Testes do qui-quadrado

Ajustamento, independência e homogeneidade a partir de frequências observadas e esperadas.

TLDR

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Se um modelo prevê 50, 30 e 20 unidades em três categorias, observar 60, 25 e 15 não o refuta automaticamente. Precisamos de medir a discrepância tendo em conta a variação das contagens. A estatística de Pearson é

Q=∑(O−E)2E.Q=\sum\frac{(O-E)^2}{E}.

Cada termo é não negativo. Uma discrepância de dez unidades pesa mais quando se esperavam cinco do que quando se esperavam mil. Valores grandes de Q dão evidência contra a nula, pelo que a região crítica fica à direita.

Ajustamento a um modelo

Com uma variável categórica em k categorias, H0H_0 especifica probabilidades p1,…,pkp_1,\ldots,p_k que somam 1. Para uma amostra de n unidades, Ei=npiE_i=np_i e

Q=∑i=1k(Oi−npi)2npi ≈χk−12.Q=\sum_{i=1}^k\frac{(O_i-np_i)^2}{np_i}\ \approx\chi^2_{k-1}.

A alternativa diz que pelo menos uma probabilidade difere do modelo. Os graus de liberdade são k−1k-1 porque a soma das contagens está fixada. Quando os parâmetros do modelo são estimados por máxima verosimilhança dos mesmos dados, descontam-se também esses parâmetros: com r parâmetros estimados, ν=k−1−r\nu=k-1-r. Nos exemplos com probabilidades fixas não há esse desconto adicional.

Ajustamento em três categorias

Um modelo prevê probabilidades 0,5;0,3;0,20,5;0,3;0,2. Em 100 unidades observam-se 60,25,1560,25,15. As esperadas são 50,30,2050,30,20, todas pelo menos 5:

Q=(60−50)250+(25−30)230+(15−20)220=2+0,8333+1,25≈4,0833.Q=\frac{(60-50)^2}{50}+\frac{(25-30)^2}{30}+\frac{(15-20)^2}{20} =2+0,8333+1,25\approx4,0833.
Contagens por categoria1230204060Categoria
Barras preenchidas: observado; contornos tracejados: esperado sob o modelo. A maior diferença absoluta não é o único critério: cada contribuição é dividida pela contagem esperada.

Temos dois graus de liberdade. A 5%, o quantil crítico é χ0,05;22≈5,9915\chi^2_{0,05;2}\approx5,9915. Q fica abaixo e o valor-p é aproximadamente 0,1298. Não rejeitamos o modelo. Isso não demonstra que as probabilidades sejam exatamente as propostas; a amostra pode ter pouca capacidade para detetar certas diferenças.

Independência e homogeneidade

O cálculo é igual, mas a pergunta e a recolha diferem:

  • Independência: uma amostra de uma população, duas variáveis categóricas por unidade. H0H_0 diz que as variáveis são independentes.
  • Homogeneidade: amostras de populações ou grupos distintos, uma variável categórica. H0H_0 diz que a distribuição dessa variável é igual nos grupos.

Numa tabela com r linhas e c colunas, sob a nula,

Eij=Oi⋅O⋅jn,Q=∑i,j(Oij−Eij)2Eij,ν=(r−1)(c−1).E_{ij}=\frac{O_{i\cdot}O_{\cdot j}}n,\qquad Q=\sum_{i,j}\frac{(O_{ij}-E_{ij})^2}{E_{ij}},\qquad \nu=(r-1)(c-1).

Oi⋅O_{i\cdot} é o total da linha i e O⋅jO_{\cdot j} o total da coluna j. As esperadas conservam os totais observados das linhas e colunas. Não se obtêm dividindo n igualmente por todas as células, exceto se os totais produzirem isso.

Homogeneidade em dois grupos

Dois grupos independentes têm os resultados seguintes:

GrupoSucessoInsucessoTotal
A401050
B202040
Total603090

A pergunta é se a proporção de sucesso é igual nos grupos, um teste de homogeneidade. Sob a nula, as esperadas são

GrupoSucessoInsucesso
A50(60)/90=33,333350(60)/90=33,333350(30)/90=16,666750(30)/90=16,6667
B40(60)/90=26,666740(60)/90=26,666740(30)/90=13,333340(30)/90=13,3333

Todas excedem 5. As quatro contribuições são aproximadamente 1,3333, 2,6667, 1,6667 e 3,3333. Somando as quatro contribuições, Q=9Q=9. Os graus são (2−1)(2−1)=1(2-1)(2-1)=1, com valor crítico 3,8415 a 5%. O valor-p é aproximadamente 0,00270 e rejeitamos a igualdade. As proporções observadas são 0,8 e 0,5; indica a direção e a dimensão da diferença juntamente com a rejeição.

Se as mesmas contagens fossem recolhidas numa única amostra classificando cada unidade por grupo e resultado, a formulação seria de independência. A estatística não distingue os desenhos, porque a fórmula usa apenas as contagens; essa informação vem da recolha.

Comparar medianas por uma tabela de contagens

Também podemos formar categorias a partir de uma variável quantitativa. No teste da mediana de Mood, juntamos os valores de amostras independentes, calculamos a mediana global e contamos, em cada grupo, os valores acima e abaixo dela. A nula é igualdade das medianas populacionais. A tabela compara a posição dos grupos relativamente ao mesmo limiar; não compara as suas médias.

Considera dois grupos independentes de 40 durações cada, com valores distintos e sem observações iguais à mediana global. Obtém-se:

Posição face à mediana globalGrupo AGrupo BTotal
Acima122840
Abaixo281240
Total404080

As quatro esperadas são 40(40)/80=2040(40)/80=20. Sem correção de continuidade,

Q=4(12−20)220=12,8.Q=4\frac{(12-20)^2}{20}=12,8.

Há um grau de liberdade e o crítico a 5% é 3,8415. Rejeitamos a igualdade; A apresenta mais valores abaixo da mediana global e B, acima. Esta categorização perde informação sobre as distâncias entre os valores. Não dá a diferença de medianas em segundos nem prova que todas as durações de A sejam menores.

Se existirem observações iguais à mediana global, define como tratar os empates antes da análise. Excluí-los ou incluí-los numa categoria pode mudar a tabela e o resultado. Um programa pode ainda aplicar correção de continuidade por defeito numa tabela 2×22\times2; declara a convenção e conserva-a nas contas. Não substituas a mediana global pela mediana de cada grupo, pois passarias a contar em relação a limiares diferentes.

Condições e limites

As unidades devem ser independentes, cada uma contada uma única vez, em categorias mutuamente exclusivas e exaustivas. Usa frequências absolutas, não percentagens na fórmula de Q. Verifica frequências esperadas, não apenas observadas. O critério prático usado aqui é E≥5E\ge5 em todas as células.

Se houver categorias demasiado raras, pode ser necessário agrupá-las de forma justificada e recalcular os graus de liberdade, ou escolher outro método. Não juntes categorias apenas para conseguir um valor-p favorável. Numa tabela pequena 2 por 2, um teste exato pode ser mais adequado.

A rejeição em vários grupos diz que as distribuições não são todas iguais, não que todos os pares diferem. Contribuições grandes identificam células responsáveis pela discrepância; comparações posteriores exigem métodos e controlo de multiplicidade próprios. Não rejeitar independência também não prova independência.

Relação com testes de proporções

Com duas categorias e probabilidade nula p0p_0, o qui-quadrado de ajustamento é Z02Z_0^2 do teste de uma proporção; na tabela 2 por 2, Q é o quadrado do z que usa a proporção comum, sem correções de continuidade. São correspondências bilaterais.

Q não conserva o sinal: para uma alternativa direcional, usa o teste z com o sinal correto e a cauda previamente escolhida, sem dividir automaticamente por dois o valor-p do qui-quadrado para qualquer pergunta.

Dimensão da amostra e significado

Se 51% de n unidades têm uma característica e a nula é p igual a 0,5,

Q=(0,51n−0,5n)20,5n+(0,49n−0,5n)20,5n=0,0004n.Q=\frac{(0,51n-0,5n)^2}{0,5n}+\frac{(0,49n-0,5n)^2}{0,5n}=0,0004n.

Para n igual a 1 000, Q é 0,4 e não rejeitamos a 5%. Para n igual a 10 000, Q é 4 e rejeitamos. A diferença observada continua a ser um ponto percentual. A evidência cresce com a informação, mas a relevância prática da diferença não muda automaticamente.

Exercícios

Uma célula esperada

Numa tabela 3×2 com total 120, uma linha soma 30 e a primeira coluna soma 72. Qual é a contagem esperada na sua interseção sob independência?

Pista

Usa os totais marginais.

Solução

A esperada é 18. A tabela tem (3−1)(2−1)=2 graus de liberdade. Calcula todas as esperadas e verifica se são suficientes antes de usar a aproximação.

Erros frequentes

Não dividir 120 pelas seis células supondo margens iguais.

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Independência ou homogeneidade?

Num estudo, seleciona-se uma amostra de utilizadores e regista-se sistema operativo e tipo de erro. Noutro, recolhem-se amostras independentes em três sistemas e classifica-se o tipo de erro. Como se formulam os dois testes?

Pista

O mecanismo de recolha determina a pergunta.

Solução

O primeiro testa independência entre sistema e erro. O segundo testa homogeneidade da distribuição de erros entre os sistemas. Em ambos, Eij=total da linha×total da coluna/n e os graus são (r−1)(c−1). O cálculo comum não apaga a diferença de desenho.

Confere a tua resposta:

  • Chama independência ao estudo com duas classificações numa população.
  • Chama homogeneidade à comparação das distribuições em grupos amostrados separadamente.
  • Explica que esperadas e graus usam a mesma fórmula da tabela.

Erros frequentes

Não escolher o nome apenas pela orientação gráfica das linhas.

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Rejeitar em vários grupos

Um teste de homogeneidade rejeita a igualdade das proporções em cinco grupos. Isto prova que todos os pares são diferentes? Explica e indica uma condição que deve ter sido verificada antes do teste.

Pista

A alternativa contém muitas possibilidades de diferença.

Solução

Não. A rejeição implica evidência de pelo menos uma diferença, não de diferenças em todos os pares. As esperadas devem ser suficientes e as unidades independentes, com categorias disjuntas. Comparações posteriores precisam de procedimento próprio, incluindo atenção a multiplicidade.

Confere a tua resposta:

  • Conclui que a rejeição diz apenas que não são todas iguais.
  • Exige unidades independentes e esperadas suficientes.
  • Identifica necessidade de análise posterior adequada para pares específicos.

Erros frequentes

Não transformar uma rejeição global em cinco ou dez conclusões sem análise adicional.

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Modelo não uniforme e teste de ajustamento

Um modelo prevê proporções na razão 3:1:13:1:1 em três categorias. Observam-se 50, 15 e 15 unidades independentes. Formula as hipóteses, calcula esperadas e Q, verifica as condições e decide a 5%, usando χ0,05;22=5,9915\chi^2_{0,05;2}=5,9915. As probabilidades do modelo foram fixadas antes de recolher os dados.

Pista

Uma razão 3:1:1 tem cinco partes, não três.

Solução

A nula fixa probabilidades 3/5,1/5,1/53/5,1/5,1/5; a alternativa diz que pelo menos uma difere. Com n=80, as esperadas são 48, 16 e 16, todas superiores a 5. Logo Q=(50−48)2/48+(15−16)2/16+(15−16)2/16=1/12+1/16+1/16=5/24≈0,20833Q=(50-48)^2/48+(15-16)^2/16+(15-16)^2/16=1/12+1/16+1/16=5/24\approx0,20833. Como as probabilidades são fixas, há 3−1=23-1=2 graus. Q fica abaixo de 5,9915 e não rejeitamos a 5%. Isto não prova a razão; indica que a discrepância não é suficiente para a rejeitar neste teste. Dividir 80 em partes iguais teria testado outro modelo.

Confere a tua resposta:

  • Normalizei a razão em probabilidades 0,6, 0,2 e 0,2.
  • Obtive esperadas 48, 16 e 16 e Q=5/24.
  • Usei dois graus e não rejeitei a 5%.
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Comparar a posição dos dois grupos

Dois grupos independentes têm 40 durações cada. Não existem empates com a mediana global dos 80 valores. Em A, 12 durações estão acima e 28 abaixo; em B, 28 estão acima e 12 abaixo. Aplica o teste da mediana de Mood sem correção de continuidade, usando χ0,05;12=3,8415\chi^2_{0,05;1}=3,8415. Um colega propõe usar a mediana de cada grupo para contar acima e abaixo. Explica o que essa alteração perde e o que a rejeição permite concluir.

Solução

Os totais de linha e coluna são 40, com total 80. As quatro esperadas são 40(40)/80=2040(40)/80=20, todas suficientes. Logo Q=4(82/20)=12,8Q=4(8^2/20)=12,8, com (2−1)(2−1)=1(2-1)(2-1)=1 grau. Como 12,8>3,841512,8>3,8415, rejeitamos a igualdade das medianas a 5%. A tem mais valores abaixo do limiar comum; B tem mais acima.

Usar duas medianas separadas deixa de classificar relativamente ao mesmo limiar. Sem empates e com tamanhos pares, cada grupo ficaria dividido em duas metades por construção, mesmo se um estivesse muito deslocado face ao outro.

O resultado não é um teste da igualdade das médias, não estima a diferença de medianas em segundos e não afirma que todas as durações de A sejam menores que as de B. Conhecemos contagens, não as distâncias dos valores ao limiar. Com empates, seria ainda necessário fixar a regra de classificação.

Confere a tua resposta:

  • Usa a mesma mediana global e as esperadas 20 em todas as células.
  • Obtém Q=12,8 com um grau e rejeita a 5%.
  • Distingue medianas, médias e distâncias perdidas na categorização.
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