Quase tudo em ALGA passa por matrizes: um sistema de equações escreve-se como AX=B, uma aplicação linear representa-se por uma matriz e um vetor próprio obedece a Av=λv. Por isso, a primeira competência da cadeira é operar com matrizes sem erros de índices nem de dimensões.
O que é uma matriz
Uma matriz do tipo m×n sobre os reais é um quadro com m linhas e n colunas de números reais:
A entrada aij vive na linha i e na coluna j. O tipo indica-se sempre como linhas × colunas: uma matriz 3×2 tem 3 linhas e 2 colunas. Uma matriz com m=n diz-se quadrada (de ordem n); com m=1 é uma matriz linha e com n=1 é uma matriz coluna, que é como vamos escrever vetores quando multiplicamos por matrizes.
Algumas matrizes têm nome próprio. A matriz nula0 tem todas as entradas iguais a zero. A matriz identidadeIn é quadrada de ordem n, com uns na diagonal principal e zeros fora dela:
I2=[1001],I3=100010001.
Uma matriz quadrada diz-se diagonal quando só a diagonal principal pode ter entradas não nulas, triangular superior quando tudo abaixo da diagonal é zero e simétrica quando aij=aji para todos os pares (vamos voltar às simétricas na página de valores próprios).
Soma e produto por escalar
A soma de duas matrizes do mesmo tipo faz-se entrada a entrada, e o produto por um escalark multiplica todas as entradas por k:
A+B=[aij+bij],kA=[kaij].
Com as matrizes
A=[2013],B=[14−12],
temos
A+B=[3405],2A=[4026].
Somar matrizes de tipos diferentes não faz sentido, tal como somar vetores de dimensões diferentes. Se o enunciado pede A+B e os tipos não coincidem, algo está errado antes de começares a conta.
Produto de matrizes
O produtoAB só existe quando o número de colunas de A iguala o número de linhas de B. Se A é m×p e B é p×n, o produto é m×n e cada entrada combina uma linha de A com uma coluna de B:
(AB)ij=ai1b1j+ai2b2j+⋯+aipbpj.
Em palavras: a entrada na linha i, coluna j do produto é o produto escalar da linha i de A pela coluna j de B. Com as matrizes A e B acima, ambas 2×2:
O produto de matrizes não é comutativo em geral. Este é o erro mais caro desta página: nunca troques a ordem de um produto para “simplificar”. O que vale sempre é a associatividade, A(BC)=(AB)C, a distributividade, A(B+C)=AB+AC, e o papel da identidade, AIn=ImA=A para A do tipo m×n.
Transposta
A transpostaAT obtém-se trocando linhas por colunas: a linha i de A passa a ser a coluna i de AT. No exemplo,
AT=[2103].
As propriedades que vais usar são (AT)T=A, (A+B)T=AT+BT e, com atenção à ordem,
(AB)T=BTAT.
A ordem inverte-se porque as linhas de AB vêm das linhas de A, que passam a colunas. Uma matriz quadrada com AT=A é simétrica; com AT=−A diz-se antissimétrica.
Matriz inversa
Uma matriz quadrada A de ordem n diz-se invertível (ou não singular) quando existe uma matriz A−1 do mesmo tipo tal que
AA−1=A−1A=In.
Se existir, a inversa é única. Nem todas as matrizes quadradas têm inversa: a matriz nula, por exemplo, nunca é invertível, porque qualquer produto com ela continua a dar zero.
Para matrizes 2×2 há uma fórmula direta. Se A=[acbd] e ad−bc=0, então
A−1=ad−bc1[d−c−ba].
O número ad−bc é o determinante de A, que vais estudar na próxima página depois desta. Toma C=[2113]. O determinante vale 2⋅3−1⋅1=5, logo
C−1=51[3−1−12]=[3/5−1/5−1/52/5].
Confirmamos multiplicando:
CC−1=51[2113][3−1−12]=51[5005]=I2.
Para ordens maiores, a inversa calcula-se pelo método de Gauss-Jordan (resolver AX=I em simultâneo) ou pela matriz adjunta, que envolve determinantes. Ambos aparecem nas páginas seguintes. Para já, fixa as propriedades: (A−1)−1=A, (AB)−1=B−1A−1 (outra vez com a ordem trocada) e (AT)−1=(A−1)T.
Exemplo resolvido
Calcula AB, BA e verifica se C=AB−BA é simétrica, com as matrizes A e B do início.
Já temos AB=[61206] e BA=[28−210]. Subtraindo:
C=AB−BA=[442−4].
Para C ser simétrica seria preciso CT=C, ou seja, as entradas fora da diagonal iguais: c12=2 contra c21=4. Não é simétrica. Nota que a diagonal de AB−BA pode ser qualquer coisa, mas o traço (a soma da diagonal) é sempre zero quando AB e BA existem, porque tr(AB)=tr(BA). Aqui, tr(AB)=12 e tr(BA)=12. Confirmado.
O que costuma correr mal
Multiplicar matrizes sem verificar os tipos e obter uma matriz com o formato errado, ou tentar somar matrizes de tipos diferentes.
Trocar a ordem de um produto ou de uma inversa de produto: (AB)−1=B−1A−1, nunca A−1B−1 em geral.
Aplicar a fórmula da inversa 2×2 sem verificar que ad−bc=0, ou trocar os sinais das entradas fora da diagonal.
Confundir AT com A−1: a transposta existe sempre, a inversa só para quadradas com determinante não nulo.