Provas em lógica de primeira ordem
Igualdade, regras dos quantificadores, testemunhas novas e provas em Fitch.
O ponto de partida é uma igualdade entre dois nomes do mesmo objeto, como , que permite trocar um nome pelo outro dentro de uma frase. As regras das conetivas continuam a valer; acrescentamos regras para igualdade e quantificadores. A dificuldade nova é controlar de que objeto depende cada passo, pois uma propriedade de um objeto especial não se torna uma propriedade de todos.
Igualdade
A introdução da igualdade, , permite escrever para qualquer termo . A eliminação, , permite substituir iguais por iguais numa fórmula, respeitando as condições de substituição.
Para obter a partir de :
1 a = b premissa
2 a = a =I
3 b = a =E, 1, 2
Na linha 3, substituímos a primeira ocorrência de em por . Não precisamos de uma regra de simetria independente. De e também obtemos .
Uma função tem de respeitar a igualdade: de obtemos . Isso não implica que seja injetiva. A direção inversa exige uma hipótese sobre .
Eliminar um universal
De obtemos por , desde que esteja livre para em .
1 ∀x(P(x) → Q(x)) premissa
2 P(f(a)) premissa
3 P(f(a)) → Q(f(a)) ∀E, 1
4 Q(f(a)) →E, 3, 2
Temos de instanciar a fórmula inteira. Da linha 1 não obtemos nem , apenas condicionais para cada objeto.
Introduzir um universal
Para concluir , provamos para uma variável nova e arbitrária . Ela não pode ocorrer nas premissas nem depender de uma hipótese aberta que a trate como objeto especial. Na notação da cadeira, abrimos uma caixa com essa variável nova.
Vamos provar :
1 ∀x(P(x) → Q(x)) premissa
2 ∀xP(x) premissa
3 | u variável nova
4 | P(u) → Q(u) ∀E, 1
5 | P(u) ∀E, 2
6 | Q(u) →E, 4, 5
7 ∀xQ(x) ∀I, 3 a 6
Não assumimos sem razão. A linha 5 vem do universal da linha 2. O argumento funciona para qualquer objeto, por isso podemos generalizar.
De uma premissa não podemos concluir . A constante designa um objeto particular. Uma estrutura com dois objetos e verdadeiro só para refuta essa tentativa.
Introduzir um existencial
De obtemos por , desde que a substituição seja admissível. O termo fornece uma testemunha.
De obtemos . Mas de e não obtemos a mesma conclusão sem saber que . As duas propriedades têm de valer para o mesmo objeto.
Eliminar um existencial
Se sabemos , sabemos que existe uma testemunha, mas não qual é. Abrimos uma caixa com uma variável nova e a hipótese . Dentro dela provamos uma conclusão que não contenha . Fechamos por .
Por exemplo, :
1 ∀x(P(x) → Q(x)) premissa
2 ∃xP(x) premissa
3 | u, P(u) testemunha nova e hipótese
4 | P(u) → Q(u) ∀E, 1
5 | Q(u) →E, 4, 3
6 | ∃xQ(x) ∃I, 5
7 ∃xQ(x) ∃E, 2, 3 a 6
A linha 6 está dentro da caixa. É ela que remove a dependência visível da testemunha antes de fecharmos. Se tentássemos concluir na linha 7, a regra seria inválida, pois só existe no contexto da caixa. Também não podes reutilizar uma variável já presente numa hipótese exterior, porque isso identificaria a testemunha com um objeto que as premissas não identificam.
Existencial dentro de uma implicação
Vamos provar:
A testemunha dá uma implicação para um objeto. A hipótese universal garante o antecedente para esse objeto:
1 ∃x(P(x) → Q(x)) premissa
2 | ∀xP(x) hipótese
3 | | u, P(u) → Q(u) testemunha nova e hipótese
4 | | P(u) ∀E, 2
5 | | Q(u) →E, 3, 4
6 | | ∃xQ(x) ∃I, 5
7 | ∃xQ(x) ∃E, 1, 3 a 6
8 ∀xP(x) → ∃xQ(x) →I, 2 a 7
Fechamos a caixa da testemunha antes da caixa da implicação. O universal da linha 2 não vem da premissa existencial; é a hipótese que introduzimos para provar a conclusão condicional.
Existência de um contraexemplo
Para provar , assumimos para uma redução ao absurdo. Dentro dessa caixa, um objeto arbitrário tem de satisfazer : se não satisfizesse, seria a testemunha que a hipótese proíbe. Isso permite obter e contradizer a premissa.
A prova usa para eliminar dupla negação e RA para fechar a hipótese final. A caixa de é uma segunda hipótese temporária, dentro da caixa do objeto arbitrário:
1 ¬∀xP(x) premissa
2 | ¬∃x¬P(x) hipótese (para RA)
3 | | a variável nova e arbitrária
4 | | | ¬P(a) hipótese
5 | | | ∃x¬P(x) ∃I, 4
6 | | | F FI, 2, 5
7 | | ¬¬P(a) ¬I, 4 a 6
8 | | P(a) ¬E, 7
9 | ∀xP(x) ∀I, 3 a 8
10 | F FI, 1, 9
11 ∃x¬P(x) RA, 2 a 10
Só a linha 2 é hipótese para a conclusão final; nunca assumimos . A variável é nova e não ocorre em , por isso a generalização da linha 9 é legítima. A hipótese vive só dentro da caixa interior e é descarregada na linha 7. A linha 8 usa o passo clássico ; a linha 11 fecha a caixa 2 por RA.
Negar um universal
A negação equivale a , mas numa prova com regras de base temos de justificar a passagem. Eis uma das direções, :
1 ∃x¬P(x) premissa
2 | ∀xP(x) hipótese
3 | | u, ¬P(u) testemunha nova e hipótese
4 | | P(u) ∀E, 2
5 | | F FI, 3, 4
6 | F ∃E, 1, 3 a 5
7 ¬∀xP(x) ¬I, 2 a 6
A contradição não contém , por isso pode sair da caixa existencial. Depois usamos essa contradição para fechar a hipótese universal.
As duas deduções provam as direções da equivalência. Na primeira, o objeto arbitrário permite generalizar; na segunda, a testemunha existencial permite obter uma contradição. Os papéis dos dois objetos são diferentes, apesar de ambos receberem nomes novos.
Rever uma dedução
Confere primeiro a fórmula final e as hipóteses ainda abertas. Depois verifica:
- Cada aplicação de e substitui só ocorrências livres e não captura variáveis.
- Cada usa uma variável arbitrária, não uma testemunha com propriedades especiais.
- Cada cita a existência e uma caixa completa; a testemunha não ocorre na conclusão exterior.
- Cada linha citada está acessível na caixa atual.
A DN clássica de primeira ordem também é correta e completa: se e só se . Uma tabela finita de objetos pode encontrar um contraexemplo, mas não prova por si só uma consequência em todas as estruturas.
Exercícios
Transportar uma testemunha
Prova em Fitch.
Pista
Abre a existência, mas conserva a testemunha dentro da caixa.
Mais uma pista
Da conjunção retira ; instancia o universal em para obter .
Solução
1 ∃x(P(x) ∧ Q(x)) premissa
2 ∀x(Q(x) → R(x)) premissa
3 | u, P(u) ∧ Q(u) testemunha nova e hipótese
4 | P(u) ∧E, 3
5 | Q(u) ∧E, 3
6 | Q(u) → R(u) ∀E, 2
7 | R(u) →E, 6, 5
8 | P(u) ∧ R(u) ∧I, 4, 7
9 | ∃x(P(x) ∧ R(x)) ∃I, 8
10 ∃x(P(x) ∧ R(x)) ∃E, 1, 3 a 9Confere a tua resposta:
- Abri uma caixa com variável nova para a existência.
- Obtive P e R para a mesma testemunha.
- Introduzi o existencial antes de fechar a caixa.
Erros frequentes
Concluir fora da caixa violaria a condição da variável nova.
Generalização indevida
Porque é inválida a passagem que abre uma testemunha com e depois aplica ?
Pista
A testemunha foi escolhida precisamente por ter uma propriedade especial.
Mais uma pista
Usa dois objetos e faz verdadeiro num só.
Solução
depende da hipótese da caixa existencial, por isso não é arbitrário para . Com domínio e , a existência é verdadeira e o universal falso. A consequência pretendida não pode ter uma dedução correta.
Confere a tua resposta:
- Distingo uma testemunha de um objeto arbitrário.
- Identifiquei a hipótese aberta P(u).
- Apresentei uma estrutura com premissa verdadeira e conclusão falsa.
Erros frequentes
Escolher um nome novo é necessário, mas não suficiente para generalizar: também é preciso controlar as hipóteses de que esse nome depende.
Igualdade numa função
Prova com igualdade e quantificadores.
Pista
Não precisas de assumir que é injetiva.
Mais uma pista
Com , parte de e substitui o segundo .
Solução
1 | u variável nova
2 | | v variável nova
3 | | | u = v hipótese
4 | | | f(u) = f(u) =I
5 | | | f(u) = f(v) =E, 3, 4
6 | | u = v → f(u) = f(v) →I, 3 a 5
7 | ∀y(u = y → f(u) = f(y)) ∀I, 2 a 6
8 ∀x∀y(x = y → f(x) = f(y)) ∀I, 1 a 7Confere a tua resposta:
- Usei duas variáveis novas arbitrárias.
- Assumi a igualdade numa caixa para introduzir a implicação.
- Usei =I e =E e fechei na ordem correta.
Erros frequentes
Funções respeitam objetos iguais. A recíproca sobre imagens iguais não é automática.
Testemunha, casos e contradição
Na linguagem com predicados unários , parte destas premissas:
- ;
- ;
- .
Prova em Fitch a conclusão .
Usa regras de base. Mostra onde abres a testemunha, onde analisas a disjunção e onde cada caixa fecha.
Pista
No caso R, junta R(u) à propriedade P(u) da testemunha para contrariar a terceira premissa.
Solução
A terceira premissa impede que a testemunha tenha . Fazemos a análise por casos dentro da caixa dessa testemunha:
1 ∃xP(x) premissa
2 ∀x(P(x) → (Q(x) ∨ R(x))) premissa
3 ¬∃x(P(x) ∧ R(x)) premissa
4 | u, P(u) testemunha nova e hipótese
5 | P(u) → (Q(u) ∨ R(u)) ∀E, 2
6 | Q(u) ∨ R(u) →E, 5, 4
7 | | Q(u) hipótese do primeiro caso
8 | | ∃xQ(x) ∃I, 7
9 | | R(u) hipótese do segundo caso
10 | | P(u) ∧ R(u) ∧I, 4, 9
11 | | ∃x(P(x) ∧ R(x)) ∃I, 10
12 | | F FI, 3, 11
13 | | ∃xQ(x) FE, 12
14 | ∃xQ(x) ∨E, 6, 7 a 8, 9 a 13
15 ∃xQ(x) ∃E, 1, 4 a 14As caixas dos dois casos são irmãs. A linha 14 já não contém , por isso pode sair pela eliminação do existencial.
Confere a tua resposta:
- Usei uma testemunha nova dentro da caixa existencial.
- Obtive a mesma conclusão nos dois casos.
- No caso R produzi a existência proibida e usei a contradição.