro, calcula liman\lim a_n: se não é zero, diverge e terminaste. Depois, pergunta se é geométrica, telescópica ou série-pp disfarçada. Só depois escolhe um critério pela forma do termo: fatoriais e exponenciais pedem d’Alembert, potências nn pedem Cauchy, frações racionais pedem comparação com séries-pp, e sinais alternados pedem Leibniz.

Para onde ir

Com as séries numéricas dominadas, passamos ao segundo grande bloco da cadeira: o integral definido de Riemann, onde as somas finitas dão lugar ao limite que define áreas.

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