Conteúdos da cadeira

Mudanças de base

Coordenadas em bases diferentes, matriz de mudança de base e mudança da matriz de uma aplicação linear.

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O mesmo vetor tem coordenadas diferentes em bases diferentes, e a mesma aplicação linear tem matrizes diferentes conforme as bases escolhidas. A matriz de mudança de base organiza essa tradução: permite trocar de referencial sem recalcular tudo de raiz. É também a ferramenta que prepara a diagonalização da próxima página.

Coordenadas e a matriz de passagem

Seja VV um espaço de dimensão nn com duas bases ordenadas, U={u1,,un}U = \{u_1, \dots, u_n\} e E={e1,,en}E = \{e_1, \dots, e_n\}. Cada vetor vv tem coordenadas vUv_U em UU e vEv_E em EE. A matriz de mudança de base de UU para EE, que se escreve MUEM_{U \to E}, é a matriz que traduz:

vE=MUEvU.v_E = M_{U \to E} \, v_U.

Constrói-se por colunas: a coluna jj contém as coordenadas do vetor uju_j escritas na base EE. Em particular, a matriz de mudança de uma base qualquer para a base canónica tem como colunas os próprios vetores da base.

Exemplo em R2\mathbb{R}^2 com U={(1,1),(1,1)}U = \{(1, 1), (1, -1)\} e EE a base canónica. As colunas são os vetores de UU:

MUE=[1111].M_{U \to E} = \begin{bmatrix} 1 & 1 \\ 1 & -1 \end{bmatrix}.

O vetor v=(3,1)v = (3, 1) tem coordenadas vU=(2,1)v_U = (2, 1) (calculámos isto na página de espaços vetoriais: (3,1)=2(1,1)+1(1,1)(3,1) = 2(1,1) + 1(1,-1)). Traduzindo:

MUEvU=[1111][21]=[31]=vE.M_{U \to E} \, v_U = \begin{bmatrix} 1 & 1 \\ 1 & -1 \end{bmatrix} \begin{bmatrix} 2 \\ 1 \end{bmatrix} = \begin{bmatrix} 3 \\ 1 \end{bmatrix} = v_E.

Confirma: obtivemos as coordenadas canónicas (3,1)(3, 1). A matriz fez exatamente o que promete.

Voltar para trás

A mudança inversa, de EE para UU, é a matriz inversa: MEU=MUE1M_{E \to U} = M_{U \to E}^{-1}. No exemplo, detMUE=2\det M_{U \to E} = -2, logo

MEU=12[1111]=[1/21/21/21/2].M_{E \to U} = -\frac{1}{2}\begin{bmatrix} -1 & -1 \\ -1 & 1 \end{bmatrix} = \begin{bmatrix} 1/2 & 1/2 \\ 1/2 & -1/2 \end{bmatrix}.

Testa com vE=(3,1)v_E = (3, 1): obtemos (3/2+1/2,  3/21/2)=(2,1)=vU(3/2 + 1/2,\; 3/2 - 1/2) = (2, 1) = v_U. De volta ao ponto de partida.

Para três bases UU, EE, FF, as mudanças encadeiam-se por produto: MUF=MEFMUEM_{U \to F} = M_{E \to F} \, M_{U \to E}. A ordem segue o caminho das setas: primeiro de UU para EE, depois de EE para FF.

Mudar a matriz de uma aplicação linear

Se T:VVT: V \to V tem matriz AA nas bases antigas e queres a matriz BB nas bases novas, com PP a matriz de mudança da base nova para a antiga, então

B=P1AP.B = P^{-1} A P.

Duas matrizes relacionadas desta forma dizem-se semelhantes e representam a mesma aplicação em referenciais diferentes. Têm o mesmo determinante, o mesmo traço e os mesmos valores próprios (vais perceber porquê na próxima página).

Vê com números. Seja T(x,y)=(2x+y,x+2y)T(x, y) = (2x + y, x + 2y), de matriz canónica A=[2112]A = \begin{bmatrix} 2 & 1 \\ 1 & 2 \end{bmatrix}, e considera a base nova U={(1,1),(1,1)}U = \{(1, 1), (1, -1)\}. A matriz de mudança da base nova para a canónica é P=MUE=[1111]P = M_{U \to E} = \begin{bmatrix} 1 & 1 \\ 1 & -1 \end{bmatrix}, com inversa P1=[1/21/21/21/2]P^{-1} = \begin{bmatrix} 1/2 & 1/2 \\ 1/2 & -1/2 \end{bmatrix}. Primeiro,

AP=[2112][1111]=[3131],AP = \begin{bmatrix} 2 & 1 \\ 1 & 2 \end{bmatrix} \begin{bmatrix} 1 & 1 \\ 1 & -1 \end{bmatrix} = \begin{bmatrix} 3 & 1 \\ 3 & -1 \end{bmatrix},

depois

B=P1(AP)=[1/21/21/21/2][3131]=[3001].B = P^{-1}(AP) = \begin{bmatrix} 1/2 & 1/2 \\ 1/2 & -1/2 \end{bmatrix} \begin{bmatrix} 3 & 1 \\ 3 & -1 \end{bmatrix} = \begin{bmatrix} 3 & 0 \\ 0 & 1 \end{bmatrix}.

A matriz nova é diagonal. Não foi coincidência: escolhemos uma base de vetores próprios, e a próxima página explica por que isso diagonaliza sempre.

O que costuma correr mal

  • Construir a matriz com os vetores em linha em vez de coluna, ou pôr as coordenadas na base errada nas colunas.
  • Aplicar MUEM_{U \to E} a coordenadas que já estão em EE. Verifica sempre em que base estão as coordenadas antes de multiplicar.
  • Na fórmula B=P1APB = P^{-1}AP, trocar PP por P1P^{-1}: PP é a mudança da base nova para a antiga, não o contrário.
  • Tentar mudar de base com uma matriz singular. As colunas têm de formar uma base (independentes); se o determinante for zero, algo está errado na escolha dos vetores.
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