Conjuntos e relações
Operações com conjuntos, produto cartesiano, relações binárias e equivalências.
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Os conjuntos são o vocabulário da matemática: tudo o resto (relações, funções, números) se define a partir deles. Nesta cadeira usamos a definição ingénua, “um conjunto é uma coleção de objetos”, que chega para tudo o que precisas. O objetivo prático: descrever conjuntos sem ambiguidade, operar com eles e classificar relações pelas suas propriedades.
Descrever conjuntos
Há duas formas. Em extensão, listamos os elementos: . Em compreensão, damos a propriedade: , “o conjunto dos tais que ”. Por exemplo, é o conjunto dos pares positivos.
Os conjuntos numéricos de referência, com a convenção da cadeira de que não inclui o zero:
- : naturais; : inteiros; : racionais (dízimas finitas ou periódicas); : reais; : complexos.
Pertença escreve-se ; inclusão, (“todo o elemento de está em ”). usa-se para inclusão estrita quando , mas confirma a convenção do enunciado, porque alguns textos usam para a inclusão geral. O conjunto vazio é subconjunto de qualquer conjunto, e há exatamente um vazio.
Operações e as suas leis
União, interseção, diferença, diferença simétrica e complementar:
- .
- .
- .
- , os elementos que estão exatamente num deles.
- , o complementar, é relativo a um universo de discurso fixado: .
Exemplo com e : , , e .
As leis que deves manejar: comutatividade, associatividade e distributividade de e ; De Morgan para conjuntos, e ; e . Para provar igualdades, mostra as duas inclusões, elemento a elemento. É o método padrão e os corretores esperam-no.
O conjunto das partes é o conjunto de todos os subconjuntos de . Se então , porque cada elemento tem duas opções: estar ou não estar no subconjunto. Para : , quatro elementos.
Produto cartesiano
O produto cartesiano é o conjunto de todos os pares ordenados com e . A ordem importa: . Se e , então .
Exemplo: donos e carros . tem quatro pares: , , , . Para registar “de quem é cada carro” precisamos de um subconjunto destes pares, e é exatamente isso que uma relação faz.
Relações binárias
Uma relação binária de para é um subconjunto . Escreve-se para . No exemplo, diz que o Ford é da Ana e o Volvo é do Rui.
Quando , a relação vive num só conjunto e podemos perguntar pelas suas propriedades. Para uma relação em :
- Reflexiva: todo o elemento relaciona-se consigo próprio, . Exemplo: nos reais.
- Simétrica: implica . Exemplo: “é colega de turma de”.
- Antissimétrica: e implicam . Exemplo: (se e , então ).
- Transitiva: e implicam . Exemplo: nos reais.
- Total (ou conexa): para quaisquer , vale ou .
Relações de equivalência e partições
Uma relação reflexiva, simétrica e transitiva chama-se relação de equivalência. Cada equivalência agrupa os elementos em classes de equivalência: , o conjunto de tudo o que se relaciona com . Classes distintas não se intersectam, e a sua união é o conjunto todo: a equivalência induz uma partição.
Exemplo: em , define se é par (têm a mesma paridade). É reflexiva (, par), simétrica (se é par, também é) e transitiva (soma de pares é par). Há duas classes: os pares e os ímpares. . Esta ideia de “agrupar pelo resto” é o protótipo das classes de congruência.
Encadeamentos úteis
Uma relação de para tem inversa , de para . A composta (primeiro , depois ) contém quando existe um intermédio com e . A composição é associativa, e é nela que se baseia a composição de funções.
Exemplo resolvido: classificar uma relação
Seja em definida por se e só se é par. Classifica .
- Reflexiva: é par para todo o . Sim.
- Simétrica: se é par, é o mesmo número, logo par. Sim.
- Transitiva: supõe par e par. Somando, é par, e como é par, é par. Sim.
- Antissimétrica: (soma 4) e , mas . Não.
Logo é uma relação de equivalência (na verdade, a mesma do exemplo da paridade, porque par equivale a par). Repara no padrão da prova de transitividade: somar as hipóteses e isolar o que se quer. E repara que um contraexemplo concreto ( e ) chega para refutar a antissimetria.