Conteúdos da cadeira

Cinemática do ponto material

Vetores posição, velocidade e aceleração, separação de variáveis e movimento curvilíneo com aceleração centrípeta.

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A cinemática descreve o movimento sem perguntar que forças o causam. Essa pergunta fica para as leis de Newton. Aqui a tarefa é mais simples: dada a posição em função do tempo, extrair velocidade e aceleração, e dado um modelo de aceleração, reconstruir o movimento.

Posição, velocidade e aceleração

A posição de um ponto material no instante tt é o vetor r(t)\vec{r}(t), medido desde uma origem fixa, em metros. A velocidade é a taxa de variação da posição e a aceleração é a taxa de variação da velocidade:

v(t)=drdt,a(t)=dvdt=d2rdt2.\vec{v}(t) = \frac{d\vec{r}}{dt}, \qquad \vec{a}(t) = \frac{d\vec{v}}{dt} = \frac{d^2\vec{r}}{dt^2}.

Derivar cada componente dá as componentes da velocidade, e derivar outra vez dá as da aceleração. Se precisares de treinar a técnica, revê as regras de derivação. O caminho inverso, de a(t)\vec{a}(t) até v(t)\vec{v}(t) e r(t)\vec{r}(t), é integrar e fixar as constantes com as condições iniciais, como nas primitivas.

Exemplo direto: r(t)=(3t, 2t2)\vec{r}(t) = (3t,\ 2t^2) em metros, com tt em segundos. Então v(t)=(3, 4t) m/s\vec{v}(t) = (3,\ 4t)\ \text{m/s} e a(t)=(0, 4) m/s2\vec{a}(t) = (0,\ 4)\ \text{m/s}^2. No instante t=2 st = 2\ \text{s}, a velocidade é (3, 8) m/s(3,\ 8)\ \text{m/s}, com módulo 9+64=738,5 m/s\sqrt{9 + 64} = \sqrt{73} \approx 8{,}5\ \text{m/s}.

Separação de variáveis num caso com atrito

Muitas vezes a aceleração depende da própria velocidade, e a equação passa a ser uma equação diferencial. Se ela for separável, resolve-se como nas equações diferenciais de primeira ordem.

Considera um bloco de massa m=2,0 kgm = 2{,}0\ \text{kg} lançado com velocidade inicial v0=10 m/sv_0 = 10\ \text{m/s} sobre uma superfície onde a força de atrito é proporcional à velocidade, F=bvF = -bv com b=0,50 N⋅s/mb = 0{,}50\ \text{N·s/m}. Pela segunda lei de Newton, mdv/dt=bvm\,dv/dt = -bv. Os dados são mm, bb e v0v_0, e queremos v(t)v(t) e a distância percorrida.

Separando as variáveis:

dvv=bmdt,lnv=bmt+C.\frac{dv}{v} = -\frac{b}{m}\,dt, \qquad \ln v = -\frac{b}{m}t + C.

Com v(0)=v0v(0) = v_0, obtemos C=lnv0C = \ln v_0 e portanto

v(t)=v0e(b/m)t.v(t) = v_0 e^{-(b/m)t}.

O quociente b/mb/m vale 0,50/2,0=0,25 s10{,}50/2{,}0 = 0{,}25\ \text{s}^{-1}, por isso v(t)=10e0,25t m/sv(t) = 10\,e^{-0{,}25t}\ \text{m/s}. No instante t=4,0 st = 4{,}0\ \text{s}, o expoente é 1,0-1{,}0 e v=10e110×0,36793,7 m/sv = 10\,e^{-1} \approx 10 \times 0{,}3679 \approx 3{,}7\ \text{m/s}.

A posição obtém-se integrando a velocidade desde t=0t = 0:

x(t)=0tv0e(b/m)sds=mv0b(1e(b/m)t).x(t) = \int_0^t v_0 e^{-(b/m)s}\,ds = \frac{mv_0}{b}\left(1 - e^{-(b/m)t}\right).

Aqui mv0/b=2,0×10/0,50=40 mmv_0/b = 2{,}0 \times 10 / 0{,}50 = 40\ \text{m}. Em t=4,0 st = 4{,}0\ \text{s}, x=40×(1e1)40×0,632125,3 mx = 40 \times (1 - e^{-1}) \approx 40 \times 0{,}6321 \approx 25{,}3\ \text{m}. Repara que, mesmo com tempo infinito, o bloco percorre apenas 40 m40\ \text{m}: a exponencial nunca chega a zero, mas a distância total converge. É o comportamento típico do atrito viscoso, e vale a pena comparar com o atrito seco da página das leis de Newton, onde a paragem acontece em tempo finito.

Movimento curvilíneo e aceleração centrípeta

Quando a trajetória é curva, convém decompor a aceleração em duas direções: a tangencial, ao longo da velocidade, que muda o módulo da velocidade, e a normal (ou centrípeta), perpendicular à velocidade e apontada para o interior da curva, que muda a direção da velocidade. Os vetores tangente e normal são os mesmos da geometria das curvas paramétricas.

O módulo da componente normal é

an=v2ρ,a_n = \frac{v^2}{\rho},

onde ρ\rho é o raio de curvatura da trajetória no ponto, em metros. Curvas mais apertadas têm ρ\rho pequeno e exigem maior aceleração centrípeta para a mesma velocidade. O inverso, κ=1/ρ\kappa = 1/\rho, chama-se curvatura e mede quão depressa a trajetória dobra. No caso particular do movimento circular uniforme de raio RR, o raio de curvatura é o próprio RR e an=v2/R=ω2Ra_n = v^2/R = \omega^2 R, dirigida para o centro.

Exemplo: um carro faz uma curva de raio R=50 mR = 50\ \text{m} a velocidade constante v=20 m/sv = 20\ \text{m/s} (cerca de 72 km/h72\ \text{km/h}). A aceleração é puramente centrípeta, com módulo an=202/50=400/50=8,0 m/s2a_n = 20^2/50 = 400/50 = 8{,}0\ \text{m/s}^2, apontada para o centro da curva. São quase 0,8g0{,}8g, o que explica porque a curva aperta a essa velocidade exige pneus e piso em boas condições.

Para onde ir

Com o movimento descrito, o passo seguinte é explicar as suas causas: as leis de Newton.

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