Conteúdos da cadeira

Aplicações lineares

Definição, núcleo e imagem, teorema das dimensões e representação matricial.

Markdown

Perguntar sobre esta página

ChatGPTClaudePerplexityGeminiCopiar e abrir

Envia o link e pede à IA para ler a página. No Gemini, cola a pergunta copiada.

Ver pergunta para copiar
Nesta página

Uma aplicação linear (ou transformação linear) é uma função entre espaços vetoriais que respeita as operações: preserva somas e múltiplos escalares. Rotações, projeções, reflexões e derivação de polinómios são exemplos. A recompensa desta abstração é que cada aplicação linear corresponde a uma matriz, e todas as perguntas sobre a função passam a ser contas com essa matriz.

Definição e primeiro teste

Uma função T:VWT: V \to W entre espaços vetoriais é linear quando, para todos u,vVu, v \in V e escalares α,β\alpha, \beta,

T(αu+βv)=αT(u)+βT(v).T(\alpha u + \beta v) = \alpha T(u) + \beta T(v).

Isto equivale às duas condições separadas, T(u+v)=T(u)+T(v)T(u + v) = T(u) + T(v) e T(αu)=αT(u)T(\alpha u) = \alpha T(u), mas a versão junta é mais rápida de verificar.

O teste mais rápido de todos: se T(0)0T(0) \neq 0, a aplicação não é linear. Por exemplo, T(x,y)=(x+1,y)T(x, y) = (x + 1, y) não é linear porque T(0,0)=(1,0)T(0, 0) = (1, 0). Atenção ao recíproco: T(0)=0T(0) = 0 não chega para provar linearidade, apenas elimina os casos óbvios. Um exemplo que passa no teste do zero e mesmo assim falha: T(x,y)=(x2,y)T(x, y) = (x^2, y), porque T(2(1,0))=(4,0)2T(1,0)=(2,0)T(2 \cdot (1, 0)) = (4, 0) \neq 2T(1, 0) = (2, 0).

Um exemplo que funciona: T:R2R3T: \mathbb{R}^2 \to \mathbb{R}^3 dada por T(x,y)=(x+2y,y,xy)T(x, y) = (x + 2y, -y, x - y). Verifica com (x1,y1)(x_1, y_1), (x2,y2)(x_2, y_2) e escalares α,β\alpha, \beta: cada coordenada do resultado é uma expressão linear, logo a soma e os escalares saem para fora sem obstáculos. Vais usá-lo ao longo da página.

Núcleo, imagem e o teorema das dimensões

O núcleo (ou kernel) de TT é o conjunto dos vetores que TT envia para zero:

kerT={vV:T(v)=0}.\ker T = \{v \in V : T(v) = 0\}.

É sempre um subespaço do domínio. Para o exemplo, T(x,y)=(0,0,0)T(x, y) = (0, 0, 0)x+2y=0x + 2y = 0, y=0-y = 0 e xy=0x - y = 0, logo y=0y = 0 e x=0x = 0: o núcleo é só {(0,0)}\{(0, 0)\}.

A imagem de TT é o conjunto dos valores atingidos, ImT={T(v):vV}\operatorname{Im} T = \{T(v) : v \in V\}, um subespaço do espaço de chegada. No exemplo, T(x,y)=x(1,0,1)+y(2,1,1)T(x, y) = x(1, 0, 1) + y(2, -1, -1), por isso a imagem é gerada por (1,0,1)(1, 0, 1) e (2,1,1)(2, -1, -1), dois vetores independentes: é um plano em R3\mathbb{R}^3.

O teorema das dimensões (ou teorema núcleo-imagem) liga as duas:

dimkerT+dimImT=dimV.\dim \ker T + \dim \operatorname{Im} T = \dim V.

Aqui, 0+2=2=dimR20 + 2 = 2 = \dim \mathbb{R}^2. Confirmado. Este teorema responde a perguntas de existência sem contas: uma aplicação linear de R2\mathbb{R}^2 em R3\mathbb{R}^3 nunca é sobrejetiva, porque a imagem tem dimensão no máximo 2.

O núcleo decide a injetividade: TT é injetiva exatamente quando kerT={0}\ker T = \{0\}. A imagem decide a sobrejetividade: TT é sobrejetiva exatamente quando ImT=W\operatorname{Im} T = W. O exemplo é injetivo mas não sobrejetivo. Quando o domínio e o contradomínio têm a mesma dimensão, basta verificar uma das duas: injetiva equivale a sobrejetiva (e ambas a “o núcleo é trivial”).

Representação matricial

Fixadas bases no domínio e no espaço de chegada, cada aplicação linear descreve-se por uma matriz: a coluna jj é a imagem do jj-ésimo vetor da base do domínio, escrita em coordenadas na base de chegada. Com as bases canónicas, basta aplicar TT aos versores.

Para o exemplo T(x,y)=(x+2y,y,xy)T(x, y) = (x + 2y, -y, x - y): T(1,0)=(1,0,1)T(1, 0) = (1, 0, 1) e T(0,1)=(2,1,1)T(0, 1) = (2, -1, -1). A matriz é

M(T)=[120111],M(T) = \begin{bmatrix} 1 & 2 \\ 0 & -1 \\ 1 & -1 \end{bmatrix},

e aplicar TT é multiplicar: T(x,y)=M(T)[xy]T(x, y) = M(T)\begin{bmatrix} x \\ y \end{bmatrix}. Confirma com (3,1)(3, 1): a matriz dá (3+2,1,31)=(5,1,2)(3 + 2, -1, 3 - 1) = (5, -1, 2), igual à fórmula direta.

Duas consequências práticas. A composta de aplicações corresponde ao produto das matrizes (pela ordem certa: a matriz de STS \circ T é M(S)M(T)M(S)M(T)). E TT é invertível (isomorfismo) exatamente quando a matriz é quadrada e invertível; nesse caso, a matriz da inversa é a inversa da matriz.

O núcleo de TT é o conjunto das soluções do sistema homogéneo M(T)X=0M(T)X = 0, e a imagem é o espaço gerado pelas colunas de M(T)M(T). Por isso a característica da matriz dá dimImT\dim \operatorname{Im} T, e o teorema das dimensões mais não é do que “variáveis livres mais pivôs igual ao número de incógnitas” com outro nome.

Um endomorfismo completo

Considera S:R2R2S: \mathbb{R}^2 \to \mathbb{R}^2 com S(x,y)=(2x+y,x+2y)S(x, y) = (2x + y, x + 2y). A matriz canónica é [2112]\begin{bmatrix} 2 & 1 \\ 1 & 2 \end{bmatrix}, de determinante 41=304 - 1 = 3 \neq 0. Logo SS é invertível, o núcleo é trivial e a imagem é todo o R2\mathbb{R}^2: injetiva e sobrejetiva. A inversa obtém-se invertendo a matriz:

M(S)1=13[2112],S1(u,v)=(2uv3,u+2v3).M(S)^{-1} = \frac{1}{3}\begin{bmatrix} 2 & -1 \\ -1 & 2 \end{bmatrix}, \qquad S^{-1}(u, v) = \left(\frac{2u - v}{3}, \frac{-u + 2v}{3}\right).

Verifica com (u,v)=(5,4)(u, v) = (5, 4): S1(5,4)=(2,1)S^{-1}(5, 4) = (2, 1), e S(2,1)=(5,4)S(2, 1) = (5, 4). Fechou o ciclo.

O que costuma correr mal

  • Concluir linearidade só porque T(0)=0T(0) = 0. É condição necessária, não suficiente: testa sempre a soma e o produto por escalar, com um contraexemplo concreto se suspeitares.
  • Construir a matriz da aplicação com as imagens em linha em vez de coluna, ou trocar a ordem do produto na composta STS \circ T.
  • Misturar bases: a matriz canónica só vale para as bases canónicas dos dois lados. Com outras bases, precisas das matrizes de mudança de base (próxima página).
  • Esquecer que injetividade é sobre o núcleo e sobrejetividade sobre a imagem, e tentar prová-las diretamente com quantificadores quando o teorema das dimensões resolve em duas linhas.
Ver o ficheiro no GitHub

À tua maneira

Escolhe como preferes ler.

Aparência
Ajustar cores e largura
Cor de destaque do tema FEUP
Tipo de letra

Álgebra, lógica e uma ideia de cada vez.

As tuas escolhas ficam guardadas neste navegador.

Pesquisar

Escreve para pesquisar em todo o site.

para escolher · Enter para abrir · Esc para fechar

Atalhos de teclado

Clica numa tecla para a mudar. Esc cancela. Backspace desativa.

PesquisarCtrl / Cmd K

Os atalhos não interferem enquanto escreves. Tab e Enter funcionam sempre.