Séries numéricas

Somas parciais, séries geométricas e telescópicas, critérios de convergência e erro alternado.

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Somas parciais

Na soma 1/2+1/4+1/8+⋯1/2+1/4+1/8+\cdots, os totais depois de uma, duas e três parcelas são 1/21/2, 3/43/4 e 7/87/8. Cada parcela cobre metade da distância que faltava até 11.

Uma série ∑n=1∞an\sum_{n=1}^{\infty}a_n é estudada através das somas parciais SN=a1+⋯+aNS_N=a_1+\cdots+a_N. Converge para SS se SN→SS_N\to S com SS finito; caso contrário, diverge. Neste exemplo, SN=1−2−NS_N=1-2^{-N}, logo a soma é 11.

O teste do termo geral e as séries geométricas

Se uma série converge, necessariamente an→0a_n\to0, porque an=Sn−Sn−1a_n=S_n-S_{n-1}. O contrário é falso. Na série harmónica ∑1/n\sum1/n, os termos tendem para zero, mas a soma diverge. Agrupando os termos entre 2k+12^k+1 e 2k+12^{k+1}, cada grupo soma pelo menos 1/21/2.

Uma série geométrica tem razão constante rr. Como

1+r+⋯+rN=1−rN+11−r(r≠1),\begin{gathered} 1+r+\cdots+r^N=\frac{1-r^{N+1}}{1-r}\\ (r\ne1), \end{gathered}

temos ∑n=0∞rn=1/(1−r)\sum_{n=0}^{\infty}r^n=1/(1-r) se ∣r∣<1|r|<1. Se ∣r∣≥1|r|\ge1, o termo geral nem tende para zero. Para uma série que começa em mm,

∑n=m∞crn=crm1−r.\sum_{n=m}^{\infty}cr^n=\frac{cr^m}{1-r}.

Por exemplo, ∑n=3∞2(1/4)n=2(1/4)3/(1−1/4)=1/24\sum_{n=3}^{\infty}2(1/4)^n=2(1/4)^3/(1-1/4)=1/24. O índice inicial muda a soma.

Séries telescópicas: somar por cancelamento

O cancelamento só é seguro numa soma finita. Para an=1/[n(n+1)]a_n=1/[n(n+1)], a decomposição é an=1/n−1/(n+1)a_n=1/n-1/(n+1). Então

SN=(1−12)+(12−13)+⋯+(1N−1N+1)=1−1N+1.\begin{gathered} S_N\\ =\bigl(1-\frac12\bigr)+\bigl(\frac12-\frac13\bigr)+\cdots+ \bigl(\frac1N-\frac1{N+1}\bigr)\\ =1-\frac1{N+1}. \end{gathered}

Ao tomar o limite, a soma é 11. Não separas uma série convergente na diferença de duas séries divergentes.

Outro exemplo é ∑n=1∞ln⁡((n+1)/n)\sum_{n=1}^{\infty}\ln((n+1)/n). A soma parcial é ln⁡(N+1)\ln(N+1) e tende para +∞+\infty. Ser telescópica não implica convergir.

Critérios de convergência

Os critérios seguintes estudam convergência, mas, salvo séries reconhecíveis, não calculam a soma.

Comparação e séries p

Para termos não negativos, compara com uma série de referência. Se 0≤an≤bn0\le a_n\le b_n a partir de certa ordem e ∑bn\sum b_n converge, então ∑an\sum a_n converge. Se an≥bn≥0a_n\ge b_n\ge0 e ∑bn\sum b_n diverge, então ∑an\sum a_n diverge.

Quando as ordens de grandeza coincidem, usa a comparação por limite. Se an,bn>0a_n,b_n>0 e an/bn→La_n/b_n\to L com 0<L<+∞0<L<+\infty, as séries têm a mesma natureza. Se L=0L=0, só a convergência de ∑bn\sum b_n garante a de ∑an\sum a_n.

A referência mais usada é ∑1/np\sum1/n^p, que converge se e só se p>1p>1. A prova geral usa o critério do integral, que fica para depois dos integrais impróprios. O caso p=2p=2 verifica-se já por cancelamento: para n≥2n\ge2, 1/n2≤1/[n(n−1)]=1/(n−1)−1/n1/n^2\le1/[n(n-1)]=1/(n-1)-1/n, cuja soma parcial é 1−1/N≤11-1/N\le1. Para an=(n+2)/(n3+1)a_n=(n+2)/(n^3+1), comparamos com bn=1/n2b_n=1/n^2:

anbn=n3+2n2n3+1→1.\frac{a_n}{b_n}=\frac{n^3+2n^2}{n^3+1}\to1.

Como a série pp com p=2p=2 converge, a série dada converge.

Critério do integral

O critério do integral compara uma série com um integral impróprio e exige integrais impróprios, que só aparecem mais à frente. Até lá, usa comparação com séries de referência. O critério, com a prova por retângulos e as cotas do resto, está na página dos integrais impróprios.

Razão e raiz

Para an≠0a_n\ne0 a partir de certa ordem, calcula L=lim⁡∣an+1/an∣L=\lim|a_{n+1}/a_n|, se existir. Se L<1L<1, a série converge absolutamente. Se L>1L>1, ou o limite é +∞+\infty, diverge. Se L=1L=1, o teste não decide.

Para an=3n/n!a_n=3^n/n!,

∣an+1an∣=3n+1→0,\left|\frac{a_{n+1}}{a_n}\right|=\frac3{n+1}\to0,

logo há convergência absoluta. O fatorial sugere este teste.

O critério da raiz usa L=lim⁡∣an∣nL=\lim\sqrt[n]{|a_n|}, com as mesmas conclusões. É útil quando todo o termo está elevado a nn.

Para an=(n/(n+1))n2a_n=(n/(n+1))^{n^2},

ann=(nn+1)n=(1+1n)−n→e−1<1,\sqrt[n]{a_n}=\left(\frac{n}{n+1}\right)^n=\left(1+\frac1n\right)^{-n}\to e^{-1}<1,

logo a série converge. Calcular apenas o limite de ana_n, que dá zero, não decidiria a questão.

Séries alternadas e convergência absoluta

Se bn≥0b_n\ge0 é decrescente a partir de certa ordem e bn→0b_n\to0, a série ∑(−1)n−1bn\sum(-1)^{n-1}b_n converge, pelo critério de Leibniz. Para ∑(−1)n−1/n\sum(-1)^{n-1}/n, estas condições verificam-se. A série converge, mas a série dos módulos ∑1/n\sum1/n diverge. A convergência é condicional.

Uma série converge absolutamente se ∑∣an∣\sum|a_n| converge. Convergência absoluta implica convergência. Se ∑∣an∣\sum|a_n| diverge, ainda tens de estudar a série original.

Quando Leibniz se aplica desde o primeiro termo, o erro de uma soma parcial satisfaz

∣S−SN∣≤bN+1.|S-S_N|\le b_{N+1}.

Por exemplo, na série alternada ∑(−1)n−1/n2\sum(-1)^{n-1}/n^2, N=10N=10 garante erro no máximo 1/121<0,011/121<0{,}01. As somas parciais ficam alternadamente acima e abaixo da soma.

Estratégia de resolução

Começa pelo termo geral: se não tende para zero, termina com divergência; se tende para zero, procura razão constante, cancelamento, comparação com uma série pp, fatorial ou potência nn. Com sinais alternados, testa primeiro convergência absoluta e depois Leibniz se for necessário.

Alterar um número finito de termos não muda a convergência, mas pode mudar a soma. Um resultado L=1L=1 nos testes da razão ou da raiz exige outro critério. A harmónica e ∑1/n2\sum1/n^2 dão ambos L=1L=1, apesar de terem naturezas diferentes.

Exercícios

Fatorial e potência: escolher o teste

Estuda ∑n=1∞2nn!/nn\sum_{n=1}^{\infty}2^n n!/n^n e ∑n=1∞(n/(n+1))n\sum_{n=1}^{\infty}(n/(n+1))^n. Justifica um critério que decida cada caso. Usa o limite (1+1/n)n→e(1+1/n)^n\to e.

Pista

Na primeira série, a razão cancela os fatoriais. Na segunda, começa pelo limite do termo geral, antes de procurar um teste de convergência.

Solução

Para an=2nn!/nna_n=2^n n!/n^n, temos

an+1an=2(n+1)nn(n+1)n+1=2(nn+1)n⟶2e<1.\frac{a_{n+1}}{a_n} =\frac{2(n+1)n^n}{(n+1)^{n+1}} =2\left(\frac n{n+1}\right)^n\longrightarrow\frac2e<1.

O teste da razão prova convergência absoluta. Na segunda série, (n/(n+1))n=(1+1/n)−n→e−1≠0(n/(n+1))^n=(1+1/n)^{-n}\to e^{-1}\ne0. O termo geral não tende para zero, logo a série diverge. Uma potência com expoente nn não obriga a usar a raiz quando um teste anterior já decide.

Confere a tua resposta:

  • Simplifiquei a razão para 2(n/(n+1))ⁿ e obtive 2/e<1.
  • Concluí convergência absoluta da primeira série.
  • Obtive limite e⁻¹ do termo geral da segunda e concluí divergência.
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Duas séries com o mesmo limite da razão

Aplica o teste da razão a ∑n=1∞1/n\sum_{n=1}^{\infty}1/n e a ∑n=1∞1/n2\sum_{n=1}^{\infty}1/n^2. O teste distingue as suas naturezas? Classifica cada série com um argumento que decida.

Pista

Um limite igual a um pede outro critério. Podes comparar com séries pp ou usar agrupamento e comparação com uma telescópica.

Solução

As razões são n/(n+1)n/(n+1) e n2/(n+1)2n^2/(n+1)^2. Ambas tendem para 11, por isso o teste não decide nenhuma das duas questões.

A primeira é a harmónica, uma série pp com p=1p=1, e diverge. Podemos confirmar agrupando os termos de 2k+12^k+1 a 2k+12^{k+1}: há 2k2^k termos, cada um pelo menos 1/2k+11/2^{k+1}, logo cada grupo acrescenta pelo menos 1/21/2.

A segunda converge. Para n≥2n\ge2, 1/n2≤1/[n(n−1)]=1/(n−1)−1/n1/n^2\le1/[n(n-1)]=1/(n-1)-1/n. As somas desta majorante telescópica são limitadas por 11. A comparação prova convergência, de acordo com o critério das séries pp para p=2p=2.

Confere a tua resposta:

  • Calculei limite um nas duas razões.
  • Concluí divergência da harmónica e convergência da série de quadrados.
  • Justifiquei as conclusões por outro argumento, sem usar apenas o limite do termo geral.
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Taylor com controlo do erro

Obtém o polinómio de Taylor de ordem 33 de ln⁡(2+x)\ln(2+x) em zero. Escreve o resto de Lagrange e limita o erro em x=0,2x=0{,}2.

Pista

Calcula as três primeiras derivadas e a quarta para o resto.

Mais uma pista

f(4)(x)=−6/(2+x)4f^{(4)}(x)=-6/(2+x)^4. No segmento de zero a 0,20{,}2, o denominador é pelo menos 242^4.

Solução

As derivadas em zero são f(0)=ln⁡2f(0)=\ln2, f′(0)=1/2f'(0)=1/2, f′′(0)=−1/4f''(0)=-1/4 e f(3)(0)=1/4f^{(3)}(0)=1/4. Portanto

P3(x)=ln⁡2+x2−x28+x324.P_3(x)=\ln2+\frac x2-\frac{x^2}{8}+\frac{x^3}{24}.

O resto é R3(x)=−x4/[4(2+ξ)4]R_3(x)=-x^4/[4(2+\xi)^4], com ξ\xi entre zero e xx. Em x=0,2x=0{,}2, ∣R3∣≤(0,2)4/(4⋅16)=1/40000|R_3|\le(0{,}2)^4/(4\cdot16)=1/40000.

Confere a tua resposta:

  • Dividi cada derivada pelo fatorial correto.
  • Escrevi o resto com xi entre o centro e o ponto.
  • Obtive uma cota de 1/40000.

Erros frequentes

Os coeficientes são derivadas divididas por fatoriais. O ponto desconhecido do resto não pode ser escolhido livremente.

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Construir uma série sem derivar muitas vezes

Obtém a série de Taylor em zero de x4e−x2x^4e^{-x^2} e indica onde representa a função.

Pista

Parte da série de eue^u.

Mais uma pista

Substitui u=−x2u=-x^2 e só depois multiplica por x4x^4.

Solução

Como eu=∑k=0∞uk/k!e^u=\sum_{k=0}^{\infty}u^k/k! para todo o real uu,

x4e−x2=∑k=0∞(−1)kx2k+4k!.x^4e^{-x^2}=\sum_{k=0}^{\infty}\frac{(-1)^kx^{2k+4}}{k!}.

Os primeiros termos são x4−x6+x8/2−x10/6+⋯x^4-x^6+x^8/2-x^{10}/6+\cdots. A representação vale para todo o x∈Rx\in\mathbb R.

Confere a tua resposta:

  • Obtive o expoente 2k+4 e o sinal alternado.
  • Mantive k! no denominador.
  • Indiquei validade em todo o real.

Erros frequentes

Elevar −x2-x^2 a k afeta tanto o sinal como o expoente de x. O fator exterior soma quatro ao expoente.

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Cancelamento com índice inicial diferente

Estuda e calcula ∑n=2∞[1/(2n−1)−1/(2n+1)]\sum_{n=2}^{\infty}[1/(2n-1)-1/(2n+1)].

Pista

Escreve a soma apenas até N.

Mais uma pista

Os denominadores são 3,5,7,…3,5,7,\ldots; verifica o primeiro termo que não cancela.

Solução

A soma parcial é

SN=(13−15)+(15−17)+⋯+(12N−1−12N+1)=13−12N+1.\begin{gathered} S_N\\ =\bigl(\frac13-\frac15\bigr)+\bigl(\frac15-\frac17\bigr)+\cdots+ \bigl(\frac1{2N-1}-\frac1{2N+1}\bigr)\\ =\frac13-\frac1{2N+1}. \end{gathered}

O limite é 1/31/3, portanto a série converge e tem essa soma.

Confere a tua resposta:

  • Escrevi uma soma parcial finita.
  • Preservei os dois termos de fronteira.
  • Obtive soma igual a um terço.

Erros frequentes

Começar em n=2 deixa 1/3, não 1. Não separes a diferença em duas séries divergentes.

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Convergência absoluta ou condicional

Estuda ∑n=1∞(−1)n(n+1)/(n2+1)\sum_{n=1}^{\infty}(-1)^n(n+1)/(n^2+1). Distingue convergência e convergência absoluta.

Pista

O módulo comporta-se como 1/n.

Mais uma pista

Para Leibniz, testa o decréscimo de bn=(n+1)/(n2+1)b_n=(n+1)/(n^2+1), por exemplo através da função correspondente.

Solução

Comparando os módulos com 1/n1/n, temos n(n+1)/(n2+1)→1n(n+1)/(n^2+1)\to1, por isso a série dos módulos diverge.

Para b(x)=(x+1)/(x2+1)b(x)=(x+1)/(x^2+1), b′(x)=(−x2−2x+1)/(x2+1)2<0b'(x)=(-x^2-2x+1)/(x^2+1)^2<0 para x≥1x\ge1. Além disso, bn→0b_n\to0. Leibniz garante a convergência da série original. É condicional.

Confere a tua resposta:

  • Usei comparação por limite para os módulos.
  • Confirmei decréscimo e limite zero.
  • Concluí convergência condicional.

Erros frequentes

Divergência da série dos módulos não implica divergência da série com sinais. A alternância sozinha também não chega.

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Raio e extremos de uma série de potências

Determina o intervalo de convergência de ∑n=1∞(x+1)n/(n2n)\sum_{n=1}^{\infty}(x+1)^n/(n2^n).

Pista

Aplica o teste da razão aos módulos.

Mais uma pista

O limite da razão é ∣x+1∣/2|x+1|/2. Os extremos são −3-3 e 11.

Solução

A razão é ∣x+1∣n/[2(n+1)]|x+1|n/[2(n+1)] e tende para ∣x+1∣/2|x+1|/2. Logo R=2R=2 e há convergência absoluta para −3<x<1-3<x<1.

Em x=−3x=-3, obtemos ∑(−1)n/n\sum(-1)^n/n, que converge por Leibniz. Em x=1x=1, obtemos a harmónica, que diverge. O intervalo é [−3,1[[-3,1[.

Confere a tua resposta:

  • Obtive centro menos um e raio dois.
  • Estudei cada extremo separadamente.
  • Escrevi o intervalo [-3,1[.

Erros frequentes

O teste da razão dá 1 nos extremos e não decide. O centro é menos um, não zero.

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