Testes do qui-quadrado
Ajustamento, independência e homogeneidade a partir de frequências observadas e esperadas.
Se um modelo prevê 50, 30 e 20 unidades em três categorias, observar 60, 25 e 15 não o refuta automaticamente. Precisamos de medir a discrepância tendo em conta a variação das contagens. A estatística de Pearson é
Cada termo é não negativo. Uma discrepância de dez unidades pesa mais quando se esperavam cinco do que quando se esperavam mil. Valores grandes de Q dão evidência contra a nula, pelo que a região crítica fica à direita.
Ajustamento a um modelo
Com uma variável categórica em k categorias, especifica probabilidades que somam 1. Para uma amostra de n unidades, e
A alternativa diz que pelo menos uma probabilidade difere do modelo. Os graus de liberdade são porque a soma das contagens está fixada. Quando os parâmetros do modelo são estimados por máxima verosimilhança dos mesmos dados, descontam-se também esses parâmetros: com r parâmetros estimados, . Nos exemplos com probabilidades fixas não há esse desconto adicional.
Ajustamento em três categorias
Um modelo prevê probabilidades . Em 100 unidades observam-se . As esperadas são , todas pelo menos 5:
Temos dois graus de liberdade. A 5%, o quantil crítico é . Q fica abaixo e o valor-p é aproximadamente 0,1298. Não rejeitamos o modelo. Isso não demonstra que as probabilidades sejam exatamente as propostas; a amostra pode ter pouca capacidade para detetar certas diferenças.
Independência e homogeneidade
O cálculo é igual, mas a pergunta e a recolha diferem:
- Independência: uma amostra de uma população, duas variáveis categóricas por unidade. diz que as variáveis são independentes.
- Homogeneidade: amostras de populações ou grupos distintos, uma variável categórica. diz que a distribuição dessa variável é igual nos grupos.
Numa tabela com r linhas e c colunas, sob a nula,
é o total da linha i e o total da coluna j. As esperadas conservam os totais observados das linhas e colunas. Não se obtêm dividindo n igualmente por todas as células, exceto se os totais produzirem isso.
Homogeneidade em dois grupos
Dois grupos independentes têm os resultados seguintes:
| Grupo | Sucesso | Insucesso | Total |
|---|---|---|---|
| A | 40 | 10 | 50 |
| B | 20 | 20 | 40 |
| Total | 60 | 30 | 90 |
A pergunta é se a proporção de sucesso é igual nos grupos, um teste de homogeneidade. Sob a nula, as esperadas são
| Grupo | Sucesso | Insucesso |
|---|---|---|
| A | ||
| B |
Todas excedem 5. As quatro contribuições são aproximadamente 1,3333, 2,6667, 1,6667 e 3,3333. Somando as quatro contribuições, . Os graus são , com valor crítico 3,8415 a 5%. O valor-p é aproximadamente 0,00270 e rejeitamos a igualdade. As proporções observadas são 0,8 e 0,5; indica a direção e a dimensão da diferença juntamente com a rejeição.
Se as mesmas contagens fossem recolhidas numa única amostra classificando cada unidade por grupo e resultado, a formulação seria de independência. A estatística não distingue os desenhos, porque a fórmula usa apenas as contagens; essa informação vem da recolha.
Comparar medianas por uma tabela de contagens
Também podemos formar categorias a partir de uma variável quantitativa. No teste da mediana de Mood, juntamos os valores de amostras independentes, calculamos a mediana global e contamos, em cada grupo, os valores acima e abaixo dela. A nula é igualdade das medianas populacionais. A tabela compara a posição dos grupos relativamente ao mesmo limiar; não compara as suas médias.
Considera dois grupos independentes de 40 durações cada, com valores distintos e sem observações iguais à mediana global. Obtém-se:
| Posição face à mediana global | Grupo A | Grupo B | Total |
|---|---|---|---|
| Acima | 12 | 28 | 40 |
| Abaixo | 28 | 12 | 40 |
| Total | 40 | 40 | 80 |
As quatro esperadas são . Sem correção de continuidade,
Há um grau de liberdade e o crítico a 5% é 3,8415. Rejeitamos a igualdade; A apresenta mais valores abaixo da mediana global e B, acima. Esta categorização perde informação sobre as distâncias entre os valores. Não dá a diferença de medianas em segundos nem prova que todas as durações de A sejam menores.
Se existirem observações iguais à mediana global, define como tratar os empates antes da análise. Excluí-los ou incluí-los numa categoria pode mudar a tabela e o resultado. Um programa pode ainda aplicar correção de continuidade por defeito numa tabela ; declara a convenção e conserva-a nas contas. Não substituas a mediana global pela mediana de cada grupo, pois passarias a contar em relação a limiares diferentes.
Condições e limites
As unidades devem ser independentes, cada uma contada uma única vez, em categorias mutuamente exclusivas e exaustivas. Usa frequências absolutas, não percentagens na fórmula de Q. Verifica frequências esperadas, não apenas observadas. O critério prático usado aqui é em todas as células.
Se houver categorias demasiado raras, pode ser necessário agrupá-las de forma justificada e recalcular os graus de liberdade, ou escolher outro método. Não juntes categorias apenas para conseguir um valor-p favorável. Numa tabela pequena 2 por 2, um teste exato pode ser mais adequado.
A rejeição em vários grupos diz que as distribuições não são todas iguais, não que todos os pares diferem. Contribuições grandes identificam células responsáveis pela discrepância; comparações posteriores exigem métodos e controlo de multiplicidade próprios. Não rejeitar independência também não prova independência.
Relação com testes de proporções
Com duas categorias e probabilidade nula , o qui-quadrado de ajustamento é do teste de uma proporção; na tabela 2 por 2, Q é o quadrado do z que usa a proporção comum, sem correções de continuidade. São correspondências bilaterais.
Q não conserva o sinal: para uma alternativa direcional, usa o teste z com o sinal correto e a cauda previamente escolhida, sem dividir automaticamente por dois o valor-p do qui-quadrado para qualquer pergunta.
Dimensão da amostra e significado
Se 51% de n unidades têm uma característica e a nula é p igual a 0,5,
Para n igual a 1 000, Q é 0,4 e não rejeitamos a 5%. Para n igual a 10 000, Q é 4 e rejeitamos. A diferença observada continua a ser um ponto percentual. A evidência cresce com a informação, mas a relevância prática da diferença não muda automaticamente.
Exercícios
Uma célula esperada
Numa tabela 3×2 com total 120, uma linha soma 30 e a primeira coluna soma 72. Qual é a contagem esperada na sua interseção sob independência?
Pista
Usa os totais marginais.
Solução
A esperada é 18. A tabela tem (3−1)(2−1)=2 graus de liberdade. Calcula todas as esperadas e verifica se são suficientes antes de usar a aproximação.
Erros frequentes
Não dividir 120 pelas seis células supondo margens iguais.
Independência ou homogeneidade?
Num estudo, seleciona-se uma amostra de utilizadores e regista-se sistema operativo e tipo de erro. Noutro, recolhem-se amostras independentes em três sistemas e classifica-se o tipo de erro. Como se formulam os dois testes?
Pista
O mecanismo de recolha determina a pergunta.
Solução
O primeiro testa independência entre sistema e erro. O segundo testa homogeneidade da distribuição de erros entre os sistemas. Em ambos, Eij=total da linha×total da coluna/n e os graus são (r−1)(c−1). O cálculo comum não apaga a diferença de desenho.
Confere a tua resposta:
- Chama independência ao estudo com duas classificações numa população.
- Chama homogeneidade à comparação das distribuições em grupos amostrados separadamente.
- Explica que esperadas e graus usam a mesma fórmula da tabela.
Erros frequentes
Não escolher o nome apenas pela orientação gráfica das linhas.
Rejeitar em vários grupos
Um teste de homogeneidade rejeita a igualdade das proporções em cinco grupos. Isto prova que todos os pares são diferentes? Explica e indica uma condição que deve ter sido verificada antes do teste.
Pista
A alternativa contém muitas possibilidades de diferença.
Solução
Não. A rejeição implica evidência de pelo menos uma diferença, não de diferenças em todos os pares. As esperadas devem ser suficientes e as unidades independentes, com categorias disjuntas. Comparações posteriores precisam de procedimento próprio, incluindo atenção a multiplicidade.
Confere a tua resposta:
- Conclui que a rejeição diz apenas que não são todas iguais.
- Exige unidades independentes e esperadas suficientes.
- Identifica necessidade de análise posterior adequada para pares específicos.
Erros frequentes
Não transformar uma rejeição global em cinco ou dez conclusões sem análise adicional.
Modelo não uniforme e teste de ajustamento
Um modelo prevê proporções na razão em três categorias. Observam-se 50, 15 e 15 unidades independentes. Formula as hipóteses, calcula esperadas e Q, verifica as condições e decide a 5%, usando . As probabilidades do modelo foram fixadas antes de recolher os dados.
Pista
Uma razão 3:1:1 tem cinco partes, não três.
Solução
A nula fixa probabilidades ; a alternativa diz que pelo menos uma difere. Com n=80, as esperadas são 48, 16 e 16, todas superiores a 5. Logo . Como as probabilidades são fixas, há graus. Q fica abaixo de 5,9915 e não rejeitamos a 5%. Isto não prova a razão; indica que a discrepância não é suficiente para a rejeitar neste teste. Dividir 80 em partes iguais teria testado outro modelo.
Confere a tua resposta:
- Normalizei a razão em probabilidades 0,6, 0,2 e 0,2.
- Obtive esperadas 48, 16 e 16 e Q=5/24.
- Usei dois graus e não rejeitei a 5%.
Comparar a posição dos dois grupos
Dois grupos independentes têm 40 durações cada. Não existem empates com a mediana global dos 80 valores. Em A, 12 durações estão acima e 28 abaixo; em B, 28 estão acima e 12 abaixo. Aplica o teste da mediana de Mood sem correção de continuidade, usando . Um colega propõe usar a mediana de cada grupo para contar acima e abaixo. Explica o que essa alteração perde e o que a rejeição permite concluir.
Solução
Os totais de linha e coluna são 40, com total 80. As quatro esperadas são , todas suficientes. Logo , com grau. Como , rejeitamos a igualdade das medianas a 5%. A tem mais valores abaixo do limiar comum; B tem mais acima.
Usar duas medianas separadas deixa de classificar relativamente ao mesmo limiar. Sem empates e com tamanhos pares, cada grupo ficaria dividido em duas metades por construção, mesmo se um estivesse muito deslocado face ao outro.
O resultado não é um teste da igualdade das médias, não estima a diferença de medianas em segundos e não afirma que todas as durações de A sejam menores que as de B. Conhecemos contagens, não as distâncias dos valores ao limiar. Com empates, seria ainda necessário fixar a regra de classificação.
Confere a tua resposta:
- Usa a mesma mediana global e as esperadas 20 em todas as células.
- Obtém Q=12,8 com um grau e rejeita a 5%.
- Distingue medianas, médias e distâncias perdidas na categorização.