Aplicações lineares
Definição, núcleo e imagem, teorema das dimensões e representação matricial.
A regra envia para . Cada coordenada de saída é uma combinação linear das entradas: , e .
É esta propriedade, valer para todos os pares de entrada, que distingue uma aplicação linear.
Definição e primeiro teste
Uma função entre espaços vetoriais é linear quando, para todos e escalares ,
Isto equivale às duas condições separadas, e .
A versão junta é mais rápida de verificar: testa as duas de uma vez.
O teste mais rápido de todos: se , a aplicação não é linear. Por exemplo, não é linear, porque .
Mas atenção ao recíproco: não chega para provar linearidade. Um exemplo que passa no teste do zero e mesmo assim falha é , porque .
Um exemplo que funciona: dada por .
Verifica com , e escalares : a primeira coordenada é . As outras duas distribuem-se da mesma forma.
Núcleo, imagem e o teorema das dimensões
O núcleo (ou kernel) de é o conjunto dos vetores que envia para zero:
É sempre um subespaço do domínio. Para o exemplo, dá três condições:
- ;
- ;
- .
Da segunda sai e depois : o núcleo é só .
A imagem de é o conjunto dos valores atingidos, , um subespaço do espaço de chegada. No exemplo,
por isso a imagem é gerada por e . Estes dois vetores são independentes, logo a imagem é um plano em .
Para um domínio de dimensão finita, o teorema das dimensões, ou teorema núcleo-imagem, liga as duas:
Aqui, coincide com a dimensão do domínio. Este teorema responde a perguntas de existência sem contas: uma aplicação linear de em nunca é sobrejetiva, porque a imagem tem dimensão no máximo 2.
O núcleo decide a injetividade: é injetiva exatamente quando . A imagem decide a sobrejetividade: é sobrejetiva exatamente quando .
O exemplo é injetivo mas não sobrejetivo. Quando o domínio e o espaço de chegada têm a mesma dimensão finita, injetividade e sobrejetividade são equivalentes.
Não confundas , o espaço de chegada declarado na função, com , o subconjunto efetivamente atingido. Aqui , mas a imagem é um plano.
Representação matricial
Fixadas bases no domínio e no espaço de chegada, cada aplicação linear descreve-se por uma matriz: a coluna é a imagem do -ésimo vetor da base do domínio, escrita em coordenadas na base de chegada. Com as bases canónicas, basta aplicar aos versores.
Para o exemplo : e . A matriz é
e aplicar é multiplicar: . Confirma com : a matriz dá , igual à fórmula direta.
Duas consequências práticas seguem desta representação: a composta de aplicações corresponde ao produto das matrizes (pela ordem certa: a matriz de é ), e é invertível (isomorfismo) exatamente quando a matriz é quadrada e invertível, caso em que a matriz da inversa é a inversa da matriz.
Uma matriz mexe com a grelha do plano: cada quadrado vira um paralelogramo. Com do fim da página, a grelha transforma-se assim:
Ver com outros olhos
O núcleo de é o conjunto das soluções do sistema homogéneo , e a imagem é o espaço gerado pelas colunas de . Por isso, a característica da matriz dá : o teorema das dimensões é “variáveis livres mais pivôs igual ao número de incógnitas” com outro nome.
Se a dúvida é como uma matriz guarda uma transformação, vê este vídeo e observa como a imagem dos vetores da base determina a transformação:
Descobrir a lei a partir de imagens
Uma aplicação linear fica determinada pelas imagens dos vetores de uma base. Se soubermos
basta decompor nessa base,
e a linearidade dá
Distribuindo, .
As imagens não eram as de , por isso colocá-las diretamente como colunas da matriz canónica daria a matriz errada. A forma matricial correta é , onde tem os vetores da base como colunas e as respetivas imagens canónicas. Assim, .
Se os vetores dados forem dependentes, as imagens têm de respeitar a mesma dependência.
Por exemplo, se , a linearidade exige . Se não respeitarem, não existe uma aplicação linear com esses dados.
Descobrir a lei a partir do núcleo
O núcleo também fornece imagens conhecidas: cada um dos seus vetores vai para zero. Suponhamos que é linear, que
Os vetores e são independentes, logo formam uma base. Decompondo qualquer argumento,
A primeira parcela desaparece pela ação de , por isso
Verifica agora a igualdade do núcleo, porque usar os seus geradores garante inicialmente apenas uma inclusão. Como , a imagem é zero exatamente quando . Logo o núcleo é mesmo a reta indicada; a imagem é a reta gerada por .
Se só soubéssemos a imagem de , faltaria informação sobre outra direção. É a combinação da base do núcleo com uma direção complementar que determina a lei.
Um núcleo não trivial
Considera dada por . A matriz canónica é
O núcleo resolve : . A imagem tem base , dada pelas duas primeiras colunas originais, e é .
Logo é sobrejetiva e não é injetiva. Para encontrar todos os argumentos enviados para , escolhe :
A imagem tem dimensão 2, o núcleo tem dimensão 1 e a soma dá a dimensão 3 do domínio. Como a aplicação não é injetiva, não tem inversa: cada imagem tem vários argumentos.
Composição e bases compatíveis
Se tem matriz e tem matriz , então tem matriz . A saída de tem de estar expressa na mesma base que recebe.
Com o anterior e , a composta tem matriz
A composição dá , o mesmo resultado que substituir a lei de na de .
Um endomorfismo completo
Um endomorfismo é uma aplicação linear de um espaço para ele próprio. Considera com . A matriz canónica é , de determinante . Logo é invertível, o núcleo é trivial e a imagem é todo o : injetiva e sobrejetiva. A inversa obtém-se invertendo a matriz:
Verifica com : , e . A inversa recuperou o argumento original.
Imagem e inversa sobre a imagem
Nos acetatos históricos de transformações lineares, «contradomínio» designa a imagem . Aqui distinguimos sempre essa imagem do espaço de chegada . A injetividade permite recuperar o argumento de cada vetor da imagem.
Uma aplicação injetiva mas não sobrejetiva, como do início (o núcleo é trivial: dá e depois ), não tem inversa, mas tem inversa sobre a sua imagem: é bijetiva. Por exemplo, : de sai , de sai , e confirma. A inversa sobre a imagem envia para , e o seu domínio é o plano , não todo o .
O que costuma correr mal
- Concluir linearidade só porque . É condição necessária, não suficiente: testa sempre a soma e o produto por escalar, com um contraexemplo concreto se suspeitares.
- Construir a matriz da aplicação com as imagens em linha em vez de coluna, ou trocar a ordem do produto na composta .
- Misturar bases: a matriz canónica só vale para as bases canónicas dos dois lados. Com outras bases, precisas das matrizes de mudança de base (próxima página).
- Esquecer que injetividade é sobre o núcleo e sobrejetividade sobre a imagem, e tentar prová-las diretamente com quantificadores quando o teorema das dimensões resolve em duas linhas.
Exercícios
Núcleo e imagem
Para , dá bases do núcleo e imagem e decide injetividade e sobrejetividade.
Pista
Resolve T(x,y,z)=0.
Mais uma pista
As duas primeiras colunas da matriz são independentes.
Solução
O núcleo tem base . A imagem é , com base canónica. A aplicação é sobrejetiva, mas não injetiva. A soma das dimensões é , a dimensão do domínio.
Confere a tua resposta:
- Calcula bases e dimensões.
- Justifica as propriedades.
Erros frequentes
O núcleo pertence ao domínio, , e a imagem à chegada, . Ter imagem total não torna a aplicação injetiva.
Derivar a lei
é linear, e . Encontra a lei e .
Pista
Decompõe (x,y) nos argumentos dados.
Mais uma pista
Os coeficientes são (x+y)/2 e (x-y)/2.
Solução
Pela linearidade, . Assim . Substitui os dois argumentos originais para confirmar os dados.
Confere a tua resposta:
- Deriva a lei, sem usar as imagens como colunas canónicas.
- Confirma os dados e a imagem pedida.
Erros frequentes
Os argumentos dados não são a base canónica. Decompõe nessa base antes de usar as duas imagens.
Imagens incompatíveis
Existe linear com , e ?
Pista
Usa (1,1)=(1,0)+(0,1).
Solução
Não existe. A linearidade obrigaria , diferente do terceiro dado.
Confere a tua resposta:
- Apresenta a dependência entre argumentos.
- Mostra a contradição.
Erros frequentes
Imagens prescritas têm de respeitar todas as relações lineares dos argumentos. Escolher três imagens livremente não define necessariamente uma aplicação linear.
Passar no teste do zero
Decide se , dadas por e , são lineares. Ambas enviam o zero para zero. Explica por que isso não decide a resposta.
Pista
Em , experimenta um escalar negativo. Em , distribui os escalares em cada coordenada.
Mais uma pista
Com , compara com .
Solução
não é linear: , mas . Falha o produto por escalar , embora .
Para , e reais ,
Portanto é linear. O teste do zero só permite excluir uma aplicação que o falhe; não prova as duas condições para a que o passe.
Confere a tua resposta:
- Dá um contraexemplo concreto para F.
- Prova a linearidade de G com argumentos e escalares genéricos.
Erros frequentes
Verificar alguns vetores não prova linearidade para todos. Um único contraexemplo basta para a negar; uma prova positiva usa argumentos e escalares genéricos.
Inversa definida só na imagem
Seja . Mostra que é injetiva, que não tem inversa como função , e encontra a imagem de pela inversa sobre .
Pista
Resolve .
Solução
dá , logo , e , logo : o núcleo é trivial e é injetiva. Como , não é sobrejetiva e não tem inversa . Sobre a imagem, é bijetiva: de sai , de sai , e confirma. A inversa sobre a imagem envia para ; o seu domínio é o plano , não todo o .
Confere a tua resposta:
- Prova a injetividade pelo núcleo.
- Resolve na imagem e explicita o domínio da inversa.
Erros frequentes
Injetividade não dá inversa total quando a aplicação não é sobrejetiva. Explicita sempre o domínio da inversa: aqui é .
Construir uma aplicação com núcleo prescrito
Existe uma única aplicação linear com núcleo , e ? Se existir, encontra a lei e descreve a imagem por uma equação cartesiana.
Pista
O vetor do núcleo é . A sua imagem tem de ser zero. Depois confirma que não apareceram outras direções no núcleo.
Solução
A linearidade e o núcleo obrigam
As imagens da base canónica ficam todas determinadas, logo há no máximo uma aplicação linear. A fórmula correspondente é
Esta fórmula é linear. Anula-se exatamente quando e , ou seja, quando . O núcleo é, portanto, a reta prescrita, provando a existência.
As duas imagens dadas são independentes e cada uma tem soma de coordenadas zero. Geram um plano de dimensão 2 contido em , que também tem dimensão 2. Assim,
A soma das dimensões é , a dimensão do domínio. O núcleo não determina uma aplicação sozinho; aqui as duas imagens adicionais fixam a ação nas direções que faltavam.
Confere a tua resposta:
- Usa a relação do núcleo para encontrar a imagem que falta e deriva a lei.
- Prova a existência, a unicidade e a igualdade exata do núcleo e da imagem.
