Distribuições e tabelas

Reconhecer binomial e normal, ler probabilidades acumuladas e quantis críticos e avaliar normalidade.

TLDR

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Inspecionar 12 peças e medir a espera até à próxima falha produzem variáveis diferentes. Na primeira pergunta, o número de tentativas está fixado; na segunda, o tempo pode continuar a crescer. É o mecanismo, juntamente com as hipóteses, que determina o modelo.

Bernoulli e binomial

Uma Bernoulli de parâmetro p vale 1 com probabilidade p e 0 com probabilidade 1−p1-p; a sua média é p e a variância é p(1−p)p(1-p). A soma de n Bernoulli independentes com o mesmo p é binomial. Escrevemos X∼B(n,p)X\sim B(n,p) e

P(X=k)=(nk)pk(1−p)n−k,k=0,…,n,P(X=k)=\binom nkp^k(1-p)^{n-k},\quad k=0,\ldots,n, E(X)=np,Var⁡(X)=np(1−p).E(X)=np,\qquad \operatorname{Var}(X)=np(1-p).

O modelo exige quatro condições: número fixo de tentativas, dois resultados por tentativa, independência e probabilidade constante. «Sucesso» é o resultado que estás a contar, mesmo que seja uma falha.

Probabilidade de pelo menos duas falhas

Inspecionam-se 12 peças independentes com probabilidade de falha 0,2. Para X, número de falhas, X∼B(12;0,2)X\sim B(12;0,2). «Pelo menos duas» significa X≥2X\ge2:

P(X≥2)=1−P(X=0)−P(X=1)=1−0,812−12(0,2)0,811≈0,7251.P(X\ge2)=1-P(X=0)-P(X=1) =1-0,8^{12}-12(0,2)0,8^{11}\approx0,7251.

Em P(X=1)P(X=1), o fator 12 escolhe a posição da única falha. O produto 0,2(0,8)110,2(0,8)^{11} dá a probabilidade de uma dessas sequências, usando a independência. Somamos as doze sequências disjuntas antes de usar o complemento.

O valor esperado é 2,4 falhas; não é uma previsão de que aparecerão exatamente 2,4. Para «mais de duas», teríamos de subtrair também P(X=2)P(X=2).

Ler uma tabela acumulada

Se a tabela dá F(k)=P(X≤k)F(k)=P(X\le k),

P(X=k)=F(k)−F(k−1),P(X≥k)=1−F(k−1),P(X=k)=F(k)-F(k-1),\quad P(X\ge k)=1-F(k-1), P(a≤X≤b)=F(b)−F(a−1)P(a\le X\le b)=F(b)-F(a-1)

para limites inteiros. Para probabilidades p acima das colunas disponíveis, usa o número de insucessos: n−X∼B(n,1−p)n-X\sim B(n,1-p). Por exemplo, X≥9X\ge9 em 12 tentativas equivale a 12−X≤312-X\le3. Numa tabela impressa, procura a linha da contagem kk e a coluna da probabilidade pp. A célula dá F(k)F(k). Se a tua pp está acima das colunas impressas, troca sucessos por insucessos e lê a coluna complementar.

Normal

X∼N(μ,σ2)X\sim N(\mu,\sigma^2) tem densidade

fX(x)=1σ2πexp⁡(−(x−μ)22σ2),σ>0.f_X(x)=\frac{1}{\sigma\sqrt{2\pi}}\exp\left(-\frac{(x-\mu)^2}{2\sigma^2}\right),\qquad \sigma>0.

O segundo parâmetro é a variância. A curva é simétrica em torno de μ\mu, que também é mediana e moda. Padronizar remove centro e escala:

Z=X−μσ∼N(0,1).Z=\frac{X-\mu}{\sigma}\sim N(0,1).

A tabela acumulada da normal dá Φ(z)=P(Z≤z)\Phi(z)=P(Z\le z). Usa Φ(−z)=1−Φ(z)\Phi(-z)=1-\Phi(z) e calcula intervalos por diferença de acumuladas.

Exemplo. Se X∼N(100,16)X\sim N(100,16), então σ=4\sigma=4:

P(X>106)=1−Φ(1,5)≈0,0668,P(X>106)=1-\Phi(1,5)\approx0,0668, P(96<X<108)=Φ(2)−Φ(−1)≈0,8186.P(96<X<108)=\Phi(2)-\Phi(-1)\approx0,8186.

Probabilidade conhecida, limite desconhecido

O percentil 95 a satisfaz P(X≤a)=0,95P(X\le a)=0,95. Procuramos Φ(z)=0,95\Phi(z)=0,95, obtendo z≈1,6449z\approx1,6449:

a=100+4(1,6449)≈106,5794.a=100+4(1,6449)\approx106,5794.

Neste curso, o quantil crítico zαz_\alpha é definido pela cauda direita: P(Z>zα)=αP(Z>z_\alpha)=\alpha; assim, z0,05≈1,6449z_{0,05}\approx1,6449 e z0,025≈1,9600z_{0,025}\approx1,9600. Não confundas a área à direita com a probabilidade acumulada à esquerda.

Os intervalos μ±σ\mu\pm\sigma, μ±2σ\mu\pm2\sigma e μ±3σ\mu\pm3\sigma contêm aproximadamente 68,27%, 95,45% e 99,73% da população normal. Não são intervalos de confiança para a média.

Combinações lineares de normais independentes continuam normais. Se X1,X2∼N(100,16)X_1,X_2\sim N(100,16) são independentes, X1+X2∼N(200,32)X_1+X_2\sim N(200,32) e X1−X2∼N(0,32)X_1-X_2\sim N(0,32). Calcula a variância e só depois tira a raiz para obter o desvio.

t, qui-quadrado e F

Se Z∼N(0,1)Z\sim N(0,1) e U∼χν2U\sim\chi^2_\nu são independentes,

T=ZU/ν∼tν.T=\frac Z{\sqrt{U/\nu}}\sim t_\nu.

A t é simétrica, com caudas mais pesadas do que a normal; aproxima-se dela quando os graus de liberdade ν\nu crescem. Para a média de uma amostra normal com desvio desconhecido, aparece ν=n−1\nu=n-1. O quantil tα,νt_{\alpha,\nu} satisfaz P(T>tα,ν)=αP(T>t_{\alpha,\nu})=\alpha. A 95% bilateral e com n=6n=6, usa-se t0,025;5≈2,5706t_{0,025;5}\approx2,5706, maior do que 1,96.

A soma dos quadrados de ν\nu normais padrão independentes tem distribuição χν2\chi^2_\nu. Só toma valores não negativos, tem média ν\nu e variância 2ν2\nu. O quantil χα,ν2\chi^2_{\alpha,\nu} deixa área α\alpha à direita. Com dois graus de liberdade, χ0,05;22≈5,9915\chi^2_{0,05;2}\approx5,9915.

Se U∼χν12U\sim\chi^2_{\nu_1} e V∼χν22V\sim\chi^2_{\nu_2} são independentes, (U/ν1)/(V/ν2)∼Fν1,ν2(U/\nu_1)/(V/\nu_2)\sim F_{\nu_1,\nu_2}. Esta distribuição positiva depende de dois graus de liberdade: trocar numerador e denominador troca os graus e dá o inverso da variável. Se as somas de quadrados observadas forem U=12U=12 e V=18V=18, com ν1=6\nu_1=6 e ν2=9\nu_2=9 graus, então F=(12/6)/(18/9)=1F=(12/6)/(18/9)=1. Para reconhecer estes modelos, conserva a origem e os graus de liberdade, não apenas o nome da tabela.

Outros mecanismos, para reconhecer e consultar

Binomial, normal, t e qui-quadrado são o núcleo usado na inferência desta cadeira. Os modelos seguintes servem para reconhecer o mecanismo e consultar a fórmula quando um exercício os pedir.

ModeloO que conta ou medeParâmetros e momentos
HipergeométricaSucessos em n escolhas sem reposição de N unidades, K sucessosP(X=k)=(Kk)(N−Kn−k)/(Nn)P(X=k)=\binom Kk\binom{N-K}{n-k}/\binom Nn; E(X)=nK/NE(X)=nK/N; variância np(1−p)(N−n)/(N−1)np(1-p)(N-n)/(N-1), com p=K/Np=K/N e N>1N>1
PoissonNúmero de ocorrências num intervalo, sob um modelo de taxa constante e ocorrências independentesP(X=k)=e−λλk/k!P(X=k)=e^{-\lambda}\lambda^k/k!; média e variância λ\lambda
GeométricaNúmero de tentativas até ao primeiro sucesso, incluindo-oP(X=k)=(1−p)k−1pP(X=k)=(1-p)^{k-1}p; média 1/p1/p, variância (1−p)/p2(1-p)/p^2
Binomial negativaTentativas até ao r-ésimo sucesso, incluindo-oP(X=k)=(k−1r−1)pr(1−p)k−rP(X=k)=\binom{k-1}{r-1}p^r(1-p)^{k-r}; média r/pr/p, variância r(1−p)/p2r(1-p)/p^2
Uniforme contínuaValor com densidade constante em [a,b][a,b]f=1/(b−a)f=1/(b-a); média (a+b)/2(a+b)/2, variância (b−a)2/12(b-a)^2/12
ExponencialEspera até à próxima ocorrência num processo de PoissonP(X>t)=e−λtP(X>t)=e^{-\lambda t} para t≥0t\ge0; média 1/λ1/\lambda, variância 1/λ21/\lambda^2

Na hipergeométrica, N, K e n são inteiros, com 0≤K≤N0\le K\le N e 0≤n≤N0\le n\le N; k vai de max⁡(0,n−(N−K))\max(0,n-(N-K)) até min⁡(n,K)\min(n,K). A geométrica e a binomial negativa pressupõem ensaios de Bernoulli independentes com p constante, 0<p<10<p<1: contam tentativas, com k≥1k\ge1 ou k≥rk\ge r, respetivamente, e r inteiro positivo. Noutra convenção contam-se apenas insucessos; as fórmulas mudam. Na Poisson, k=0,1,2,…k=0,1,2,\ldots e λ>0\lambda>0. Na exponencial, λ>0\lambda>0; na uniforme, a<ba<b.

Reconhece a unidade de λ\lambda: contagem esperada na Poisson, taxa por unidade de tempo na exponencial. Com média de três pedidos por minuto, a Poisson dá P(X=0)=e−3≈0,0498P(X=0)=e^{-3}\approx0,0498. Com espera média de dez minutos, a exponencial tem taxa 0,1 por minuto e P(X>20)=e−2≈0,1353P(X>20)=e^{-2}\approx0,1353.

Com sucesso de probabilidade 0,25, a geométrica dá P(X=3)=0,752(0,25)=0,140625P(X=3)=0,75^2(0,25)=0,140625; para o segundo sucesso ocorrer na terceira tentativa, a binomial negativa dá (21)(0,25)2(0,75)=0,09375\binom21(0,25)^2(0,75)=0,09375. Uma uniforme entre 2 e 6 dá P(3<X<5)=2/4=0,5P(3<X<5)=2/4=0,5, e a escolha de duas aprovadas em três peças de um lote finito é a hipergeométrica do exemplo de contagem.

Avaliar normalidade

Um histograma aproximadamente simétrico e uma caixa sem forte assimetria são indícios, não provas. Num gráfico QQ normal, o eixo horizontal contém quantis normais teóricos e o vertical contém dados ordenados. Uma relação aproximadamente reta apoia a plausibilidade da normalidade. Curvatura sistemática ou pontos extremos afastados da reta levantam dúvidas.

Pequenas amostras podem produzir irregularidades mesmo sendo normais; a figura isola o efeito da forma da distribuição comparando quantis populacionais, sem ruído amostral. Na exponencial, os quantis superiores afastam-se progressivamente da reta, por isso num QQ amostral procuramos esse padrão sem exigir alinhamento perfeito.

Uma transformação logarítmica pode reduzir assimetria à direita em dados positivos, mas a média dos logaritmos não é o logaritmo da média.

Normal-101-101Quantil normal teóricoExponencial-1010123Quantil normal teórico
Referência de forma, sem ruído amostral: quantis de uma normal padrão e de uma exponencial de média 1, comparados com quantis normais. Numa amostra real, espera-se alguma irregularidade.

Exercícios

Exatamente dois sucessos

Em oito tentativas independentes, cada uma tem probabilidade de sucesso 0,25. Calcula a probabilidade de exatamente dois sucessos.

Pista

Escolhe as duas posições dos sucessos.

Solução

P(X=2)=(82)(0,25)2(0,75)6≈0,311462P(X=2)=\binom82(0,25)^2(0,75)^6\approx0,311462. A combinação conta as possíveis posições, não altera a probabilidade de cada sequência.

Erros frequentes

Não usar a acumulada P(X≤2) como probabilidade de exatamente dois.

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Probabilidade e quantil no mesmo modelo

X∼N(50,25)X\sim N(50,25), sendo 25 a variância. Calcula P(X>55)P(X>55) e determina a tal que P(X>a)=0,10P(X>a)=0,10. Usa Φ(1)=0,841345\Phi(1)=0,841345 e z0,10=1,2816z_{0,10}=1,2816. Arredonda a a duas casas decimais.

Pista

Na primeira pergunta conheces o limite; na segunda conheces a área.

Solução

O desvio é 25=5\sqrt{25}=5. Para 55, z=(55−50)/5=1z=(55-50)/5=1, logo P(X>55)=1−0,841345=0,158655P(X>55)=1-0,841345=0,158655. Na segunda pergunta, conhecemos a área e procuramos o limite: (a−50)/5=1,2816(a-50)/5=1,2816, pelo que a=56,408≈56,41a=56,408\approx56,41. A cauda direita de 10% corresponde à acumulada de 90%.

Confere a tua resposta:

  • Usei desvio 5.
  • Obtive probabilidade 0,158655.
  • Inverti a padronização e obtive 56,41.
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Forma e QQ

Num QQ normal com quantis teóricos no eixo horizontal, os dados apresentam curvatura sistemática e uma cauda direita longa no histograma. Explica o que isto sugere e por que não basta verificar se a média é próxima da mediana.

Pista

A forma completa interessa para a plausibilidade do modelo.

Mais uma pista

Uma relação aproximadamente reta seria o padrão esperado para normalidade.

Solução

A combinação de curvatura e cauda direita longa sugere que o modelo normal não representa bem a população. Médias e medianas próximas não garantem caudas normais. Em amostras pequenas também é necessário distinguir irregularidade aleatória de um padrão claro.

Confere a tua resposta:

  • Identifica assimetria à direita e dúvidas sobre normalidade.
  • Compara a curva com a reta esperada no QQ normal.
  • Explica que duas medidas de centro não descrevem as caudas nem provam normalidade.

Erros frequentes

Não declarar normalidade apenas porque não há valores assinalados na caixa.

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Contagem e espera

Um processo tem taxa de três ocorrências por minuto segundo um modelo de Poisson. Que modelo descreve o número num minuto e qual descreve a espera até à próxima ocorrência? Dá a média de cada variável e P(espera>1 minuto).

Pista

A taxa tem unidades de ocorrências por minuto.

Mais uma pista

A média da espera é o inverso da taxa.

Solução

A contagem é Poisson(3), média 3. A espera é exponencial de taxa 3 por minuto, média 1/3 minuto, e a cauda em 1 minuto é e^(−3)≈0,049787. A mesma taxa entra em variáveis com unidades diferentes.

Confere a tua resposta:

  • Usa Poisson de média 3 para a contagem.
  • Usa exponencial de taxa 3 e média 1/3 minuto para a espera.
  • Calcula P(espera>1)=exp(−3), aproximadamente 0,0498.

Erros frequentes

Não usar 3 minutos como média da espera nem tratar a espera como contagem.

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Trocar sucessos por insucessos na tabela

X∼B(12;0,8)X\sim B(12;0,8). Uma tabela só inclui probabilidades de sucesso até 0,5 e dá FY(3)=0,794569F_Y(3)=0,794569 para Y∼B(12;0,2)Y\sim B(12;0,2). Usa essa célula para calcular P(X≥9)P(X\ge9) e explica a transformação.

Pista

Escreve a desigualdade usando Y=12−X.

Solução

Y conta insucessos: Y=12−X∼B(12;0,2)Y=12-X\sim B(12;0,2). O acontecimento X≥9X\ge9 equivale a 12−X≤312-X\le3. Assim, P(X≥9)=P(Y≤3)=0,794569P(X\ge9)=P(Y\le3)=0,794569. Não fazemos 1−FY(3)1-F_Y(3), pois o acontecimento transformado já corresponde à cauda acumulada da tabela.

Confere a tua resposta:

  • Defini Y=12−X com probabilidade 0,2.
  • Transformei X≥9 em Y≤3.
  • Li a acumulada 0,794569 sem novo complemento.
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