Carga e campo elétrico

Estrutura atómica, conservação da carga, lei de Coulomb e força de Lorentz.

TLDR

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Esfrega um balão no cabelo e aproxima-o de pedacinhos de papel: os pedacinhos saltam para o balão sem lhes tocares. O balão ficou com carga elétrica em excesso depois da fricção. A carga mede esse excesso. A força descreve a atração num par de objetos. O campo descreve a força que uma carga de prova sentiria em cada ponto, mesmo antes de lá colocares o papel.

Um corpo está eletricamente neutro quando a sua carga total é nula, ou seja quando a carga positiva dos protões presos no núcleo compensa a carga negativa dos eletrões. Neutro não significa incapaz de sofrer ou exercer forças.

O papel continua neutro enquanto salta para o balão. O campo do balão desloca as cargas de cada molécula com sinal oposto ao do balão para a face mais próxima e afasta as do mesmo sinal: a nuvem eletrónica desloca-se em relação aos núcleos, que no isolador não andam livremente. Cada molécula fica polarizada: as cargas positivas e negativas deixam de ter o mesmo centro. Forma-se um dipolo induzido, distinto de um dipolo permanente.

Como o campo do balão é mais intenso no lado próximo, a atração desse lado vence a repulsão do lado afastado, qualquer que seja o sinal do balão. Num campo uniforme, as duas forças de um dipolo ideal cancelar-se-iam; é a variação espacial do campo que permite esta atração resultante.

Nos esfregamentos do dia a dia movem-se eletrões; os protões ficam presos nos núcleos. Se o corpo ganha eletrões fica negativo, se perde eletrões fica positivo.

Estrutura atómica e carga

O núcleo contém protões e neutrões; os eletrões ocupam estados quânticos à sua volta. O modelo de pequenas órbitas planetárias ajuda a separar núcleo e eletrões, mas não descreve literalmente o movimento destes. O átomo tem dimensão da ordem de 10−10 m10^{-10}\,\mathrm m e o núcleo da ordem de 10−15 m10^{-15}\,\mathrm m.

A deflexão de raios catódicos mostrou que o feixe contém partículas negativas. Medir a sua trajetória em campos conhecidos permite obter a razão carga/massa. A experiência das gotas de óleo mostrou uma unidade comum nas cargas medidas. A dispersão de partículas alfa por uma folha metálica revelou um núcleo pequeno e positivo. Movimento browniano e estequiometria dão outras evidências da estrutura atómica.

A carga elétrica qq é um escalar, medido em coulombs, C=A s\mathrm C=\mathrm{A\,s}. A dimensão é corrente × tempo. A carga elementar é exatamente

e=1,602176634×10−19 C.e=1{,}602176634\times10^{-19}\,\mathrm C.

Um eletrão tem −e-e, um protão +e+e, um neutrão zero e uma partícula alfa +2e+2e. A carga total de um sistema isolado conserva-se. A carga de um corpo isolado é um múltiplo inteiro de ee, embora esse múltiplo possa ser enorme.

Por exemplo, um corpo com −3,20 nC-3{,}20\,\mathrm{nC} tem aproximadamente 3,20×10−9/e=2,00×10103{,}20\times10^{-9}/e=2{,}00\times10^{10} eletrões em excesso. O sinal negativo descreve o excesso, não um número negativo de eletrões.

Lei de Coulomb

Para cargas pontuais paradas no vazio, o módulo da força é

F=k∣q1q2∣r2,k=14πε0≃8,99×109 N m2/C2.F=k\frac{|q_1q_2|}{r^2},\qquad k=\frac1{4\pi\varepsilon_0}\simeq8{,}99\times10^9\,\mathrm{N\,m^2/C^2}.

A força atua na reta entre as cargas. Cargas do mesmo sinal repelem-se; sinais opostos atraem-se. As duas forças têm módulos iguais e sentidos opostos, mesmo quando ∣q1∣≠∣q2∣|q_1|\ne|q_2|. Duplicar a distância divide ambas por quatro, porque a dependência é 1/r21/r^2.

Para corpos extensos, soma as contribuições de pequenos elementos dqdq. Não uses a distância entre centros sem justificar uma aproximação de carga pontual ou uma simetria esférica adequada.

Sobreposição

O campo elétrico E⃗\vec E é a força elétrica por unidade de carga de prova, com q≠0q\ne0. A sua unidade é N/C=V/m\mathrm{N/C}=\mathrm{V/m}. Uma carga positiva sente força no sentido do campo; uma negativa sente força no sentido oposto. Esta definição usa apenas a parcela elétrica; a força magnética trata-se à parte em Lorentz.

Para uma carga qiq_i na posição r⃗i\vec r_i, o campo num ponto r⃗\vec r diferente dessa posição é

E⃗i(r⃗)=kqir⃗−r⃗i∣r⃗−r⃗i∣3,E⃗=∑iE⃗i.\vec E_i(\vec r)=kq_i\frac{\vec r-\vec r_i}{|\vec r-\vec r_i|^3},\qquad \vec E=\sum_i\vec E_i.

O sinal de qiq_i já inverte o sentido, por isso não o invertas uma segunda vez ao usar a fórmula vetorial; o campo soma componentes, não módulos.

Exemplo: um dipolo

Colocamos +4,0 nC+4{,}0\,\mathrm{nC} em (−3,0) cm(-3,0)\,\mathrm{cm} e −4,0 nC-4{,}0\,\mathrm{nC} em (3,0) cm(3,0)\,\mathrm{cm}. Queremos o campo em P=(0,4) cmP=(0,4)\,\mathrm{cm}.

Soma dos campos de um dipoloCarga positiva à esquerda e negativa à direita. Em P, acima do ponto médio, os campos têm componentes verticais opostas e horizontais para a direita.+−+4 nC−4 nCP3 cm3 cm4 cmE₊E₋E
Em P, as componentes verticais anulam-se. A soma aponta para a direita.

Cada distância vale 5 cm=0,05 m5\,\mathrm{cm}=0{,}05\,\mathrm m. Os módulos são E0=k(4×10−9)/0,052=1,44×104 N/CE_0=k(4\times10^{-9})/0{,}05^2=1{,}44\times10^4\,\mathrm{N/C}. Os sentidos são (3,4)/5(3,4)/5 e (3,−4)/5(3,-4)/5, respetivamente. Por isso,

E⃗=E0(65,0)≃(1,73×104,0) N/C.\vec E=E_0\left(\frac65,0\right) \simeq(1{,}73\times10^4,0)\,\mathrm{N/C}.

As componentes verticais cancelam-se e as horizontais somam-se, como esperado de duas cargas opostas. Para separação vetorial d⃗\vec d da carga negativa para a positiva, define-se o momento dipolar p⃗=qd⃗\vec p=q\vec d, em C m\mathrm{C\,m}. Num campo uniforme, a força total é zero, mas o torque é τ⃗=p⃗×E⃗\vec\tau=\vec p\times\vec E. Num campo não uniforme pode haver também força resultante.

Força de Lorentz

Uma carga em movimento sente

F⃗=q(E⃗+v⃗×B⃗).\vec F=q(\vec E+\vec v\times\vec B).

B⃗\vec B é o campo de indução magnética, em teslas, T=N/(A m)\mathrm T=\mathrm{N/(A\,m)}. O produto vetorial é perpendicular a v⃗\vec v e B⃗\vec B; usa a mão direita e aplica depois o sinal da carga. Nas bases cartesianas, e^x×e^y=e^z\hat e_x\times\hat e_y=\hat e_z, e^y×e^z=e^x\hat e_y\times\hat e_z=\hat e_x e e^z×e^x=e^y\hat e_z\times\hat e_x=\hat e_y; inverter a ordem troca o sinal e versores paralelos dão zero. A componente magnética não realiza trabalho, porque (v⃗×B⃗)⋅v⃗=0(\vec v\times\vec B)\cdot\vec v=0, mas a componente elétrica pode alterar a rapidez.

Por exemplo, v⃗=2×105e^x m/s\vec v=2\times10^5\hat e_x\,\mathrm{m/s} e B⃗=0,01e^z T\vec B=0{,}01\hat e_z\,\mathrm T dão v⃗×B⃗=−2000e^y V/m\vec v\times\vec B=-2000\hat e_y\,\mathrm{V/m}. Num eletrão, a força magnética aponta para +y+y e tem módulo 3,20×10−16 N3{,}20\times10^{-16}\,\mathrm N.

Trajetórias e referenciais

Num campo elétrico uniforme e sem campo magnético, a aceleração é a⃗=qE⃗/m\vec a=q\vec E/m. Se a velocidade inicial é perpendicular ao campo, a trajetória é parabólica. Com x=v0tx=v_0t e y=qEt2/(2m)y=qEt^2/(2m), eliminamos o tempo e obtemos y=qEx2/(2mv02)y=qEx^2/(2mv_0^2).

Num campo magnético uniforme, sem campo elétrico, a componente perpendicular da velocidade descreve uma circunferência:

r=mv⊥∣q∣B,ωc=∣q∣Bm.r=\frac{mv_\perp}{|q|B},\qquad \omega_c=\frac{|q|B}{m}.

Uma componente paralela acrescenta movimento uniforme e forma uma hélice; estas expressões usam mecânica não relativista. Num seletor com campos perpendiculares, a passagem sem desvio exige E⃗+v⃗×B⃗=0\vec E+\vec v\times\vec B=0; na geometria adequada, v=E/Bv=E/B.

Ver campos noutro referencial

O campo elétrico e o magnético dependem do referencial. Os valores numéricos deste exemplo são adaptados do mini-teste A de 2025/26 para treinar o mesmo cancelamento. Para um referencial que se move com velocidade u⃗\vec u e u≪cu\ll c, a primeira aproximação é E⃗′≃E⃗+u⃗×B⃗\vec E'\simeq\vec E+\vec u\times\vec B. A transformação de B⃗\vec B contém −u⃗×E⃗/c2-\vec u\times\vec E/c^2; só podemos desprezá-lo quando esse termo é pequeno no problema.

A carga momentaneamente em repouso pode sentir força elétrica no novo referencial. Não desaparece a interação por desaparecer v⃗′×B⃗′\vec v'\times\vec B'.

Por exemplo, E⃗=100e^x V/m\vec E=100\hat e_x\,\mathrm{V/m}, B⃗=10−5e^y T\vec B=10^{-5}\hat e_y\,\mathrm T e u⃗=107e^z m/s\vec u=10^7\hat e_z\,\mathrm{m/s} dão u⃗×B⃗=−100e^x V/m\vec u\times\vec B=-100\hat e_x\,\mathrm{V/m}. O campo elétrico no referencial que acompanha a partícula é zero nesta aproximação. No laboratório, a força também é zero se a velocidade da partícula for u⃗\vec u, porque as parcelas elétrica e magnética se cancelam.

Exercícios

Duas cargas a dez centímetros

Duas cargas pontuais de +2 nC+2\,\mathrm{nC} e −3 nC-3\,\mathrm{nC} estão separadas por 10 cm10\,\mathrm{cm} no vazio. Usa k=8,99×109k=8{,}99\times10^9 em SI. Calcula o módulo da força em μN\mathrm{\mu N} e identifica se há atração ou repulsão.

Pista

Converte a distância para metros e as cargas para coulombs.

Solução

F=8,99×109(6×10−18)/0,01=5,394×10−6 N=5,394 μNF=8{,}99\times10^9(6\times10^{-18})/0{,}01=5{,}394\times10^{-6}\,\mathrm N=5{,}394\,\mathrm{\mu N}. Os sinais opostos dão atração. Ambas as cargas sentem forças de mesmo módulo.

Erros frequentes

Não uses centímetros dentro da constante em SI. O sinal do produto não é um módulo de força negativo.

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O sentido da força num eletrão

Um eletrão entra com v⃗=ve^x\vec v=v\hat e_x numa região com E⃗=0\vec E=0 e campo uniforme e constante B⃗=Be^z\vec B=B\hat e_z, com v,B>0v,B>0 e sem outras forças. Indica o sentido da força, a forma da trajetória e se a rapidez aumenta.

Pista

Começa por e^x×e^z\hat e_x\times\hat e_z.

Solução

A força inicial aponta para +y+y. A trajetória é circular no plano perpendicular a B⃗\vec B, enquanto permanecer num campo uniforme. A força é perpendicular à velocidade e não realiza trabalho, pelo que a rapidez é constante no modelo sem outras forças.

Confere a tua resposta:

  • Calcula o produto vetorial para −y.
  • Inverte o sentido ao multiplicar pela carga negativa.
  • Identifica uma trajetória circular e explica por que a rapidez é constante.

Erros frequentes

Não apliques a mão direita diretamente ao eletrão sem considerar o sinal da carga. A direção da força muda ao longo da trajetória.

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Polarização em campo uniforme e não uniforme

Uma régua carregada atrai papel neutro sem contacto. Modela uma molécula polarizada por duas cargas +q+q e −q-q separadas, com a carga de sinal oposto à régua do lado mais próximo.

  1. A polarização muda a carga total da molécula?
  2. Haveria força resultante num campo elétrico uniforme?
  3. Por que pode existir atração no campo da régua?

Pista

Compara os campos nos dois pontos ocupados pelas cargas antes de somar forças.

Solução

A carga total continua +q−q=0+q-q=0: polarizar separa as cargas sem criar carga líquida.

Num campo uniforme, as forças são +qE⃗+q\vec E e −qE⃗-q\vec E. Cancelam-se, embora possa existir torque se o dipolo não estiver alinhado.

No campo não uniforme da régua, o lado próximo sente campo mais intenso. A atração aí tem módulo maior que a repulsão do lado afastado. A resultante aponta para a régua. Neutralidade, por si só, não decide a força.

Confere a tua resposta:

  • Distingue carga total nula de separação interna de cargas.
  • Explica o cancelamento da força num campo uniforme.
  • Relaciona a atração com o campo mais intenso na face próxima.
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