Distribuições e tabelas
Reconhecer binomial e normal, ler probabilidades acumuladas e quantis críticos e avaliar normalidade.
Inspecionar 12 peças e medir a espera até à próxima falha produzem variáveis diferentes. Na primeira pergunta, o número de tentativas está fixado; na segunda, o tempo pode continuar a crescer. É o mecanismo, juntamente com as hipóteses, que determina o modelo.
Bernoulli e binomial
Uma Bernoulli de parâmetro p vale 1 com probabilidade p e 0 com probabilidade ; a sua média é p e a variância é . A soma de n Bernoulli independentes com o mesmo p é binomial. Escrevemos e
O modelo exige quatro condições: número fixo de tentativas, dois resultados por tentativa, independência e probabilidade constante. «Sucesso» é o resultado que estás a contar, mesmo que seja uma falha.
Probabilidade de pelo menos duas falhas
Inspecionam-se 12 peças independentes com probabilidade de falha 0,2. Para X, número de falhas, . «Pelo menos duas» significa :
Em , o fator 12 escolhe a posição da única falha. O produto dá a probabilidade de uma dessas sequências, usando a independência. Somamos as doze sequências disjuntas antes de usar o complemento.
O valor esperado é 2,4 falhas; não é uma previsão de que aparecerão exatamente 2,4. Para «mais de duas», teríamos de subtrair também .
Ler uma tabela acumulada
Se a tabela dá ,
para limites inteiros. Para probabilidades p acima das colunas disponíveis, usa o número de insucessos: . Por exemplo, em 12 tentativas equivale a . Numa tabela impressa, procura a linha da contagem e a coluna da probabilidade . A célula dá . Se a tua está acima das colunas impressas, troca sucessos por insucessos e lê a coluna complementar.
Normal
tem densidade
O segundo parâmetro é a variância. A curva é simétrica em torno de , que também é mediana e moda. Padronizar remove centro e escala:
A tabela acumulada da normal dá . Usa e calcula intervalos por diferença de acumuladas.
Exemplo. Se , então :
Probabilidade conhecida, limite desconhecido
O percentil 95 a satisfaz . Procuramos , obtendo :
Neste curso, o quantil crítico é definido pela cauda direita: ; assim, e . Não confundas a área à direita com a probabilidade acumulada à esquerda.
Os intervalos , e contêm aproximadamente 68,27%, 95,45% e 99,73% da população normal. Não são intervalos de confiança para a média.
Combinações lineares de normais independentes continuam normais. Se são independentes, e . Calcula a variância e só depois tira a raiz para obter o desvio.
t, qui-quadrado e F
Se e são independentes,
A t é simétrica, com caudas mais pesadas do que a normal; aproxima-se dela quando os graus de liberdade crescem. Para a média de uma amostra normal com desvio desconhecido, aparece . O quantil satisfaz . A 95% bilateral e com , usa-se , maior do que 1,96.
A soma dos quadrados de normais padrão independentes tem distribuição . Só toma valores não negativos, tem média e variância . O quantil deixa área à direita. Com dois graus de liberdade, .
Se e são independentes, . Esta distribuição positiva depende de dois graus de liberdade: trocar numerador e denominador troca os graus e dá o inverso da variável. Se as somas de quadrados observadas forem e , com e graus, então . Para reconhecer estes modelos, conserva a origem e os graus de liberdade, não apenas o nome da tabela.
Outros mecanismos, para reconhecer e consultar
Binomial, normal, t e qui-quadrado são o núcleo usado na inferência desta cadeira. Os modelos seguintes servem para reconhecer o mecanismo e consultar a fórmula quando um exercício os pedir.
| Modelo | O que conta ou mede | Parâmetros e momentos |
|---|---|---|
| Hipergeométrica | Sucessos em n escolhas sem reposição de N unidades, K sucessos | ; ; variância , com e |
| Poisson | Número de ocorrências num intervalo, sob um modelo de taxa constante e ocorrências independentes | ; média e variância |
| Geométrica | Número de tentativas até ao primeiro sucesso, incluindo-o | ; média , variância |
| Binomial negativa | Tentativas até ao r-ésimo sucesso, incluindo-o | ; média , variância |
| Uniforme contínua | Valor com densidade constante em | ; média , variância |
| Exponencial | Espera até à próxima ocorrência num processo de Poisson | para ; média , variância |
Na hipergeométrica, N, K e n são inteiros, com e ; k vai de até . A geométrica e a binomial negativa pressupõem ensaios de Bernoulli independentes com p constante, : contam tentativas, com ou , respetivamente, e r inteiro positivo. Noutra convenção contam-se apenas insucessos; as fórmulas mudam. Na Poisson, e . Na exponencial, ; na uniforme, .
Reconhece a unidade de : contagem esperada na Poisson, taxa por unidade de tempo na exponencial. Com média de três pedidos por minuto, a Poisson dá . Com espera média de dez minutos, a exponencial tem taxa 0,1 por minuto e .
Com sucesso de probabilidade 0,25, a geométrica dá ; para o segundo sucesso ocorrer na terceira tentativa, a binomial negativa dá . Uma uniforme entre 2 e 6 dá , e a escolha de duas aprovadas em três peças de um lote finito é a hipergeométrica do exemplo de contagem.
Avaliar normalidade
Um histograma aproximadamente simétrico e uma caixa sem forte assimetria são indícios, não provas. Num gráfico QQ normal, o eixo horizontal contém quantis normais teóricos e o vertical contém dados ordenados. Uma relação aproximadamente reta apoia a plausibilidade da normalidade. Curvatura sistemática ou pontos extremos afastados da reta levantam dúvidas.
Pequenas amostras podem produzir irregularidades mesmo sendo normais; a figura isola o efeito da forma da distribuição comparando quantis populacionais, sem ruído amostral. Na exponencial, os quantis superiores afastam-se progressivamente da reta, por isso num QQ amostral procuramos esse padrão sem exigir alinhamento perfeito.
Uma transformação logarítmica pode reduzir assimetria à direita em dados positivos, mas a média dos logaritmos não é o logaritmo da média.
Exercícios
Exatamente dois sucessos
Em oito tentativas independentes, cada uma tem probabilidade de sucesso 0,25. Calcula a probabilidade de exatamente dois sucessos.
Pista
Escolhe as duas posições dos sucessos.
Solução
. A combinação conta as possíveis posições, não altera a probabilidade de cada sequência.
Erros frequentes
Não usar a acumulada P(X≤2) como probabilidade de exatamente dois.
Probabilidade e quantil no mesmo modelo
, sendo 25 a variância. Calcula e determina a tal que . Usa e . Arredonda a a duas casas decimais.
Pista
Na primeira pergunta conheces o limite; na segunda conheces a área.
Solução
O desvio é . Para 55, , logo . Na segunda pergunta, conhecemos a área e procuramos o limite: , pelo que . A cauda direita de 10% corresponde à acumulada de 90%.
Confere a tua resposta:
- Usei desvio 5.
- Obtive probabilidade 0,158655.
- Inverti a padronização e obtive 56,41.
Forma e QQ
Num QQ normal com quantis teóricos no eixo horizontal, os dados apresentam curvatura sistemática e uma cauda direita longa no histograma. Explica o que isto sugere e por que não basta verificar se a média é próxima da mediana.
Pista
A forma completa interessa para a plausibilidade do modelo.
Mais uma pista
Uma relação aproximadamente reta seria o padrão esperado para normalidade.
Solução
A combinação de curvatura e cauda direita longa sugere que o modelo normal não representa bem a população. Médias e medianas próximas não garantem caudas normais. Em amostras pequenas também é necessário distinguir irregularidade aleatória de um padrão claro.
Confere a tua resposta:
- Identifica assimetria à direita e dúvidas sobre normalidade.
- Compara a curva com a reta esperada no QQ normal.
- Explica que duas medidas de centro não descrevem as caudas nem provam normalidade.
Erros frequentes
Não declarar normalidade apenas porque não há valores assinalados na caixa.
Contagem e espera
Um processo tem taxa de três ocorrências por minuto segundo um modelo de Poisson. Que modelo descreve o número num minuto e qual descreve a espera até à próxima ocorrência? Dá a média de cada variável e P(espera>1 minuto).
Pista
A taxa tem unidades de ocorrências por minuto.
Mais uma pista
A média da espera é o inverso da taxa.
Solução
A contagem é Poisson(3), média 3. A espera é exponencial de taxa 3 por minuto, média 1/3 minuto, e a cauda em 1 minuto é e^(−3)≈0,049787. A mesma taxa entra em variáveis com unidades diferentes.
Confere a tua resposta:
- Usa Poisson de média 3 para a contagem.
- Usa exponencial de taxa 3 e média 1/3 minuto para a espera.
- Calcula P(espera>1)=exp(−3), aproximadamente 0,0498.
Erros frequentes
Não usar 3 minutos como média da espera nem tratar a espera como contagem.
Trocar sucessos por insucessos na tabela
. Uma tabela só inclui probabilidades de sucesso até 0,5 e dá para . Usa essa célula para calcular e explica a transformação.
Pista
Escreve a desigualdade usando Y=12−X.
Solução
Y conta insucessos: . O acontecimento equivale a . Assim, . Não fazemos , pois o acontecimento transformado já corresponde à cauda acumulada da tabela.
Confere a tua resposta:
- Defini Y=12−X com probabilidade 0,2.
- Transformei X≥9 em Y≤3.
- Li a acumulada 0,794569 sem novo complemento.