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Retas e planos

Equações vetoriais, paramétricas e cartesianas de retas e planos, posições relativas e distâncias.

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A geometria analítica traduz objetos geométricos (retas e planos) para equações com vetores e usa os produtos da página anterior para estudar posições relativas e distâncias. O truque é separar sempre duas peças: um ponto que fixa a posição e um vetor (direção ou normal) que fixa a orientação.

Retas: ponto mais direção

Uma reta fica definida por um ponto P0P_0 e um vetor direção d0d \neq 0. A equação vetorial é P=P0+tdP = P_0 + t\,d, com tRt \in \mathbb{R}: quando tt varia, percorres todos os pontos da reta.

Com P0=(1,2,3)P_0 = (1, 2, 3) e d=(1,1,2)d = (1, -1, 2), a equação paramétrica separa as coordenadas:

{x=1+ty=2tz=3+2ttR.\begin{cases} x = 1 + t \\ y = 2 - t \\ z = 3 + 2t \end{cases} \qquad t \in \mathbb{R}.

Para t=0t = 0 estás em P0P_0; para t=1t = 1 chegas a (2,1,5)(2, 1, 5). Eliminando tt obténs a equação cartesiana, que no espaço é um sistema de duas equações (cada uma é um plano, e a reta é a sua interseção):

x11=y21=z32.\frac{x - 1}{1} = \frac{y - 2}{-1} = \frac{z - 3}{2}.

Se alguma componente da direção for zero, não podes dividir por ela: escreve antes a igualdade correspondente, como x=1x = 1, e iguala as restantes frações. No plano (R2\mathbb{R}^2), uma reta também se escreve na forma familiar ax+by=cax + by = c, onde (a,b)(a, b) é um vetor normal à reta.

Planos: ponto mais normal

Um plano fica definido por um ponto P0P_0 e um vetor normal n0n \neq 0 (perpendicular ao plano). Um ponto P=(x,y,z)P = (x, y, z) pertence ao plano exatamente quando (PP0)n=0(P - P_0) \cdot n = 0, o que dá a equação cartesiana ax+by+cz=dax + by + cz = d.

Exemplo: o plano que passa pelos pontos (1,0,0)(1, 0, 0), (0,1,0)(0, 1, 0) e (0,0,1)(0, 0, 1). Dois vetores do plano são v1=(1,1,0)v_1 = (-1, 1, 0) e v2=(1,0,1)v_2 = (-1, 0, 1). A normal é o produto vetorial:

n=v1×v2=(1100,  0(1)(1)1,  (1)01(1)).n = v_1 \times v_2 = (1 \cdot 1 - 0 \cdot 0,\; 0 \cdot (-1) - (-1) \cdot 1,\; (-1) \cdot 0 - 1 \cdot (-1)).

Calculando com cuidado: n1=1100=1n_1 = 1 \cdot 1 - 0 \cdot 0 = 1; n2=0(1)(1)1=1n_2 = 0 \cdot (-1) - (-1) \cdot 1 = 1; n3=(1)01(1)=1n_3 = (-1) \cdot 0 - 1 \cdot (-1) = 1. Logo n=(1,1,1)n = (1, 1, 1) e o plano é x+y+z=dx + y + z = d. Substituindo (1,0,0)(1, 0, 0), d=1d = 1:

x+y+z=1.x + y + z = 1.

(Confirma com os outros dois pontos: 0+1+0=10 + 1 + 0 = 1 e 0+0+1=10 + 0 + 1 = 1.) O plano também admite equação paramétrica P=P0+su+tvP = P_0 + s\,u + t\,v com dois vetores diretores independentes, aqui por exemplo P=(1,0,0)+s(1,1,0)+t(1,0,1)P = (1, 0, 0) + s(-1, 1, 0) + t(-1, 0, 1).

Posições relativas

Duas retas no espaço podem ser concorrentes (intersetam-se num ponto), paralelas (direções proporcionais, sem pontos comuns), coincidentes ou enviesadas (nem se intersetam nem são paralelas; isto só acontece em R3\mathbb{R}^3). O teste segue uma ordem: primeiro compara as direções; se forem proporcionais, testa se um ponto de uma pertence à outra (coincidentes) ou não (paralelas); se não forem, resolve o sistema conjunto e vê se há solução (concorrentes) ou não (enviesadas).

Para reta e plano, substitui a paramétrica da reta na equação do plano. Com a reta P=(1,2,3)+t(1,1,2)P = (1, 2, 3) + t(1, -1, 2) e o plano x+y+z=1x + y + z = 1:

(1+t)+(2t)+(3+2t)=1    6+2t=1    t=52.(1 + t) + (2 - t) + (3 + 2t) = 1 \iff 6 + 2t = 1 \iff t = -\frac{5}{2}.

Há exatamente uma solução: a reta fura o plano no ponto (3/2,9/2,2)(-3/2,\, 9/2,\, -2). Se a substituição desse 0=00 = 0, a reta estaria contida no plano; se desse 6=16 = 1, seria paralela a ele. O mesmo método resolve interseções de dois planos (em geral uma reta) e de três planos (que é simplesmente um sistema 3×33 \times 3).

Distâncias

A distância de um ponto P0P_0 a um plano ax+by+cz=dax + by + cz = d é

dist=ax0+by0+cz0da2+b2+c2.\operatorname{dist} = \frac{|a x_0 + b y_0 + c z_0 - d|}{\sqrt{a^2 + b^2 + c^2}}.

A ideia: projeta o vetor de um ponto qualquer do plano até P0P_0 sobre a direção normal. Para o ponto (1,2,3)(1, 2, 3) e o plano x+y+z=1x + y + z = 1:

dist=1+2+313=53=533.\operatorname{dist} = \frac{|1 + 2 + 3 - 1|}{\sqrt{3}} = \frac{5}{\sqrt{3}} = \frac{5\sqrt{3}}{3}.

A distância entre dois planos paralelos reduz-se a este caso (escolhe um ponto de um e mede até ao outro). A distância de um ponto a uma reta usa a área do paralelogramo: dist=(P0Q)×d/d\operatorname{dist} = \|(P_0 - Q) \times d\| / \|d\|, onde QQ é um ponto da reta e dd a sua direção. E a distância entre duas retas enviesadas é o módulo do produto misto de (direção 1, direção 2, vetor que une um ponto de cada) a dividir por d1×d2\|d_1 \times d_2\|: o volume do paralelepípedo a dividir pela área da base dá a altura, que é precisamente a distância.

O que costuma correr mal

  • Confundir vetor direção com vetor normal: a reta usa a direção ao longo dela, o plano usa a normal perpendicular. Trocar um pelo outro dá o objeto perpendicular ao pretendido.
  • Dividir por uma componente nula da direção ao escrever a equação cartesiana da reta.
  • Classificar duas retas como paralelas só porque “não se intersetam”: no espaço podem ser enviesadas. Segue a ordem do teste (direções primeiro).
  • Esquecer o módulo ou a normalização nas fórmulas de distância, ou aplicar a fórmula do plano com a equação ainda não na forma ax+by+cz=dax + by + cz = d.
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