Equações de Maxwell
Fluxo, circulação, conservação da carga e campos com simetria plana, cilíndrica e esférica.
Uma placa muito larga tem carga distribuída por todo o volume. Somar as contribuições de cada elemento, como fizemos com o dipolo, exigiria um integral vetorial. A lei de Gauss permite calcular o campo pela carga incluída numa superfície fechada.
Para usar esse atalho, precisamos de simetria: ela determina a direção do campo e onde o seu módulo é constante. Vamos aplicá-lo a uma placa e distinguir essa lei das outras três equações de Maxwell.
Carga e corrente distribuídas
A densidade volúmica mede carga por volume, em . Assim, . Reservamos para carga superficial, em , e para carga por comprimento, em . Não confundas estas densidades com a condutividade elétrica .
A densidade de corrente é , em , onde cada população tem densidade de carga com sinal e velocidade própria. A corrente por uma secção orientada é . Um plasma neutro pode transportar corrente: cargas negativas e positivas movidas em sentidos opostos contribuem para a mesma corrente convencional.
Fluxo e circulação
O fluxo de um campo por uma superfície é . Numa superfície fechada, a normal aponta para fora. Para um campo uniforme numa superfície plana, , com entre o campo e a normal. A unidade é .
A circulação é , uma soma das componentes tangenciais ao longo de uma curva fechada. Tem unidade volt. Normal e sentido do contorno relacionam-se pela mão direita.
O teorema da divergência transforma fluxo fechado em integral de sobre o volume. Stokes transforma circulação em integral de sobre a superfície. O operador reúne derivadas espaciais. Por exemplo, deriva a componente em relação a , mantendo fixos. Em coordenadas cartesianas,
O rotacional é um vetor. A sua componente segundo é ; as restantes seguem a ordem cíclica . Divergência mede fonte local de fluxo; rotacional mede circulação local por área. Um campo pode ser não nulo e ter ambos nulos numa região.
Se a distinção entre divergência e rotacional ainda confunde, vê este vídeo para visualizar os dois operadores: observa como relaciona o fluxo com as fontes e a circulação com o contorno.
As quatro leis lado a lado
No vazio, com densidades de carga e corrente indicadas explicitamente:
Usamos e . São valores aproximados, não constantes numéricas exatas no SI atual. No vazio, e . Em materiais, as relações constitutivas podem ser diferentes e não lineares.
Para superfícies e contornos fixos, as formas integrais são
Gauss relaciona carga interior e fluxo elétrico; Gauss magnético exclui fontes isoladas de fluxo magnético; Faraday liga a variação de à circulação de ; Ampère-Maxwell liga corrente e variação de à circulação de .
Fluxo magnético total zero não obriga o campo a ser zero, nem obriga todas as linhas a formarem curvas fechadas finitas.
Chama-se corrente de deslocamento ao termo , com unidade ampere. Não exige que portadores atravessem a superfície.
Fixa primeiro o contorno circular à volta do fio que alimenta um condensador de placas paralelas no vazio, desprezando bordos. Com uma superfície que corta o fio, a circulação vem da corrente de condução . Com uma superfície que passa entre as placas, a mesma circulação vem de , porque . As duas superfícies partilham o contorno e têm de dar a mesma circulação. É essa exigência que torna o termo necessário.
Lei de Gauss
- Simetria esférica: ; a esfera de Gauss dá .
- Fio infinito uniforme: superfície cilíndrica de raio e comprimento ; só a lateral contribui, dando .
- Plano infinito uniforme: uma caixa fina atravessa o plano; as duas tampas dão .
O fio tem . O plano tem módulo , constante de cada lado. Estas são aproximações longe dos extremos do fio ou dos bordos do plano.
Exemplo: placa com espessura
Uma placa infinita ocupa e tem constante. A simetria dá e . Uma caixa com tampas em , para , contém .
Na figura, e na tampa direita. Na tampa esquerda, tanto o campo como a normal mudam de sentido, por isso o fluxo também é . O fator no fluxo vem das duas tampas; na carga, vem da espessura . As laterais não contribuem porque o campo é tangente. Assim, :
Com e , em temos ; fora da placa, o módulo é . O campo é contínuo na fronteira porque não acrescentámos uma folha de carga superficial.
Uma esfera isolante uniformemente carregada tem no interior, logo . Uma esfera condutora em equilíbrio tem no material. A mesma forma exterior não significa a mesma distribuição interior.
Conservação da carga
A equação de continuidade é
Se sai mais corrente do que entra numa pequena região, a carga aí diminui. Obtém-se tomando a divergência de Ampère-Maxwell: a divergência de um rotacional é zero e Gauss dá . O termo de deslocamento é necessário para esta compatibilidade.
Por exemplo, dá . Corrente espacialmente constante dá divergência zero, não acumulação local.
Campos estacionários e campos possíveis
Quando todas as derivadas temporais são zero, e . Um campo irrotacional admite potencial local; num domínio simplesmente conexo e regular, a circulação fechada é zero. A topologia importa se a região excluir fontes ou singularidades.
Para e estacionários, Gauss exige e Ampère exige .
Para , a divergência é , incompatível com Gauss magnético se . Verificar só uma das quatro equações não prova que um campo é possível.
Um campo elétrico independente do espaço mas variável no tempo, com e , viola Ampère-Maxwell. Para campos variáveis, verifica os dois campos e as fontes em conjunto.
Potenciais auxiliares
Ver potenciais e decomposição de Helmholtz
Um campo magnético regular sem divergência pode representar-se localmente como , onde é o potencial vetorial, em . Faraday permite escrever
O termo gradiente descreve a parte irrotacional e o termo temporal permite a circulação do campo induzido. Para campos estacionários podemos escolher potenciais independentes do tempo e usar ; a estacionariedade dos campos não obriga os potenciais a serem estacionários em qualquer gauge. Os potenciais não são únicos: diferentes escolhas relacionadas por uma transformação de gauge podem representar os mesmos campos.
A decomposição de Helmholtz separa, sob condições adequadas de regularidade e de fronteira, um campo vetorial numa parte irrotacional e numa parte solenoidal. Irrotacional significa rotacional zero; solenoidal significa divergência zero. Esta separação não permite ignorar condições de fronteira nem afirmar que qualquer função singular admite as mesmas fórmulas sem tratamento adicional.
Exercícios
Campo dentro e fora de uma placa
Uma placa infinita ocupa e tem densidade uniforme . Usa .
Escolhe uma superfície de Gauss e calcula o vetor campo em e em . Explica o que muda na carga incluída entre os dois casos.
Pista
Desenha as duas caixas e marca onde existe carga.
Solução
A invariância por translações paralelas à placa e as simetrias de reflexão dão campo normal dependente só de . Uma caixa de área com tampas em tem fluxo ; nas laterais, o campo é tangente.
Em , a caixa inclui . Gauss dá , para .
Em , já inclui toda a espessura carregada . Assim, , também para . Aumentar a altura da caixa não acrescenta carga nem área das tampas: o módulo fica constante no modelo infinito.
Confere a tua resposta:
- Justifica o campo normal e as duas tampas da caixa.
- Obtém 3,39 V/m em 1 cm e 6,78 V/m em 5 cm.
- Explica por que o campo exterior deixa de crescer.
Um campo estacionário proposto
Alguém propõe , , ambos estacionários, numa região regular, com . Pode esta configuração satisfazer Maxwell? Justifica.
Pista
Verifica Faraday, não apenas a divergência de .
Solução
, mas . São incompatíveis para . Ter divergência elétrica zero não resolve a violação da lei de Faraday.
Confere a tua resposta:
- Obtém rotacional a na direção z.
- Compara com a derivada temporal de B, que é zero.
- Conclui que o campo proposto falha Faraday para a não nulo.
Erros frequentes
Não concluas que um campo é possível por satisfazer uma só das equações.
A mesma carga, dois interiores
Duas esferas de raio têm a mesma carga total . Uma é isolante, com carga uniforme no volume; a outra é condutora em equilíbrio eletrostático. Compara o módulo do campo em e em .
Pista
Escolhe esferas de Gauss e conta apenas a carga interior a cada superfície.
Solução
No isolante, . No condutor, o campo interior é zero. Em , cada esfera inclui a carga total e ambas dão . Os campos exteriores iguais não determinam o comportamento interior.
Confere a tua resposta:
- Usa Qint = Q(r/R)³ na esfera isolante.
- Obtém E(R/2) = kQ/(2R²) no isolante e zero no condutor.
- Distingue a distribuição da carga da carga total.
Erros frequentes
Usar toda a carga numa superfície interior ignora a distribuição. A esfera isolante não tem campo interior nulo por ser esférica.
Corrente onde não passam portadores
Um condensador de placas paralelas no vazio está a carregar com corrente . Usa a aproximação quase-estática, desprezando atrasos de propagação e efeitos de bordo. Um contorno de Ampère pode delimitar uma superfície que corta o fio ou outra que passa entre as placas. Como dá Ampère-Maxwell a mesma circulação de nas duas superfícies?
Pista
Entre as placas não há corrente de condução, mas o campo elétrico varia.
Solução
Entre as placas, com bordos desprezados, . O termo de deslocamento é . Nessa superfície, Ampère-Maxwell dá através do campo variável. Na superfície que corta o fio, a corrente de condução dá o mesmo resultado. As normais e os sentidos têm de ser coerentes.
Confere a tua resposta:
- Calcula o fluxo elétrico entre as placas como Q/ε0.
- Obtém ε0 dΦE/dt = dQ/dt = I.
- Distingue corrente de condução e termo de deslocamento.
Erros frequentes
Não concluas que a corrente de condução atravessa o vazio. É a soma dos termos de condução e deslocamento que torna a circulação independente da superfície escolhida.
