Conteúdos da cadeira

Valores e vetores próprios e diagonalização

Polinómio característico, cálculo de valores e vetores próprios, diagonalização e matrizes simétricas.

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Há vetores que uma matriz não roda nem deforma, apenas estica ou encolhe: entram numa direção e saem na mesma direção. São os vetores próprios, e o fator de escala é o valor próprio. Encontrá-los é descobrir os eixos naturais da transformação, e quando há uma base deles, a matriz torna-se diagonal: a forma mais simples possível.

Definição

Seja AA quadrada de ordem nn. Um escalar λ\lambda é um valor próprio e um vetor não nulo vv é um vetor próprio associado quando

Av=λv.Av = \lambda v.

Repara nas duas exigências: v0v \neq 0 (o vetor nulo satisfaz a equação para qualquer λ\lambda, por isso está excluído) e a igualdade é exata, não aproximada.

Para encontrar λ\lambda, reescreve-se como (AλI)v=0(A - \lambda I)v = 0. Como v0v \neq 0, o sistema homogéneo tem de ter soluções não triviais, o que acontece exatamente quando

det(AλI)=0.\det(A - \lambda I) = 0.

O primeiro membro é um polinómio de grau nn em λ\lambda, o polinómio característico. As suas raízes são os valores próprios. Depois, para cada valor próprio, resolve-se o sistema (AλI)v=0(A - \lambda I)v = 0 para obter os vetores próprios (que formam o espaço próprio associado, sempre um subespaço).

Exemplo completo

Seja A=[4123]A = \begin{bmatrix} 4 & 1 \\ 2 & 3 \end{bmatrix}. Então

AλI=[4λ123λ],A - \lambda I = \begin{bmatrix} 4 - \lambda & 1 \\ 2 & 3 - \lambda \end{bmatrix}, det(AλI)=(4λ)(3λ)2=λ27λ+10=(λ5)(λ2).\det(A - \lambda I) = (4 - \lambda)(3 - \lambda) - 2 = \lambda^2 - 7\lambda + 10 = (\lambda - 5)(\lambda - 2).

Os valores próprios são λ1=5\lambda_1 = 5 e λ2=2\lambda_2 = 2.

Para λ1=5\lambda_1 = 5: [1122][xy]=0\begin{bmatrix} -1 & 1 \\ 2 & -2 \end{bmatrix}\begin{bmatrix} x \\ y \end{bmatrix} = 0x+y=0-x + y = 0 (a segunda equação é redundante), logo y=xy = x. Os vetores próprios são os múltiplos não nulos de (1,1)(1, 1). Confirma: A(1,1)=(5,5)=5(1,1)A(1,1) = (5, 5) = 5(1,1).

Para λ2=2\lambda_2 = 2: [2121][xy]=0\begin{bmatrix} 2 & 1 \\ 2 & 1 \end{bmatrix}\begin{bmatrix} x \\ y \end{bmatrix} = 02x+y=02x + y = 0, logo os múltiplos de (1,2)(1, -2). Confirma: A(1,2)=(42,26)=(2,4)=2(1,2)A(1,-2) = (4 - 2, 2 - 6) = (2, -4) = 2(1,-2).

Diagonalização

Se conseguires uma base de vetores próprios, a matriz da aplicação nessa base é diagonal, com os valores próprios na diagonal. Em forma matricial: se PP tem como colunas os vetores próprios (pela ordem dos valores λ1,,λn\lambda_1, \dots, \lambda_n), então

P1AP=D=[λ1λn].P^{-1}AP = D = \begin{bmatrix} \lambda_1 & & \\ & \ddots & \\ & & \lambda_n \end{bmatrix}.

Com o exemplo, P=[1112]P = \begin{bmatrix} 1 & 1 \\ 1 & -2 \end{bmatrix} e D=[5002]D = \begin{bmatrix} 5 & 0 \\ 0 & 2 \end{bmatrix}. Verifica a igualdade AP=PDAP = PD (que evita inverter PP): AP=[5254]AP = \begin{bmatrix} 5 & 2 \\ 5 & -4 \end{bmatrix} e PD=[5254]PD = \begin{bmatrix} 5 & 2 \\ 5 & -4 \end{bmatrix}. Iguais. A matriz é diagonalizável.

Isto nem sempre é possível. Há duas causas de falha: o polinómio característico pode não ter raízes reais suficientes (sobre R\mathbb{R}, uma rotação de 9090^\circ não tem valores próprios reais), ou pode haver um valor próprio cuja multiplicidade como raiz exceda a dimensão do seu espaço próprio. Vetores próprios associados a valores próprios distintos são sempre independentes, por isso uma matriz n×nn \times n com nn valores próprios distintos é garantidamente diagonalizável.

A diagonalização simplifica potências: Ak=PDkP1A^k = PD^kP^{-1}, e DkD^k calcula-se elevando cada entrada da diagonal. É assim que se estudam evoluções iteradas (potências de matrizes de transição, recorrências) sem multiplicar matrizes dezenas de vezes.

Matrizes simétricas e o teorema espectral

Uma matriz real simétrica (AT=AA^T = A) é sempre diagonalizável, com valores próprios reais e vetores próprios de valores distintos automaticamente ortogonais. É o teorema espectral: existe uma base ortonormada de vetores próprios, e a matriz de passagem pode ser escolhida ortogonal (P1=PTP^{-1} = P^T).

Vê com S=[2112]S = \begin{bmatrix} 2 & 1 \\ 1 & 2 \end{bmatrix} (a matriz da página de mudanças de base). O polinómio característico é (2λ)21=λ24λ+3=(λ3)(λ1)(2-\lambda)^2 - 1 = \lambda^2 - 4\lambda + 3 = (\lambda - 3)(\lambda - 1). Para λ=3\lambda = 3: x+y=0-x + y = 0, vetor (1,1)(1, 1). Para λ=1\lambda = 1: x+y=0x + y = 0, vetor (1,1)(1, -1). Os dois vetores são ortogonais ((1,1)(1,1)=0(1,1) \cdot (1,-1) = 0), como o teorema promete, e normalizando obténs a base ortonormada {(1/2,1/2),(1/2,1/2)}\{(1/\sqrt{2}, 1/\sqrt{2}), (1/\sqrt{2}, -1/\sqrt{2})\}.

O que costuma correr mal

  • Aceitar o vetor nulo como vetor próprio, ou apresentar “vetores próprios” sem verificar Av=λvAv = \lambda v no fim.
  • Resolver det(AλI)=0\det(A - \lambda I) = 0 com erros de sinal no polinómio característico, sobretudo no termo independente (que vale (1)ndetA(-1)^n \det A e serve de verificação).
  • Assumir que qualquer matriz diagonaliza. Testa sempre se tens nn vetores próprios independentes antes de escrever P1AP=DP^{-1}AP = D.
  • Montar PP com os vetores por ordem e DD com os valores por outra ordem. A coluna jj de PP tem de corresponder à posição jj da diagonal de DD.
  • Em matrizes simétricas, esquecer que a ortogonalidade entre espaços próprios distintos é garantida, mas vetores dentro do mesmo espaço próprio ainda precisam de ser ortogonalizados se quiseres uma base ortonormada.
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