Estruturas e formas prenexas
Interpretação de termos e fórmulas, modelos, contraestruturas e transformação prenexa.
A fórmula não diz quais são os objetos nem o que significa . Para a avaliar precisamos de uma estrutura. Se a fórmula tiver variáveis livres, também precisamos de atribuir valores a essas variáveis.
Quantificadores num domínio finito
Toma a linguagem com um único predicado e domínio , onde . Os nomes aqui identificam os objetos do domínio.
| Objeto atribuído a | |
|---|---|
| T | |
| F |
calcula a disjunção dos dois valores, : é uma testemunha. calcula a conjunção, : é um contraexemplo. Esta expansão funciona porque listámos todos os objetos do domínio finito.
Uma estrutura completa
Para uma linguagem , uma estrutura tem um domínio não vazio e uma interpretação de todos os símbolos não lógicos:
- Uma constante recebe um objeto .
- Uma função de aridade recebe uma função total .
- Um predicado de aridade recebe uma relação .
Considere-se , , e . Vamos usar:
Nesta estrutura, significa “é par” e significa “é menor”. Numa estrutura diferente, esses símbolos podem ter outros significados. A igualdade, quando pertence à linguagem, compara os próprios objetos do domínio.
Avaliar termos e fórmulas
Uma interpretação das variáveis é uma função . Para , o termo da linguagem representa , e o termo representa .
A avaliação de um termo composto faz-se de dentro para fora. Por exemplo, representa , pois representa e aplicamos o sucessor duas vezes.
Escrevemos quando é verdadeira na estrutura com essa interpretação. Para uma fórmula atómica:
Com , é verdadeira, porque . é falsa, porque não é par. As conetivas calculam-se pelas mesmas tabelas da lógica proposicional.
Para quantificar, variamos só a variável ligada. coincide com nas outras variáveis e atribui a :
Só os valores das variáveis livres podem alterar a verdade da fórmula. Uma proposição não tem variáveis livres, por isso escrevemos simplesmente .
Testemunhas e contraexemplos numa estrutura
Na estrutura dos naturais acima:
| Fórmula | Resultado e justificação |
|---|---|
| Verdadeira. Para cada , escolhemos . | |
| Falsa. Para qualquer , dá , falso. | |
| Verdadeira. é testemunha. | |
| Verdadeira. para todo o natural. | |
| Falsa. Dois naturais consecutivos não são ambos pares. |
A frase é verdadeira nesta estrutura, mas não é logicamente válida. Numa estrutura com domínio e para binário, é falsa. Ou seja, não transformes a interpretação habitual de um símbolo numa propriedade lógica obrigatória.
Validade, satisfazibilidade e modelos
Uma fórmula é válida se é verdadeira em todas as estruturas da linguagem e todas as interpretações das variáveis. É satisfazível se existe pelo menos uma estrutura e uma interpretação que a tornam verdadeira. É insatisfazível se nenhuma serve.
Uma estrutura que satisfaz uma proposição é um modelo dessa proposição. Para um conjunto de proposições, um modelo tem de satisfazer todas na mesma estrutura.
Para refutar , construímos uma estrutura e, se necessário, uma interpretação que satisfazem todas as premissas e tornam a conclusão falsa. Uma descrição incompleta do domínio ou dos símbolos não fornece uma contraestrutura completa.
Por exemplo, não implica . Escolhemos:
Cada objeto tem ou , por isso a premissa é verdadeira. Nem todos têm e nem todos têm , por isso a conclusão é falsa. Num domínio com um único objeto não conseguiríamos esta separação.
Validade proposicional e validade de primeira ordem
Se tratarmos cada fórmula atómica como uma variável proposicional independente, algumas atribuições deixam de corresponder a estruturas. Por exemplo, , e não podem ter respetivamente os valores : a igualdade dos objetos é transitiva.
Assim, é válida em todas as estruturas com igualdade, mas a sua abstração proposicional não é uma tautologia. A atribuição refuta apenas a abstração; não é uma contraestrutura da fórmula original.
Uma tautologia proposicional continua válida quando substituímos as variáveis por fórmulas de primeira ordem. A recíproca falha, porque igualdade e quantificadores impõem relações que uma tabela de variáveis independentes não representa.
Equivalências com quantificadores
Podemos distribuir um universal sobre conjunção e um existencial sobre disjunção:
Não há equivalência geral para as outras duas combinações. No exemplo com e , também é verdadeira, mas é falsa. As testemunhas das duas existências podem ser diferentes.
Se não ocorre livre em , podemos transportar o quantificador através de ou :
para e . A condição sobre as variáveis impede que o transporte capture um livre em . Estas regras usam o domínio não vazio da LPO.
Ao transportar pela implicação, a posição importa, pois o antecedente fica negado quando substituímos por . Por exemplo, ainda com não livre em :
Forma normal prenexa
Uma fórmula está na forma normal prenexa quando todos os quantificadores aparecem no início, seguidos de uma fórmula sem quantificadores, a matriz. Uma fórmula sem quantificadores já está nesta forma.
O método é:
- Eliminar e outras abreviaturas, ficando com , e .
- Renomear variáveis ligadas para evitar nomes repetidos ou nomes também usados livres.
- Levar negações para dentro, trocando e quando necessário.
- Levar os quantificadores para fora sem capturar variáveis livres.
Vamos transformar:
O está livre e tem de continuar livre. Renomeamos o segundo para e tratamos a negação:
No último passo, não ocorre livre em , e não ocorrem livres em . O foi escolhido novo. Estas verificações justificam o transporte, que se decompõe em três movimentos, cada um com a sua condição:
- atravessa a disjunção, porque não ocorre livre em .
- atravessa a conjunção com e depois a disjunção, porque não ocorre livre em nenhuma das outras partes.
- atravessa a disjunção, porque foi escolhido novo e não ocorre livre na parte esquerda.
A ordem conserva essas dependências. Trocar dois quantificadores do mesmo tipo mantém a equivalência; trocar com já exigiria nova verificação.
Não há uma única forma prenexa para cada fórmula. A ordem final dos quantificadores tem de resultar de equivalências permitidas, não de os ordenar por tipo ou nome.
Exercícios
Uma estrutura com dois objetos
Considera , e . Avalia , e . Justifica.
Pista
A relação liga cada objeto apenas ao outro.
Mais uma pista
Para o candidato , testa ; para , testa .
Solução
Os resultados são verdadeira, falsa e falsa. Na primeira, escolhemos . Na segunda, para qualquer , refuta . Na terceira, só tem , mas , e nenhum objeto tem .
Confere a tua resposta:
- Para o primeiro universal escolhi a testemunha por x.
- Para o segundo existencial mostrei que nenhum y serve para todos.
- Conferi a diagonal da relação na terceira fórmula.
Erros frequentes
Uma testemunha diferente por não satisfaz uma fórmula que exige um único exterior para todos.
Uma forma prenexa
Obtém uma forma prenexa de cada fórmula e indica as variáveis que continuam livres:
- ;
- .
No segundo caso, justifica por que muda o tipo do quantificador do antecedente.
Pista
As duas ocorrências quantificadas de pertencem a âmbitos diferentes.
Mais uma pista
Renomeia para e , depois transporta os dois existenciais através de .
Solução
Para a primeira, uma forma é . Primeiro . O segundo existencial pode chamar-se . Nenhuma das variáveis novas ocorre livre na outra parte, por isso podemos transportar. continua livre.
Na segunda, renomeamos as variáveis ligadas dos dois âmbitos para e , e para :
Eliminar a implicação deixa a negação do antecedente:
A negação troca o universal por um existencial:
Transportamos depois os quantificadores para o início:
Cada transporte é válido porque a variável não ocorre livre na outra parte; o domínio é não vazio. continua livre e continua dentro da escolha de .
Confere a tua resposta:
- Troquei o universal negado por um existencial com negação.
- Usei nomes distintos para os dois quantificadores.
- Mantive z livre na matriz.
- Justifiquei a troca do quantificador negado no antecedente.
Erros frequentes
Usar uma só variável para os dois quantificadores pode juntar testemunhas que eram independentes. Forma prenexa não exige fechar as variáveis livres.
Refutar a distribuição errada
Refuta com uma estrutura finita.
Pista
Usa objetos diferentes para as duas testemunhas.
Mais uma pista
Dois objetos com verdadeiro só no primeiro e só no segundo chegam.
Solução
Escolhe , e . Ambas as existências são verdadeiras, mas , logo a conclusão é falsa.
Confere a tua resposta:
- Declarei o domínio e as duas relações unárias.
- Cada existência tem uma testemunha.
- Nenhum objeto satisfaz ambas as propriedades.
Erros frequentes
Um domínio vazio não é uma estrutura admitida nesta LPO e também não satisfaria as premissas.