Quantificadores e linguagem de primeira ordem
Termos, fórmulas, tradução, variáveis livres e substituição sem captura.
«Todos os estudantes gostam de alguma cadeira» não é só uma combinação de proposições. Fala de objetos, os estudantes e as cadeiras, e de uma relação entre eles. A lógica de primeira ordem, LPO ou FOL, permite escrever essa estrutura e distinguir «uma cadeira por estudante» de «a mesma cadeira para todos».
Termos e afirmações
Em “a soma de e ”, é um termo: nomeia um objeto. Em "", a igualdade transforma o termo numa fórmula. A notação e distingue funções de relações pelo número de argumentos; o valor de é a aridade, definida já a seguir. Lê como “função de um argumento” e como “relação binária”.
Termos e fórmulas
Uma linguagem de primeira ordem tem variáveis, conetivas, quantificadores e, quando indicado, igualdade. Os símbolos não lógicos especificam o que podemos nomear:
- contém constantes, como ou .
- contém símbolos de função com aridade , como de aridade 1 ou de aridade 2.
- contém símbolos de predicado com aridade , como de aridade 1 ou de aridade 2.
A aridade é o número de argumentos. Uma constante pode ver-se como uma função de aridade zero.
Um termo representa um objeto. Uma variável é termo, uma constante é termo e aplicar uma função a termos também produz um termo. Um termo é fechado quando não contém variáveis.
Se , e , então é termo, mas não é fechado. é fechado. tem aridade errada, por isso não é termo desta linguagem.
Uma fórmula atómica aplica um predicado a termos, ou compara dois termos pela igualdade. Com e , temos , e . Os predicados produzem afirmações, não objetos. Por isso, e não são fórmulas bem formadas.
A partir das fórmulas atómicas usamos as conetivas e os quantificadores. Se é fórmula, e também são.
Domínio e tradução
O quantificador universal significa “para todo o objeto do domínio”. O existencial significa “existe pelo menos um objeto do domínio”. O domínio não muda a meio da fórmula.
Se o domínio são pessoas, significa ” é estudante” e significa ” lê”:
| Frase | Fórmula |
|---|---|
| Todos os estudantes leem | |
| Algum estudante lê | |
| Nenhum estudante lê | |
| Nem todos os estudantes leem |
O universal usa uma implicação para restringir a exigência aos estudantes. Uma pessoa que não é estudante não viola a primeira fórmula. O existencial usa uma conjunção para exigir que a testemunha seja estudante e leia. seria verdadeira só por existir uma pessoa que não é estudante.
Quando o domínio já contém apenas estudantes, “todos leem” pode escrever-se . Explicitar o domínio antes de traduzir evita restrições em falta.
Ordem dos quantificadores
Se significa ” é estudante”, significa ” é uma cadeira” e significa ” gosta da cadeira ”, então “todos os estudantes gostam de alguma cadeira” escreve-se, num domínio com pessoas e cadeiras:
O pode depender de . A Ana pode gostar de MD e o Rui de outra cadeira. A existência não exige que só gostem de uma.
Por exemplo, num domínio que contém exatamente Ana, Rui, MD e FP, fixamos e . A tabela dá os únicos pares de :
| Estudante | MD | FP |
|---|---|---|
| Ana | Sim | Não |
| Rui | Não | Sim |
Cada linha tem um «Sim»: cada estudante tem uma cadeira. Nenhuma coluna tem dois «Sim»: não há cadeira comum. A tabela separa as duas condições sem mudar os objetos nem a relação.
Para exigir uma cadeira comum, usamos a fórmula seguinte, falsa nessa tabela:
Em geral, implica , mas a direção inversa falha. Em , é verdadeira, escolhendo . é falsa: para qualquer candidato , o próprio refuta . Por isso, podes trocar universais entre si ou existenciais entre si, mas trocar quantificadores diferentes pode mudar o significado.
Negar frases quantificadas
Negar “todos” produz uma testemunha que falha. Negar “existe” exige que todos falhem:
Por exemplo:
A negação diz que existe um para o qual nenhum serve. Não diz que nenhum tem um .
“Nem todos os estudantes leem” é a negação de . Obtemos porque negar uma implicação exige antecedente verdadeiro e consequente falso.
Existência única e contagens pequenas
“Existe exatamente um com ” escreve-se:
A abreviatura é . A primeira parte prova existência; a segunda, unicidade. Só diz no máximo um e admite que não exista nenhum.
Para “pelo menos dois”, pedimos testemunhas distintas:
Para “exatamente dois”, acrescentamos que qualquer objeto com é um dos dois:
Variáveis livres e ligadas
O âmbito de um quantificador é a fórmula que ele quantifica. Uma ocorrência de está ligada quando está nesse âmbito de ou . As restantes ocorrências são livres.
Em
o primeiro está ligado; o segundo está livre. também está livre. Logo, o conjunto de variáveis livres é . Uma variável pode ter ocorrências livres e ligadas na mesma fórmula.
Uma fórmula sem variáveis livres é uma proposição, ou fórmula fechada. As variáveis ligadas continuam a aparecer, mas os seus valores são escolhidos pelos quantificadores. Não confundas termo fechado, que não contém variáveis, com fórmula fechada, que pode conter variáveis todas ligadas.
Pelas convenções de precedência, significa . Para quantificar as duas partes, escreve .
Substituição sem captura
substitui apenas as ocorrências livres de pelo termo .
Se , então:
O ligado não muda. A substituição não deve ligar uma variável que estava livre no termo inserido. Dizemos que está livre para em quando nenhuma ocorrência livre de está sob um quantificador de uma variável que ocorre em .
Em , o termo não está livre para . A substituição literal daria e capturaria o inserido. Para uma substituição que preserve o significado, renomeamos primeiro a variável ligada:
com novo. Agora substituímos e obtemos . O do termo continua livre.
Quando um exercício pede “para que variáveis o termo é livre”, verifica cada ocorrência livre dessa variável. Se uma única ocorrência provocaria captura, a condição falha. Se a variável não ocorre livre, não há ocorrência a capturar e a condição é satisfeita.
Numa substituição simultânea, os termos inseridos não recebem a outra substituição. Em , o resultado é , não . Duas substituições sucessivas podem dar outro resultado.
Exercícios
Termos, aridades e variáveis livres
A linguagem tem igualdade, , , e . Para cada expressão, decide se é um termo, uma fórmula bem formada ou nenhuma dessas coisas. Nas fórmulas, indica as variáveis livres:
- ;
- ;
- ;
- ;
- .
Pista
Confere cada expressão de dentro para fora: primeiro os termos, depois os predicados e os quantificadores.
Solução
- Fórmula atómica: a igualdade liga dois termos. As variáveis livres são .
- Não é bem formada: e são fórmulas, e a igualdade liga termos.
- Não é bem formada: exige dois argumentos, mas só recebeu .
- Termo não fechado, porque contém . Não é uma afirmação com valor de verdade.
- Fórmula fechada: é termo, é fórmula e o quantificador liga a única variável, .
Confere a tua resposta:
- Distingui termos de fórmulas.
- Identifiquei a aridade errada e a igualdade entre fórmulas.
- Determinei as variáveis livres das fórmulas válidas.
Captura numa substituição
Seja . Determina as variáveis livres. O termo está livre para em ? Renomeia o necessário e faz uma substituição de sem captura.
Pista
O primeiro não está no âmbito de . O está.
Mais uma pista
Renomeia para com novo.
Solução
As variáveis livres são . não está livre para , pois a ocorrência de está sob . Depois de renomear esse quantificador, obtemos . O inserido permanece livre.
Confere a tua resposta:
- Identifiquei y e z como as variáveis livres.
- Detetei que o y inserido seria capturado.
- Renomeei apenas as ocorrências ligadas ao quantificador e mantive y livre.
Erros frequentes
Não renomeies o primeiro : é livre. Trocar todos os símbolos iguais sem olhar para o âmbito altera a fórmula.
Exatamente dois objetos
Traduz “há exatamente dois objetos com a propriedade ”, num domínio não vazio e com igualdade.
Pista
Precisamos de pelo menos dois e no máximo dois.
Mais uma pista
Depois de escolher , limita cada com a ou .
Solução
As testemunhas distintas garantem pelo menos dois. O universal impede um terceiro.
Confere a tua resposta:
- Apresentei duas testemunhas com P.
- Exigi que fossem distintas.
- Exigi que qualquer objeto com P coincidisse com uma das testemunhas.
Erros frequentes
aceita . Mesmo acrescentando distinção, ainda não limita a quantidade a dois.
Testemunhas individuais e cadeira comum
O domínio contém pessoas e cadeiras. significa « é estudante», significa « é cadeira» e significa « gosta de ». Traduz:
- Cada estudante gosta de pelo menos uma cadeira.
- Há uma cadeira de que todos os estudantes gostam.
Constrói uma estrutura com dois estudantes e duas cadeiras em que a primeira frase seja verdadeira e a segunda falsa. Explica por que os quantificadores não podem trocar de ordem.
Pista
Uma tabela com estudantes em linhas e cadeiras em colunas permite procurar uma coluna que sirva para todas as linhas.
Solução
As traduções são e .
Usa domínio , , e . Na primeira fórmula, serve para e para . Para as cadeiras tomadas como , o antecedente é falso. Na segunda, falha para e falha para ; os outros objetos não são cadeiras. Logo não há testemunha comum.
Os existenciais da primeira fórmula podem escolher valores diferentes conforme o estudante. O existencial exterior da segunda faz uma escolha que tem de servir para todos.
Confere a tua resposta:
- Restringi estudantes e cadeiras no domínio misto.
- Declarei os objetos e os únicos pares da relação G.
- Verifiquei uma testemunha por estudante e a ausência de cadeira comum.