Conteúdos da cadeira

Curvas paramétricas e funções vetoriais

Parametrização de curvas, vetor tangente e normal, comprimento de arco e curvatura.

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Em AM1, uma função recebe um número e devolve um número. Aqui, uma função vetorial recebe um parâmetro tt e devolve um vetor, que interpretamos como a posição de um ponto que se move. O rasto desse ponto é uma curva paramétrica, e quase tudo neste capítulo (integrais de linha, superfícies, teoremas) começa por saber descrever curvas desta forma.

Parametrizar uma curva

Uma curva em R2\mathbb{R}^2 ou R3\mathbb{R}^3 descreve-se por

r(t)=x(t),y(t),z(t),t[a,b],\vec{r}(t) = \langle x(t), y(t), z(t) \rangle, \quad t \in [a, b],

onde cada coordenada é uma função do parâmetro. O parâmetro representa muitas vezes o tempo, e r(t)\vec{r}(t) a posição da partícula nesse instante.

Para obter uma parametrização do segmento de reta de PP a QQ, anda-se em linha reta a velocidade constante:

r(t)=P+t(QP),t[0,1].\vec{r}(t) = P + t(Q - P), \quad t \in [0, 1].

Por exemplo, de P=(1,0,2)P = (1, 0, 2) a Q=(3,2,0)Q = (3, 2, 0) obtemos r(t)=1+2t,2t,22t\vec{r}(t) = \langle 1 + 2t, 2t, 2 - 2t \rangle. Em t=0t = 0 estamos em PP e em t=1t = 1 chegamos a QQ. A mesma curva admite muitas parametrizações (basta percorrê-la a outra velocidade), por isso o parâmetro faz parte da descrição.

Velocidade e vetor tangente unitário

Derivar coordenada a coordenada dá o vetor velocidade r(t)\vec{r}'(t), que aponta na direção do movimento. A sua norma r(t)\lVert \vec{r}'(t) \rVert é a velocidade escalar. Normalizar a velocidade dá o versor tangente (vetor tangente unitário)

T(t)=r(t)r(t),r(t)0.\vec{T}(t) = \frac{\vec{r}'(t)}{\lVert \vec{r}'(t) \rVert}, \quad \vec{r}'(t) \neq \vec{0}.

Para a hélice r(t)=cost,sint,t\vec{r}(t) = \langle \cos t, \sin t, t \rangle, temos r(t)=sint,cost,1\vec{r}'(t) = \langle -\sin t, \cos t, 1 \rangle e r(t)=sin2t+cos2t+1=2\lVert \vec{r}'(t) \rVert = \sqrt{\sin^2 t + \cos^2 t + 1} = \sqrt{2}. A velocidade escalar é constante (2\sqrt{2}) e

T(t)=12sint,cost,1.\vec{T}(t) = \frac{1}{\sqrt{2}}\langle -\sin t, \cos t, 1 \rangle.

Em t=0t = 0, a partícula está em (1,0,0)(1, 0, 0) e move-se na direção 0,1,1\langle 0, 1, 1 \rangle normalizada. A reta tangente nesse ponto é (1,0,0)+s0,1,1(1, 0, 0) + s\langle 0, 1, 1 \rangle, e o plano normal (perpendicular à curva) é 0(x1)+1(y0)+1(z0)=00(x - 1) + 1(y - 0) + 1(z - 0) = 0, ou seja, y+z=0y + z = 0.

Normal principal e binormal

O versor tangente só muda de direção quando a curva faz uma curva, por isso a sua derivada aponta para o lado côncavo. O versor normal principal é

N(t)=T(t)T(t),\vec{N}(t) = \frac{\vec{T}'(t)}{\lVert \vec{T}'(t) \rVert},

perpendicular a T(t)\vec{T}(t). O versor binormal B(t)=T(t)×N(t)\vec{B}(t) = \vec{T}(t) \times \vec{N}(t) completa o triedro: três vetores unitários perpendiculares entre si que viajam com a partícula.

Na hélice, T(t)=12cost,sint,0\vec{T}'(t) = \frac{1}{\sqrt{2}}\langle -\cos t, -\sin t, 0 \rangle, com norma 1/21/\sqrt{2}, logo N(t)=cost,sint,0\vec{N}(t) = \langle -\cos t, -\sin t, 0 \rangle. Repara que aponta para o eixo zz, isto é, para o centro da circunferência projetada: é mesmo para dentro da curva.

Comprimento de arco

Somar os pedacinhos r(t)dt\lVert \vec{r}'(t) \rVert \, dt dá o comprimento de arco

L=abr(t)dt.L = \int_a^b \lVert \vec{r}'(t) \rVert \, dt.

Na hélice entre t=0t = 0 e t=2πt = 2\pi, a velocidade escalar é constante 2\sqrt{2}, por isso L=22π=22πL = \sqrt{2} \cdot 2\pi = 2\sqrt{2}\,\pi. Uma volta completa de hélice é mais comprida do que a circunferência unitária (2π2\pi), como esperado, porque entretanto subiu 2π2\pi em zz.

Curvatura

A curvatura κ(t)\kappa(t) mede quanto a curva se desvia de uma reta em cada ponto. Define-se por

κ(t)=T(t)r(t).\kappa(t) = \frac{\lVert \vec{T}'(t) \rVert}{\lVert \vec{r}'(t) \rVert}.

O numerador mede quanto o tangente roda por unidade de parâmetro; dividir pela velocidade converte para rotação por unidade de comprimento percorrido.

Na hélice, T(t)=1/2\lVert \vec{T}'(t) \rVert = 1/\sqrt{2} e r(t)=2\lVert \vec{r}'(t) \rVert = \sqrt{2}, logo κ=1/22=12\kappa = \frac{1/\sqrt{2}}{\sqrt{2}} = \frac{1}{2} em todos os pontos. O raio de curvatura é o inverso, ρ=1/κ=2\rho = 1/\kappa = 2. Uma reta tem curvatura zero; uma circunferência de raio aa tem curvatura constante 1/a1/a. A hélice, que combina rotação de raio 11 com subida, curva menos do que a circunferência unitária, por isso κ=1/2\kappa = 1/2 faz sentido.

Ver a conta da circunferência

Para r(t)=acost,asint\vec{r}(t) = \langle a\cos t, a\sin t \rangle: r(t)=asint,acost\vec{r}'(t) = \langle -a\sin t, a\cos t \rangle, r=a\lVert \vec{r}' \rVert = a, T(t)=sint,cost\vec{T}(t) = \langle -\sin t, \cos t \rangle, T(t)=cost,sint\vec{T}'(t) = \langle -\cos t, -\sin t \rangle com norma 11. Logo κ=1/a\kappa = 1/a e ρ=a\rho = a: o raio de curvatura é o próprio raio.

Falhas frequentes

Confundir r(t)=0\vec{r}'(t) = \vec{0} com paragem inocente é o erro mais comum: se a velocidade se anula, T(t)\vec{T}(t) não está definido e a curva pode ter um bico (como r(t)=t2,t3\vec{r}(t) = \langle t^2, t^3 \rangle em t=0t = 0). Outro erro é normalizar antes de derivar ao calcular N\vec{N}: a definição usa T\vec{T}', não r\vec{r}'' diretamente. Por fim, a curvatura nunca é negativa; o sinal da “viragem” vive no vetor N\vec{N}, não em κ\kappa.

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