Funções e cardinalidade
Totalidade, funcionalidade, injetividade, sobrejetividade, inversas e conjuntos infinitos.
Uma função associa a cada elemento de exatamente um elemento de . A fórmula de cálculo não define tudo: o domínio e o contradomínio podem mudar as propriedades da mesma expressão. Aqui usamos composição e equivalências das lições de relações.
Total e funcional
Uma função é uma relação com duas condições:
- Totalidade: para cada , existe com .
- Funcionalidade: se e , então .
Uma relação só funcional é uma função parcial. Não tem necessariamente um valor para todas as origens. A imagem é ; pode ser menor do que o contradomínio .
Se e , a relação é função. Não atingir não viola totalidade. Já é total e não funcional.
Os conjuntos vazios também têm de ser tratados. Existe uma única função , a relação vazia. Se , não existe função .
Injetiva, sobrejetiva e bijetiva
Uma função é injetiva se valores iguais só vêm de origens iguais:
É sobrejetiva se atinge todo o contradomínio:
É bijetiva se tem ambas as propriedades. Cada destino tem exatamente uma origem.
Para provar injetividade, começa com e tenta obter . Para a refutar, apresenta duas origens distintas com o mesmo valor. Para provar sobrejetividade, toma um arbitrário do contradomínio e encontra uma origem admissível. Para a refutar, apresenta um destino que nunca é atingido.
O domínio muda a resposta
Para , , cada origem tem uma imagem, mas e chegam ambas a . Logo, a função não é injetiva. Também não é sobrejetiva: a equação não tem solução inteira.
Restringir o domínio a elimina a colisão entre e . Se e , então , e ambas as alternativas dão , pois com só acontece em . Porém, continua sem origem natural. A tabela compara estas alterações:
| Função | Injetiva? | Sobrejetiva? |
|---|---|---|
| Não, . | Não, por exemplo não atinge nem 2. | |
| Sim, dois naturais com quadrados iguais são iguais. | Não, 2 não é quadrado de um natural. | |
| Sim. | Sim, a origem de é . |
Resolver em não prova sobrejetividade em , porque a origem tem de pertencer ao domínio indicado.
Para , , a injetividade vem de . A imagem são os inteiros ímpares: todo o resultado é ímpar e, dado um ímpar , a origem serve. Não é sobrejetiva para , mas é bijetiva para esse conjunto de ímpares.
Inversa como relação e como função
A relação existe sempre: troca os pares. Para ser uma função , precisa de totalidade e funcionalidade.
- Se é injetiva, é funcional, mas pode faltar uma origem para algum .
- Se é sobrejetiva, é total, mas pode ter vários destinos para uma mesma origem.
- Se é bijetiva, é uma função total.
Para uma função total :
O par pertence a se . Por isso, a primeira igualdade diz que as únicas origens com imagem igual são as iguais. Já é a identidade sobre a imagem de , que coincide com precisamente no caso sobrejetivo.
Para uma relação geral , a totalidade equivale a e a funcionalidade a . Estas inclusões não pressupõem que já seja função.
Fibras e classes de equivalência
Para uma função total , a relação junta origens com a mesma imagem:
É sempre uma equivalência: dá reflexividade, trocar os lados dá simetria e encadear igualdades dá transitividade. Não exige que seja injetiva nem sobrejetiva.
A classe é a fibra do valor . Não é o próprio valor , nem o conjunto de todas as imagens.
Com , e , :
| Valor em | Origens com essa imagem |
|---|---|
O quociente é e tem dois elementos. A imagem também tem dois, mas contém objetos de outro tipo. A fibra vazia de não é uma classe, porque não contém nenhuma origem.
A função é uma bijeção de para . É bem definida porque representantes da mesma classe têm a mesma imagem; é injetiva pela definição de ; é sobrejetiva porque cada imagem vem de alguma origem. Para finito, isto dá . Já , pois a reflexividade inclui todos os pares .
Composição
Para e , . Aplicamos primeiro .
Com e em , seguimos o mesmo argumento nas duas ordens:
| Ordem | Primeiro valor | Segundo valor |
|---|---|---|
| em 3 | ||
| em 3 |
A composição de funções também não é comutativa. O valor que entra na segunda função é a saída da primeira.
Se ambas são injetivas, a composição é injetiva: implica e depois . Se ambas são sobrejetivas, para cada existe com e depois com .
A recíproca exige cuidado. Se é injetiva, tem de ser injetiva, mas pode falhar injetividade fora da imagem de . Se é sobrejetiva, tem de ser sobrejetiva, mas pode não atingir todo o .
Para bijeções, a inversa inverte a ordem:
Cardinalidade finita e infinita
Dois conjuntos têm a mesma cardinalidade quando existe uma bijeção entre eles. Para conjuntos finitos, uma injeção exige e uma sobrejeção exige . Se ambos são finitos e têm o mesmo tamanho, uma função é injetiva se e só se é sobrejetiva.
Para conjuntos infinitos, um subconjunto próprio pode ter a mesma cardinalidade que o conjunto. é uma bijeção de para os naturais pares. O subconjunto tem menos elementos no sentido de inclusão, mas não no sentido de cardinalidade.
Uma bijeção é:
A sequência de imagens é . A inversa é para e para . As duas fórmulas mostram que cada inteiro tem uma origem e que essa origem é única.
Um conjunto é numerável se é finito ou tem bijeção com . Como aprofundamento, os racionais também são numeráveis: percorremos os pares com por valores crescentes de , e omitimos frações repetidas. Cada etapa é finita e qualquer racional aparece numa delas. Os reais não são numeráveis. Serem ambos infinitos não prova que dois conjuntos tenham a mesma cardinalidade.
Exercícios
Imagem e inversa
Para , , decide injetividade e sobrejetividade. Qual contradomínio torna a função bijetiva e qual a inversa?
Pista
Todo o resultado tem resto 1 módulo 3.
Mais uma pista
Se , então é uma origem inteira. O inteiro 0 não é atingido.
Solução
É injetiva porque implica . Não é sobrejetiva para , pois 0 exigiria . É bijetiva para , com domínio e contradomínio , com inversa , .
Confere a tua resposta:
- Provei a injetividade por igualdade das imagens.
- Refutei sobrejetividade com um inteiro fora da imagem.
- Restringi o contradomínio à imagem e escrevi a inversa.
Erros frequentes
Uma fórmula de inversa não basta: verifica que o argumento está no contradomínio escolhido e que o resultado está no domínio original.
A composição não decide tudo
Constrói e tais que seja bijetiva, mas nem nem sejam bijetivas.
Pista
Um elemento de pode ficar fora da imagem de .
Solução
Toma e . Define e . A composição é a única função , portanto bijetiva. não é sobrejetiva, pois não atinge 1. não é injetiva, pois as duas origens têm a mesma imagem.
Confere a tua resposta:
- Declarei os três conjuntos e todas as imagens.
- A composição é injetiva e sobrejetiva.
- Identifiquei a falha de sobrejetividade de f e de injetividade de g.
Erros frequentes
Uma composição bijetiva obriga a ser injetiva e a ser sobrejetiva. Não obriga às outras duas propriedades.
Classes, imagem e domínio ativo
Sejam , e definida por , e . Para :
- Prova que é equivalência e determina .
- Calcula , , e .
- é uma função ? E é uma função ? Justifica.
Pista
Compõe primeiro f e depois a relação inversa. Duas origens relacionam-se quando chegam ao mesmo valor, não quando têm o mesmo nome.
Solução
Temos se e só se . Reflexividade, simetria e transitividade seguem das mesmas propriedades da igualdade. As classes são as três fibras não vazias:
Cada bloco contribui com todos os pares de , sem pares entre blocos. Logo . A imagem de é , com 3 elementos. Já , com 7 elementos cada, pela reflexividade.
é total mas não funcional: 1 relaciona-se com 1, 4 e 7. também não é uma função total : não tem destino, e tem os três destinos 1, 4 e 7. Assim falham tanto totalidade como funcionalidade da inversa.
Confere a tua resposta:
- Provei as três propriedades por igualdade de imagens.
- Listei as fibras não vazias e contei pares por bloco.
- Distingui a imagem de f, o quociente e a imagem de R.