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Matrizes e operações matriciais

O que é uma matriz, soma, produto, transposta e inversa, com um exemplo completo verificado.

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Quase tudo em ALGA passa por matrizes: um sistema de equações escreve-se como AX=BAX = B, uma aplicação linear representa-se por uma matriz e um vetor próprio obedece a Av=λvAv = \lambda v. Por isso, a primeira competência da cadeira é operar com matrizes sem erros de índices nem de dimensões.

O que é uma matriz

Uma matriz do tipo m×nm \times n sobre os reais é um quadro com mm linhas e nn colunas de números reais:

A=[a11a12a1na21a22a2nam1am2amn].A = \begin{bmatrix} a_{11} & a_{12} & \dots & a_{1n} \\ a_{21} & a_{22} & \dots & a_{2n} \\ \vdots & \vdots & & \vdots \\ a_{m1} & a_{m2} & \dots & a_{mn} \end{bmatrix}.

A entrada aija_{ij} vive na linha ii e na coluna jj. O tipo indica-se sempre como linhas ×\times colunas: uma matriz 3×23 \times 2 tem 3 linhas e 2 colunas. Uma matriz com m=nm = n diz-se quadrada (de ordem nn); com m=1m = 1 é uma matriz linha e com n=1n = 1 é uma matriz coluna, que é como vamos escrever vetores quando multiplicamos por matrizes.

Algumas matrizes têm nome próprio. A matriz nula 00 tem todas as entradas iguais a zero. A matriz identidade InI_n é quadrada de ordem nn, com uns na diagonal principal e zeros fora dela:

I2=[1001],I3=[100010001].I_2 = \begin{bmatrix} 1 & 0 \\ 0 & 1 \end{bmatrix}, \qquad I_3 = \begin{bmatrix} 1 & 0 & 0 \\ 0 & 1 & 0 \\ 0 & 0 & 1 \end{bmatrix}.

Uma matriz quadrada diz-se diagonal quando só a diagonal principal pode ter entradas não nulas, triangular superior quando tudo abaixo da diagonal é zero e simétrica quando aij=ajia_{ij} = a_{ji} para todos os pares (vamos voltar às simétricas na página de valores próprios).

Soma e produto por escalar

A soma de duas matrizes do mesmo tipo faz-se entrada a entrada, e o produto por um escalar kk multiplica todas as entradas por kk:

A+B=[aij+bij],kA=[kaij].A + B = [a_{ij} + b_{ij}], \qquad kA = [k a_{ij}].

Com as matrizes

A=[2103],B=[1142],A = \begin{bmatrix} 2 & 1 \\ 0 & 3 \end{bmatrix}, \qquad B = \begin{bmatrix} 1 & -1 \\ 4 & 2 \end{bmatrix},

temos

A+B=[3045],2A=[4206].A + B = \begin{bmatrix} 3 & 0 \\ 4 & 5 \end{bmatrix}, \qquad 2A = \begin{bmatrix} 4 & 2 \\ 0 & 6 \end{bmatrix}.

Somar matrizes de tipos diferentes não faz sentido, tal como somar vetores de dimensões diferentes. Se o enunciado pede A+BA + B e os tipos não coincidem, algo está errado antes de começares a conta.

Produto de matrizes

O produto ABAB só existe quando o número de colunas de AA iguala o número de linhas de BB. Se AA é m×pm \times p e BB é p×np \times n, o produto é m×nm \times n e cada entrada combina uma linha de AA com uma coluna de BB:

(AB)ij=ai1b1j+ai2b2j++aipbpj.(AB)_{ij} = a_{i1}b_{1j} + a_{i2}b_{2j} + \dots + a_{ip}b_{pj}.

Em palavras: a entrada na linha ii, coluna jj do produto é o produto escalar da linha ii de AA pela coluna jj de BB. Com as matrizes AA e BB acima, ambas 2×22 \times 2:

AB=[21+142(1)+1201+340(1)+32]=[60126].AB = \begin{bmatrix} 2 \cdot 1 + 1 \cdot 4 & 2 \cdot (-1) + 1 \cdot 2 \\ 0 \cdot 1 + 3 \cdot 4 & 0 \cdot (-1) + 3 \cdot 2 \end{bmatrix} = \begin{bmatrix} 6 & 0 \\ 12 & 6 \end{bmatrix}.

Repara que a ordem interessa. No sentido contrário:

BA=[12+(1)011+(1)342+2041+23]=[22810]AB.BA = \begin{bmatrix} 1 \cdot 2 + (-1) \cdot 0 & 1 \cdot 1 + (-1) \cdot 3 \\ 4 \cdot 2 + 2 \cdot 0 & 4 \cdot 1 + 2 \cdot 3 \end{bmatrix} = \begin{bmatrix} 2 & -2 \\ 8 & 10 \end{bmatrix} \neq AB.

O produto de matrizes não é comutativo em geral. Este é o erro mais caro desta página: nunca troques a ordem de um produto para “simplificar”. O que vale sempre é a associatividade, A(BC)=(AB)CA(BC) = (AB)C, a distributividade, A(B+C)=AB+ACA(B + C) = AB + AC, e o papel da identidade, AIn=ImA=AAI_n = I_m A = A para AA do tipo m×nm \times n.

Transposta

A transposta ATA^T obtém-se trocando linhas por colunas: a linha ii de AA passa a ser a coluna ii de ATA^T. No exemplo,

AT=[2013].A^T = \begin{bmatrix} 2 & 0 \\ 1 & 3 \end{bmatrix}.

As propriedades que vais usar são (AT)T=A(A^T)^T = A, (A+B)T=AT+BT(A + B)^T = A^T + B^T e, com atenção à ordem,

(AB)T=BTAT.(AB)^T = B^T A^T.

A ordem inverte-se porque as linhas de ABAB vêm das linhas de AA, que passam a colunas. Uma matriz quadrada com AT=AA^T = A é simétrica; com AT=AA^T = -A diz-se antissimétrica.

Matriz inversa

Uma matriz quadrada AA de ordem nn diz-se invertível (ou não singular) quando existe uma matriz A1A^{-1} do mesmo tipo tal que

AA1=A1A=In.AA^{-1} = A^{-1}A = I_n.

Se existir, a inversa é única. Nem todas as matrizes quadradas têm inversa: a matriz nula, por exemplo, nunca é invertível, porque qualquer produto com ela continua a dar zero.

Para matrizes 2×22 \times 2 há uma fórmula direta. Se A=[abcd]A = \begin{bmatrix} a & b \\ c & d \end{bmatrix} e adbc0ad - bc \neq 0, então

A1=1adbc[dbca].A^{-1} = \frac{1}{ad - bc}\begin{bmatrix} d & -b \\ -c & a \end{bmatrix}.

O número adbcad - bc é o determinante de AA, que vais estudar na próxima página depois desta. Toma C=[2113]C = \begin{bmatrix} 2 & 1 \\ 1 & 3 \end{bmatrix}. O determinante vale 2311=52 \cdot 3 - 1 \cdot 1 = 5, logo

C1=15[3112]=[3/51/51/52/5].C^{-1} = \frac{1}{5}\begin{bmatrix} 3 & -1 \\ -1 & 2 \end{bmatrix} = \begin{bmatrix} 3/5 & -1/5 \\ -1/5 & 2/5 \end{bmatrix}.

Confirmamos multiplicando:

CC1=15[2113][3112]=15[5005]=I2.CC^{-1} = \frac{1}{5}\begin{bmatrix} 2 & 1 \\ 1 & 3 \end{bmatrix} \begin{bmatrix} 3 & -1 \\ -1 & 2 \end{bmatrix} = \frac{1}{5}\begin{bmatrix} 5 & 0 \\ 0 & 5 \end{bmatrix} = I_2.

Para ordens maiores, a inversa calcula-se pelo método de Gauss-Jordan (resolver AX=IAX = I em simultâneo) ou pela matriz adjunta, que envolve determinantes. Ambos aparecem nas páginas seguintes. Para já, fixa as propriedades: (A1)1=A(A^{-1})^{-1} = A, (AB)1=B1A1(AB)^{-1} = B^{-1}A^{-1} (outra vez com a ordem trocada) e (AT)1=(A1)T(A^T)^{-1} = (A^{-1})^T.

Exemplo resolvido

Calcula ABAB, BABA e verifica se C=ABBAC = AB - BA é simétrica, com as matrizes AA e BB do início.

Já temos AB=[60126]AB = \begin{bmatrix} 6 & 0 \\ 12 & 6 \end{bmatrix} e BA=[22810]BA = \begin{bmatrix} 2 & -2 \\ 8 & 10 \end{bmatrix}. Subtraindo:

C=ABBA=[4244].C = AB - BA = \begin{bmatrix} 4 & 2 \\ 4 & -4 \end{bmatrix}.

Para CC ser simétrica seria preciso CT=CC^T = C, ou seja, as entradas fora da diagonal iguais: c12=2c_{12} = 2 contra c21=4c_{21} = 4. Não é simétrica. Nota que a diagonal de ABBAAB - BA pode ser qualquer coisa, mas o traço (a soma da diagonal) é sempre zero quando ABAB e BABA existem, porque tr(AB)=tr(BA)\operatorname{tr}(AB) = \operatorname{tr}(BA). Aqui, tr(AB)=12\operatorname{tr}(AB) = 12 e tr(BA)=12\operatorname{tr}(BA) = 12. Confirmado.

O que costuma correr mal

  • Multiplicar matrizes sem verificar os tipos e obter uma matriz com o formato errado, ou tentar somar matrizes de tipos diferentes.
  • Trocar a ordem de um produto ou de uma inversa de produto: (AB)1=B1A1(AB)^{-1} = B^{-1}A^{-1}, nunca A1B1A^{-1}B^{-1} em geral.
  • Aplicar a fórmula da inversa 2×22 \times 2 sem verificar que adbc0ad - bc \neq 0, ou trocar os sinais das entradas fora da diagonal.
  • Confundir ATA^T com A1A^{-1}: a transposta existe sempre, a inversa só para quadradas com determinante não nulo.
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