Produtos escalar, vetorial e misto

Os três produtos em R2 e R3, ângulos, áreas, volumes e ortogonalidade.

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Os vetores (1,0)(1,0) e (1,1)(1,1) são independentes, mas isso não diz qual é o ângulo entre eles. O produto escalar permite medi-lo.

Em R3\mathbb R^3, o produto vetorial dá uma normal e a área definida por dois vetores. O produto misto acrescenta um terceiro vetor para calcular um volume.

Produto escalar: ângulos e comprimentos

O produto escalar (ou interno usual) de u=(u1,…,un)u = (u_1, \dots, u_n) por v=(v1,…,vn)v = (v_1, \dots, v_n) é

u⋅v=u1v1+u2v2+⋯+unvn.u \cdot v = u_1 v_1 + u_2 v_2 + \dots + u_n v_n.

A norma de uu é ∥u∥=u⋅u\|u\| = \sqrt{u \cdot u}, o comprimento do vetor.

Com u=(3,4)u = (3, 4), ∥u∥=9+16=5\|u\| = \sqrt{9 + 16} = 5.

Para dois vetores não nulos, a ligação à geometria está na fórmula u⋅v=∥u∥ ∥v∥cos⁡θu \cdot v = \|u\| \, \|v\| \cos \theta, onde θ\theta é o ângulo entre os vetores.

Com u=(1,0)u = (1, 0) e v=(1,1)v = (1, 1): u⋅v=1u \cdot v = 1, ∥u∥=1\|u\| = 1, ∥v∥=2\|v\| = \sqrt{2}, logo cos⁡θ=1/2\cos \theta = 1/\sqrt{2} e θ=45∘\theta = 45^\circ.

O sinal do produto escalar diz-te o tipo de ângulo: positivo significa ângulo menor que 90∘90^\circ, zero é reto e negativo significa ângulo maior que 90∘90^\circ. Isto inclui os casos de vetores alinhados, com ângulo 00 ou 180∘180^\circ.

Dois vetores com produto escalar nulo dizem-se ortogonais. O vetor zero é ortogonal a todos, mas não define uma direção nem um ângulo.

Para vetores não nulos, ortogonalidade significa perpendicularidade.

As propriedades essenciais são a comutatividade, u⋅v=v⋅uu \cdot v = v \cdot u, a distributividade e (ku)⋅v=k(u⋅v)(ku) \cdot v = k(u \cdot v). Um erro clássico é tentar “dividir” por um vetor ou distribuir uma norma: ∥u+v∥\|u + v\| não é ∥u∥+∥v∥\|u\| + \|v\| em geral (é a desigualdade triangular: ∥u+v∥≤∥u∥+∥v∥\|u + v\| \leq \|u\| + \|v\|).

Produto vetorial: só em R3

Nesta cadeira, o produto vetorial é a operação de R3\mathbb R^3 que devolve um vetor perpendicular aos dois fatores. Para a=(a1,a2,a3)a = (a_1, a_2, a_3) e b=(b1,b2,b3)b = (b_1, b_2, b_3),

a×b=(a2b3−a3b2,  a3b1−a1b3,  a1b2−a2b1).a \times b = (a_2 b_3 - a_3 b_2,\; a_3 b_1 - a_1 b_3,\; a_1 b_2 - a_2 b_1).

Uma mnemónica é o determinante simbólico com os versores e1,e2,e3e_1, e_2, e_3 na primeira linha:

a×b=det⁡[e1e2e3a1a2a3b1b2b3],a \times b = \det \begin{bmatrix} e_1 & e_2 & e_3 \\ a_1 & a_2 & a_3 \\ b_1 & b_2 & b_3 \end{bmatrix},

expandido pela primeira linha. Com a=(1,0,0)a = (1, 0, 0) e b=(0,1,0)b = (0, 1, 0) obténs (0,0,1)(0, 0, 1): o produto dos dois primeiros versores canónicos é o terceiro, e as permutações cíclicas funcionam da mesma forma.

Quando os fatores são não nulos, θ\theta é o ângulo entre eles. Se um for zero, o produto vetorial e a área são zero.

O vetor a×ba \times b é ortogonal a aa e a bb (confirma com o produto escalar: dá sempre zero), e o seu módulo mede a área do paralelogramo definido por aa e bb:

∥a×b∥=∥a∥ ∥b∥sin⁡θ.\|a \times b\| = \|a\| \, \|b\| \sin \theta.

Por exemplo, a=(2,0,0)a = (2, 0, 0) e b=(0,3,0)b = (0, 3, 0) dão a×b=(0,0,6)a \times b = (0, 0, 6), com módulo 6: o retângulo de lados 2 e 3. O sentido segue a regra da mão direita: com o indicador ao longo de aa e o dedo médio ao longo de bb, o polegar aponta para a×ba \times b.

Como é um vetor livre, o produto vetorial pode ser desenhado a partir de qualquer ponto. As suas propriedades pedem atenção, porque são quase, mas não exatamente, as habituais:

  • anticomutatividade: a×b=−(b×a)a \times b = -(b \times a);
  • distributividade e (ka)×b=a×(kb)=k(a×b)(ka) \times b = a \times (kb) = k(a \times b);
  • não é associativo: a×(b×c)a \times (b \times c) difere em geral de (a×b)×c(a \times b) \times c.

Se a×b=0a \times b = 0 com aa e bb não nulos, os vetores são paralelos (um é múltiplo escalar do outro). É um teste de paralelismo muito prático.

Se a dúvida é que área o produto vetorial mede e onde entra a orientação, vê este vídeo e relaciona o produto vetorial com a área do paralelogramo e a orientação dada pela regra da mão direita:

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Produto misto: volumes e coplanaridade

O produto misto de três vetores de R3\mathbb{R}^3 é o número [u,v,w]=(u×v)⋅w[u, v, w] = (u \times v) \cdot w, que coincide com o determinante da matriz que tem os três vetores como linhas (ou colunas):

[u,v,w]=det⁡[u1u2u3v1v2v3w1w2w3].[u, v, w] = \det \begin{bmatrix} u_1 & u_2 & u_3 \\ v_1 & v_2 & v_3 \\ w_1 & w_2 & w_3 \end{bmatrix}.

O seu módulo é o volume do paralelepípedo definido pelos três vetores. Os versores canónicos dão determinante 1, logo o cubo unitário tem volume 1, como esperado.

A consequência mais usada: [u,v,w]=0[u, v, w] = 0 exatamente quando os três vetores são coplanares (linearmente dependentes). Testa u=(1,1,0)u = (1, 1, 0), v=(0,1,1)v = (0, 1, 1), w=(1,2,1)w = (1, 2, 1):

  1. primeiro u×v=(1⋅1−0⋅1,  0⋅0−1⋅1,  1⋅1−1⋅0)=(1,−1,1)u \times v = (1 \cdot 1 - 0 \cdot 1,\; 0 \cdot 0 - 1 \cdot 1,\; 1 \cdot 1 - 1 \cdot 0) = (1, -1, 1);
  2. depois (u×v)⋅w=1⋅1+(−1)⋅2+1⋅1=0(u \times v) \cdot w = 1 \cdot 1 + (-1) \cdot 2 + 1 \cdot 1 = 0.

São coplanares: de facto, w=u+vw = u + v. Permutações cíclicas dos três vetores mantêm o valor do produto misto; trocar dois deles troca o sinal, tal como no determinante.

Projeção ortogonal

O produto escalar também serve para decompor um vetor na direção de outro. A projeção ortogonal de aa sobre b≠0b \neq 0 é o vetor na direção de bb dado por

proj⁡ba=a⋅bb⋅b b.\operatorname{proj}_b a = \frac{a \cdot b}{b \cdot b} \, b.

Procura-se tt tal que a−tba-tb fique perpendicular a bb: (a−tb)⋅b=0(a-tb)\cdot b=0, logo t=(a⋅b)/(b⋅b)t=(a\cdot b)/(b\cdot b). É daqui que sai a fórmula.

A diferença a−proj⁡baa - \operatorname{proj}_b a é ortogonal a bb: subtrair a projeção remove exatamente a componente ao longo de bb.

Exemplo em R2\mathbb{R}^2: projeta a=(3,1)a = (3, 1) sobre b=(1,1)b = (1, 1). Como a⋅b=4a \cdot b = 4 e b⋅b=2b \cdot b = 2,

proj⁡ba=42(1,1)=(2,2),\operatorname{proj}_b a = \frac{4}{2}(1, 1) = (2, 2),

e o complemento é (3,1)−(2,2)=(1,−1)(3, 1) - (2, 2) = (1, -1). Confirma a ortogonalidade: (2,2)⋅(1,−1)=2−2=0(2, 2) \cdot (1, -1) = 2 - 2 = 0. Repetir esta decomposição vetor a vetor (tirar a cada um as componentes nas direções já tratadas) é o processo de Gram-Schmidt, que transforma qualquer base numa base ortogonal.

Comprimento, vetor e componente

A projeção proj⁡ba\operatorname{proj}_b a é um vetor. A componente escalar orientada na direção de bb é a⋅b/∥b∥a\cdot b/\|b\|. O comprimento da projeção é ∣a⋅b∣/∥b∥|a\cdot b|/\|b\|, sempre não negativo.

Com a=(1,−3)a=(1,-3) e b=(1,1)b=(1,1), temos a⋅b=−2a\cdot b=-2. A componente orientada é −2-\sqrt2, a projeção é (−1,−1)(-1,-1) e o seu comprimento é 2\sqrt2. O sinal negativo indica o sentido contrário ao de bb, não um comprimento negativo.

Um vetor unitário paralelo a a≠0a\ne0 é a/∥a∥a/\|a\|; o seu oposto também é unitário e paralelo. Se o enunciado fixa o sentido, escolhe o sinal correspondente.

Contas com produtos sem coordenadas

Podes usar as propriedades dos produtos para resolver problemas dados apenas por normas e ângulos. Se ∥u∥=2\|u\|=2, ∥v∥=3\|v\|=3 e o ângulo é 60∘60^\circ, então

u⋅v=2⋅3⋅12=3,∥u+v∥2=∥u∥2+2u⋅v+∥v∥2=19.u\cdot v=2\cdot3\cdot\frac12=3, \qquad \|u+v\|^2=\|u\|^2+2u\cdot v+\|v\|^2=19.

Logo ∥u+v∥=19\|u+v\|=\sqrt{19}, não 2+32+3. Em R3\mathbb R^3,

∥u×v∥=2⋅3sin⁡60∘=33.\|u\times v\|=2\cdot3\sin60^\circ=3\sqrt3.

A área do triângulo definido por estes vetores é metade da área do paralelogramo: 33/23\sqrt3/2. Com três vetores, o volume do tetraedro é ∣[u,v,w]∣/6|[u,v,w]|/6.

Outras identidades úteis são

∣u⋅v∣≤∥u∥∥v∥,∥u×v∥2=∥u∥2∥v∥2−(u⋅v)2.|u\cdot v|\leq\|u\|\|v\|, \qquad \|u\times v\|^2=\|u\|^2\|v\|^2-(u\cdot v)^2.

A primeira é a desigualdade de Cauchy-Schwarz. A segunda permite calcular uma área sem conhecer as coordenadas: no exemplo, 4⋅9−32=274\cdot9-3^2=27, cuja raiz é 333\sqrt3.

Encontrar uma normal

Se u,vu,v são independentes em R3\mathbb R^3, u×vu\times v é uma normal não nula ao plano que geram. Com u=(1,0,1)u=(1,0,1) e v=(0,1,1)v=(0,1,1),

u×v=(−1,−1,1).u\times v=(-1,-1,1).

A equação do plano pela origem é −x−y+z=0-x-y+z=0. Confirma os dois produtos escalares com a normal: ambos dão zero. Se o produto vetorial desse zero, os vetores seriam dependentes e não definiriam um plano único.

Quadro comparativo

ProdutoOnde viveResultadoMedeZero significa
u⋅vu \cdot vRn\mathbb{R}^nescalarângulo, comprimentoortogonalidade
u×vu \times vR3\mathbb{R}^3vetorárea do paralelogramodependência linear
[u,v,w][u, v, w]R3\mathbb{R}^3escalarvolume do paralelepípedovetores coplanares

O que costuma correr mal

  • Usar a fórmula tridimensional do produto vetorial diretamente em R2\mathbb{R}^2: ou trabalhas com o escalar, ou mergulhas os vetores em R3\mathbb{R}^3 com terceira coordenada zero.
  • Trocar a ordem do produto vetorial sem trocar o sinal, ou assumir associatividade.
  • Errar sinais nas componentes do meio do produto vetorial (a segunda componente é a3b1−a1b3a_3 b_1 - a_1 b_3, com a ordem “trocada” em relação ao que o padrão sugere).
  • Esquecer o módulo ao calcular áreas e volumes: o produto vetorial é um vetor e o misto tem sinal; áreas e volumes usam o valor absoluto.

Exercícios

Todas as normais unitárias

Determina todos os vetores unitários perpendiculares a u=(1,1,0)u=(1,1,0) e v=(0,1,2)v=(0,1,2). Explica por que a lista está completa.

Pista

O produto vetorial dá uma direção perpendicular aos dois vetores. Uma direção não fixa o sentido.

Solução

Calculamos u×v=(2,−2,1)u\times v=(2,-2,1). O produto escalar com uu é 2−2=02-2=0 e com vv é −2+2=0-2+2=0. A norma é 4+4+1=3\sqrt{4+4+1}=3. Portanto, as duas soluções são

13(2,−2,1)e−13(2,−2,1).\frac13(2,-2,1)\quad\text{e}\quad-\frac13(2,-2,1).

Para confirmar que não faltam outras, um vetor (x,y,z)(x,y,z) perpendicular aos dois satisfaz x+y=0x+y=0 e y+2z=0y+2z=0. Logo é z(2,−2,1)z(2,-2,1). A norma unitária exige 3∣z∣=13|z|=1, isto é, z=±1/3z=\pm1/3.

Confere a tua resposta:

  • Obtém uma normal não nula e verifica os dois produtos escalares.
  • Normaliza e justifica as duas soluções possíveis.
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Normas e ângulo

Calcula normas e ângulo para u=(1,2,−2)u=(1,2,-2) e v=(2,1,2)v=(2,1,2).

Pista

Calcula primeiro o produto escalar.

Solução

As duas normas são 3. O produto escalar é zero, logo os vetores não nulos são ortogonais e o ângulo é 90∘90^\circ. Normas iguais não bastam para concluir o ângulo.

Confere a tua resposta:

  • Calcula normas e produto escalar.
  • Justifica o ângulo.

Erros frequentes

As normas serem iguais não determina o ângulo. Calcula o produto escalar e confirma que os dois vetores são não nulos.

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Um sexto do volume

Um tetraedro tem arestas a partir do mesmo vértice u=(1,0,1)u=(1,0,1), v=(0,1,1)v=(0,1,1), w=(2,1,0)w=(2,1,0). Calcula o volume.

Pista

Calcula o produto misto.

Mais uma pista

u×v=(-1,-1,1); divide o módulo do misto por 6.

Solução

O produto misto é −2−1=−3-2-1=-3. O paralelepípedo tem volume 3; o tetraedro tem volume 3/6=1/23/6=1/2.

Erros frequentes

Usa o módulo do produto misto e divide por 6. A norma do produto vetorial dá uma área, não o volume do tetraedro.

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Vetor, componente e comprimento

Projeta a=(1,−3)a=(1,-3) sobre b=(1,1)b=(1,1). Indica a componente escalar orientada e o comprimento da projeção.

Pista

O produto escalar é -2.

Solução

A projeção é (−1,−1)(-1,-1). A componente orientada é −2-\sqrt2 e o comprimento é 2\sqrt2. O erro (2,−2)(2,-2) é perpendicular a bb.

Confere a tua resposta:

  • Obtém a projeção e verifica o erro.
  • Distingue o escalar orientado do comprimento.

Erros frequentes

A componente escalar orientada pode ser negativa; o comprimento da projeção é sempre não negativo.

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Contas sem coordenadas

Se ∥u∥=2\|u\|=2, ∥v∥=3\|v\|=3 e o ângulo é 60∘60^\circ, calcula u⋅vu\cdot v, ∥u+v∥\|u+v\| e a área do triângulo definido por uu e vv.

Pista

Usa u⋅v=∥u∥∥v∥cos⁡θu\cdot v=\|u\|\|v\|\cos\theta.

Mais uma pista

∥u+v∥2=∥u∥2+2u⋅v+∥v∥2\|u+v\|^2=\|u\|^2+2u\cdot v+\|v\|^2.

Solução

u⋅v=2⋅3⋅(1/2)=3u\cdot v=2\cdot3\cdot(1/2)=3. Então ∥u+v∥2=4+6+9=19\|u+v\|^2=4+6+9=19, logo ∥u+v∥=19\|u+v\|=\sqrt{19}. A área do paralelogramo é 2⋅3sin⁡60∘=332\cdot3\sin60^\circ=3\sqrt3; a do triângulo é metade, 33/23\sqrt3/2.

Confere a tua resposta:

  • Calcula o produto escalar pelo ângulo.
  • Obtém a soma e a área sem coordenadas.

Erros frequentes

∥u+v∥\|u+v\| não é ∥u∥+∥v∥\|u\|+\|v\|. Expande o quadrado da norma com o produto escalar.

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