Sistemas de equações lineares e método de Gauss

Escrever sistemas como AX = B, eliminar por Gauss, classificar pela característica e resolver um sistema 3x3.

TLDR

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As três equações abaixo impõem condições ao mesmo triplo (x,y,z)(x,y,z). Resolver cada uma isoladamente não chega: procuramos os valores que verificam todas ao mesmo tempo.

Trabalhamos com coeficientes e incógnitas reais.

Do sistema à matriz

Um sistema de mm equações a nn incógnitas escreve-se como

{a11x1+a12x2+⋯+a1nxn=b1a21x1+a22x2+⋯+a2nxn=b2⋮am1x1+am2x2+⋯+amnxn=bm\begin{cases} a_{11}x_1 + a_{12}x_2 + \dots + a_{1n}x_n = b_1 \\ a_{21}x_1 + a_{22}x_2 + \dots + a_{2n}x_n = b_2 \\ \vdots \\ a_{m1}x_1 + a_{m2}x_2 + \dots + a_{mn}x_n = b_m \end{cases}

e condensa-se na forma matricial AX=BAX = B, onde AA é a matriz dos coeficientes (m×nm \times n), XX é a coluna das incógnitas e BB é a coluna dos termos independentes. Para trabalhar, juntamos as duas na matriz ampliada [A∣B][A \mid B], que é onde o método de Gauss atua.

Exemplo com três equações e três incógnitas, que resolvemos em simultâneo:

{x+y+z=62x−y+z=3x+2y−z=2[A∣B]=[111∣62−11∣312−1∣2].\begin{cases} x + y + z = 6 \\ 2x - y + z = 3 \\ x + 2y - z = 2 \end{cases} \qquad [A \mid B] = \begin{bmatrix} 1 & 1 & 1 & \mid & 6 \\ 2 & -1 & 1 & \mid & 3 \\ 1 & 2 & -1 & \mid & 2 \end{bmatrix}.

O método de Gauss

A ideia é transformar a matriz ampliada noutra equivalente, com as mesmas soluções, mas em escada de linhas:

  • a primeira entrada não nula de cada linha é o pivô (não tem de ser 1);
  • cada pivô fica à direita do anterior;
  • as linhas nulas ficam em baixo.

Usamos três operações elementares, todas reversíveis:

  1. trocar duas linhas;
  2. multiplicar uma linha por um escalar não nulo;
  3. somar a uma linha um múltiplo de outra linha.

Para eliminar no exemplo, subtrai o dobro da linha 1 à linha 2 e a linha 1 à linha 3:

[111∣60−3−1∣−901−2∣−4].\begin{bmatrix} 1 & 1 & 1 & \mid & 6 \\ 0 & -3 & -1 & \mid & -9 \\ 0 & 1 & -2 & \mid & -4 \end{bmatrix}.

Troca as linhas 2 e 3 para usar o pivô 1, que evita frações. Depois faz L3←L3+3L2L_3\leftarrow L_3+3L_2:

  • a segunda entrada fica −3+3=0-3+3=0;
  • a terceira fica −1+3(−2)=−7-1+3(-2)=-7;
  • o termo independente fica −9+3(−4)=−21-9+3(-4)=-21.

Obténs:

[111∣601−2∣−400−7∣−21].\begin{bmatrix} 1 & 1 & 1 & \mid & 6 \\ 0 & 1 & -2 & \mid & -4 \\ 0 & 0 & -7 & \mid & -21 \end{bmatrix}.

A última linha diz −7z=−21-7z = -21, logo z=3z = 3.

Subindo: y−2⋅3=−4y - 2 \cdot 3 = -4, logo y=2y = 2. E x+2+3=6x + 2 + 3 = 6, logo x=1x = 1.

A solução é (x,y,z)=(1,2,3)(x, y, z) = (1, 2, 3), que podes confirmar por substituição direta nas três equações originais.

Característica e classificação

A característica de uma matriz, car⁡(A)\operatorname{car}(A), é o número de linhas não nulas da sua forma em escada, ou seja, o número de pivôs. Para classificar um sistema, compara-se a característica da matriz dos coeficientes com a da matriz ampliada:

  • se car⁡(A)=car⁡([A∣B])=n\operatorname{car}(A) = \operatorname{car}([A \mid B]) = n (número de incógnitas), o sistema é possível e determinado: tem exatamente uma solução;
  • se car⁡(A)=car⁡([A∣B])<n\operatorname{car}(A) = \operatorname{car}([A \mid B]) < n, o sistema é possível e indeterminado: tem infinitas soluções, com n−car⁡(A)n - \operatorname{car}(A) variáveis livres;
  • se car⁡(A)<car⁡([A∣B])\operatorname{car}(A) < \operatorname{car}([A \mid B]), o sistema é impossível: não tem solução.

No exemplo, ambas as características valem 3, igual ao número de incógnitas: sistema possível e determinado, como a solução única confirmou.

Dois casos pequenos para fixar a leitura.

O sistema x+y=1x + y = 1 com 2x+2y=22x + 2y = 2 tem ampliada [11∣100∣0]\begin{bmatrix} 1 & 1 & \mid & 1 \\ 0 & 0 & \mid & 0 \end{bmatrix}: característica 1 de ambos os lados, uma variável livre, infinitas soluções da forma (1−t,t)(1 - t, t).

Já x+y=1x + y = 1 com x+y=2x + y = 2 dá [11∣100∣1]\begin{bmatrix} 1 & 1 & \mid & 1 \\ 0 & 0 & \mid & 1 \end{bmatrix}: a segunda linha lê-se 0=10 = 1. É impossível. Uma linha [0    0    …    0∣b][0 \;\; 0 \;\; \dots \;\; 0 \mid b] com b≠0b \neq 0 é sempre o sinal de impossibilidade.

Um sistema com B=0B = 0 diz-se homogéneo. Nunca é impossível, porque (0,0,…,0)(0, 0, \dots, 0) resolve-o sempre (a solução trivial). Tem outras soluções além da trivial exatamente quando car⁡(A)<n\operatorname{car}(A) < n. Em particular, um sistema homogéneo com mais incógnitas do que equações tem sempre soluções não triviais.

Sistemas com um parâmetro

Quando os coeficientes dependem de um parâmetro, a classificação muda com ele. Por isso, separa os valores que anulam um pivô antes de dividires por ele.

Considera

{x+ky=1kx+y=1\begin{cases} x + ky = 1 \\ kx + y = 1 \end{cases}

com k∈Rk \in \mathbb{R}. O determinante da matriz dos coeficientes é 1⋅1−k⋅k=1−k21 \cdot 1 - k \cdot k = 1 - k^2, que se anula exatamente para k=1k = 1 e k=−1k = -1.

  • Se k≠1k \neq 1 e k≠−1k \neq -1, o determinante é não nulo: sistema possível e determinado, com solução única obtida por substituição.
  • Se k=1k = 1, as duas equações são x+y=1x + y = 1: a segunda repete a primeira. Sistema possível e indeterminado, com soluções (1−t,t)(1 - t, t).
  • Se k=−1k = -1, as equações são x−y=1x - y = 1 e −x+y=1-x + y = 1. Somando-as obténs 0=20 = 2: sistema impossível.

A estratégia geral é separar esses valores antes de dividir por um pivô. O determinante 1−k21-k^2 confirma a mesma separação quando a matriz é quadrada, mas a decisão nasce da eliminação L2←L2−kL1L_2\leftarrow L_2-kL_1, que dá (1−k2)y=1−k(1-k^2)y=1-k. Para matrizes retangulares, usa Gauss e compara características.

No exemplo, L2←L2−kL1L_2\leftarrow L_2-kL_1 dá (1−k2)y=1−k(1-k^2)y=1-k. Se k≠±1k\ne\pm1, podemos dividir e obter y=1/(1+k)y=1/(1+k), depois x=1/(1+k)x=1/(1+k). Cancelar 1−k1-k sem estudar k=1k=1 apagaria precisamente o caso com infinitas soluções.

Forma reduzida e variáveis livres

No método de Gauss-Jordan, normalizamos os pivôs para 1 e eliminamos também acima deles. A forma resultante é a forma em escada reduzida. Por exemplo,

[12−1300120000] →L1←L1+L2 [120500120000].\left[\begin{array}{ccc|c} 1&2&-1&3\\ 0&0&1&2\\ 0&0&0&0 \end{array}\right] \ \xrightarrow{L_1\leftarrow L_1+L_2}\ \left[\begin{array}{ccc|c} 1&2&0&5\\ 0&0&1&2\\ 0&0&0&0 \end{array}\right].

As colunas de xx e zz têm pivôs; a de yy não. Escolhemos y=ty=t e obtemos

(x,y,z)=(5−2t,t,2)=(5,0,2)+t(−2,1,0),t∈R.(x,y,z)=(5-2t,t,2)=(5,0,2)+t(-2,1,0),\qquad t\in\mathbb R.

A linha nula não é uma incógnita livre. São as colunas sem pivô da matriz dos coeficientes que identificam as incógnitas livres.

Este exemplo também mostra a estrutura de um sistema não homogéneo. Chamamos núcleo de AA, ker⁡A\ker A, ao conjunto das soluções de Ax=0Ax=0. Se x0x_0 é uma solução de Ax=bAx=b, todas as soluções são x0+ker⁡Ax_0+\ker A, isto é, x0+ux_0+u com Au=0Au=0. A diferença entre duas soluções pertence ao núcleo, porque A(x−x0)=b−b=0A(x-x_0)=b-b=0.

Aqui, o núcleo é gerado por (−2,1,0)(-2,1,0). O conjunto das soluções é uma reta deslocada, não um subespaço.

Inversa por Gauss-Jordan

Para inverter AA, colocamos a identidade à direita e aplicamos cada operação aos dois blocos:

[12102501]→L2←L2−2L1[121001−21]→L1←L1−2L2[105−201−21].\left[\begin{array}{cc|cc}1&2&1&0\\2&5&0&1\end{array}\right] \xrightarrow{L_2\leftarrow L_2-2L_1} \left[\begin{array}{cc|cc}1&2&1&0\\0&1&-2&1\end{array}\right] \xrightarrow{L_1\leftarrow L_1-2L_2} \left[\begin{array}{cc|cc}1&0&5&-2\\0&1&-2&1\end{array}\right].

Logo A−1=[5−2−21]A^{-1}=\begin{bmatrix}5&-2\\-2&1\end{bmatrix}. A verificação AA−1=IAA^{-1}=I confirma a conta. Se faltar um pivô no bloco esquerdo, não conseguimos transformá-lo em II: a matriz é singular e não tem inversa. Um pivô no bloco direito não resolve essa falta.

Ler a característica

Para uma matriz m×nm\times n, 0≤car⁡(A)≤min⁡(m,n)0\leq\operatorname{car}(A)\leq\min(m,n). A característica também é a dimensão do espaço gerado pelas colunas e do espaço gerado pelas linhas. Operações elementares preservam esse número.

Por isso, ter mais equações do que incógnitas não torna um sistema automaticamente impossível, pois equações podem repetir-se. Ter menos equações do que incógnitas impede uma solução única, mas o sistema ainda pode ser impossível ou ter infinitas soluções.

O que costuma correr mal

  • Fazer operações que não são elementares, como multiplicar duas linhas entre si ou somar a coluna dos termos independentes a uma coluna de coeficientes.
  • Esquecer a coluna BB durante a eliminação, ou aplicá-la só a algumas linhas. Leva-a sempre contigo até ao fim.
  • Declarar um sistema impossível por veres zeros à esquerda sem olhar para a última coluna: [0    0∣0][0 \;\; 0 \mid 0] é uma equação redundante, só [0    0∣b≠0][0 \;\; 0 \mid b \neq 0] é contradição.
  • Contar mal as variáveis livres: são n−car⁡(A)n - \operatorname{car}(A), não o número de zeros que vês na matriz.

Exercícios

Duas variáveis livres

Resolve por Gauss o sistema abaixo. Indica a matriz em escada reduzida, todas as soluções e todas as soluções do sistema homogéneo associado.

{x+y+z+t=2,x+2y+2z+t=0,2x+3y+3z+2t=2.\begin{cases} x+y+z+t=2,\\ x+2y+2z+t=0,\\ 2x+3y+3z+2t=2. \end{cases}

Pista

Elimina xx nas duas últimas equações. Depois compara as linhas que obtiveste.

Solução

Aplicamos L2←L2−L1L_2\leftarrow L_2-L_1 e L3←L3−2L1L_3\leftarrow L_3-2L_1 à ampliada:

[111120110−20110−2].\left[\begin{array}{cccc|c} 1&1&1&1&2\\0&1&1&0&-2\\0&1&1&0&-2 \end{array}\right].

Agora L3←L3−L2L_3\leftarrow L_3-L_2 produz uma linha nula. Com L1←L1−L2L_1\leftarrow L_1-L_2, obtemos a forma reduzida:

[100140110−200000].\left[\begin{array}{cccc|c} 1&0&0&1&4\\0&1&1&0&-2\\0&0&0&0&0 \end{array}\right].

Há pivôs nas colunas de x,yx,y, logo z,tz,t são livres. Escolhendo z=sz=s e t=rt=r, todas as soluções são

(x,y,z,t)=(4−r,−2−s,s,r),s,r∈R.(x,y,z,t)=(4-r,-2-s,s,r),\qquad s,r\in\mathbb R.

Também podemos escrevê-las como

(4,−2,0,0)+s(0,−1,1,0)+r(−1,0,0,1).(4,-2,0,0)+s(0,-1,1,0)+r(-1,0,0,1).

O sistema homogéneo tem as mesmas duas direções, sem a solução particular (4,−2,0,0)(4,-2,0,0). As duas características são 2 e há 4−2=24-2=2 variáveis livres, embora só haja uma linha nula.

Confere a tua resposta:

  • Obtém a forma reduzida por operações nas linhas completas.
  • Parametriza com duas variáveis livres e distingue a solução particular do núcleo.
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Discutir antes de dividir

Discute x+ky=1, kx+y=−1x+ky=1,\ kx+y=-1 para todo k∈Rk\in\mathbb R.

Pista

Aplica L2←L2−kL1L_2\leftarrow L_2-kL_1 em vez de invocar já o determinante.

Mais uma pista

Estuda k=1 e k=-1 antes de cancelar fatores.

Solução

Por Gauss, L2←L2−kL1L_2\leftarrow L_2-kL_1 dá (1−k2)y=−1−k(1-k^2)y=-1-k. Para k≠±1k\ne\pm1, (x,y)=(1/(1−k),−1/(1−k))(x,y)=(1/(1-k),-1/(1-k)). Para k=1k=1, as equações contradizem-se. Para k=−1k=-1, ambas equivalem a x−y=1x-y=1, com soluções (1+t,t)(1+t,t).

Confere a tua resposta:

  • Separa os três casos.
  • Obtém as soluções dos casos possíveis.

Erros frequentes

Separa k=1k=1 e k=−1k=-1 antes de dividir por 1−k21-k^2. Um dá contradição e o outro uma equação redundante.

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Dois blocos, as mesmas operações

Inverte por Gauss-Jordan A=[1225]A=\begin{bmatrix}1&2\\2&5\end{bmatrix}, mostrando as operações.

Pista

Parte de [A|I].

Mais uma pista

Usa L2−2L1L_2-2L_1 e depois L1−2L2L_1-2L_2.

Solução

A primeira operação dá [121001−21]\left[\begin{array}{cc|cc}1&2&1&0\\0&1&-2&1\end{array}\right]. A segunda dá [105−201−21]\left[\begin{array}{cc|cc}1&0&5&-2\\0&1&-2&1\end{array}\right]. Portanto A−1=[5−2−21]A^{-1}=\begin{bmatrix}5&-2\\-2&1\end{bmatrix}. Para verificar, as linhas do produto AA−1AA^{-1} são (5−4,−2+2)=(1,0)(5-4,-2+2)=(1,0) e (10−10,−4+5)=(0,1)(10-10,-4+5)=(0,1). Obtivemos a identidade.

Confere a tua resposta:

  • Aplica as operações à linha completa.
  • Obtém e verifica a inversa.

Erros frequentes

Aplica cada operação aos dois blocos de [A∣I][A\mid I]. Parar numa matriz triangular não dá ainda a inversa.

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Sistema cíclico com um parâmetro

Considera At=[1t001tt01]A_t=\begin{bmatrix}1&t&0\\0&1&t\\t&0&1\end{bmatrix} e b=(1,0,−1)Tb=(1,0,-1)^T. Discute Atx=bA_tx=b para todo t∈Rt\in\mathbb R, escreve todas as soluções e descreve as soluções do sistema homogéneo no caso singular.

Pista

Calcula o determinante antes de dividir por uma expressão em t.

Mais uma pista

det⁡At=1+t3=(t+1)(t2−t+1)\det A_t=1+t^3=(t+1)(t^2-t+1). O segundo fator é positivo para todo tt real.

Solução

Se t≠−1t\ne-1, a matriz é invertível. Das equações y+tz=0y+tz=0 e tx+z=−1tx+z=-1, obtemos y=−tzy=-tz e z=−1−txz=-1-tx. Substituir na primeira dá (1+t3)x=1−t2(1+t^3)x=1-t^2. Logo

x=1−t21+t3,y=t(t+1)1+t3,z=−t+11+t3.x=\frac{1-t^2}{1+t^3},\qquad y=\frac{t(t+1)}{1+t^3},\qquad z=-\frac{t+1}{1+t^3}.

Para t=−1t=-1, as equações são x−y=1x-y=1, y−z=0y-z=0 e −x+z=−1-x+z=-1. A terceira repete a soma das duas primeiras com sinal trocado. Assim, (x,y,z)=(1+s,s,s)(x,y,z)=(1+s,s,s), com s∈Rs\in\mathbb R. Há uma variável livre, característica 2 e soluções homogéneas s(1,1,1)s(1,1,1). As duas fórmulas não se substituem uma na outra em t=−1t=-1: essa divisão deixou de ser válida.

Confere a tua resposta:

  • Separa o caso t = −1 antes de dividir.
  • Dá a solução única nos outros casos e a parametrização no caso singular.

Erros frequentes

Determinante zero não significa sistema impossível. Neste caso, a equação redundante é compatível com o termo independente.

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