Rotação de corpos rígidos
Momento angular, torque, inércia, equilíbrio, rolamento, roldanas e pêndulo físico.
Empurrar uma porta junto às dobradiças produz menos rotação do que aplicar a mesma força perpendicular junto ao puxador. O torque depende da força e do braço. Para prever a aceleração angular, precisamos também de saber como a massa se distribui em torno do eixo.
Um corpo rígido mantém as distâncias entre os seus pontos. Pode transladar e rodar ao mesmo tempo, como um cilindro que desce uma rampa.
Momento angular e torque
Em relação a uma origem fixa , uma partícula tem momento angular
é o vetor da origem ao ponto de aplicação. Não o confundas com o braço , que é a distância perpendicular da origem à linha de ação. O módulo do torque é . A unidade é , mas torque não é energia: são grandezas físicas diferentes, por isso não compares os valores diretamente.
Com e , temos . O sentido é anti-horário no plano , visto do lado positivo de . Uma força na direção de tem torque nulo.
Derivando numa origem inercial fixa, . Para um sistema com forças internas centrais, os torques internos cancelam-se e só conta o torque externo. Sem torque externo relativamente à origem escolhida, conserva-se . Uma força central pode ter impulso não nulo e conservar momento angular, porque é paralela a .
Binário de forças
Duas forças paralelas com o mesmo módulo e sentidos opostos têm resultante nula. Se as linhas de ação não coincidirem, os seus torques somam-se. O conjunto chama-se binário e tem módulo , onde é a distância perpendicular entre as linhas de ação. O torque do binário não depende da origem escolhida, porque a resultante das forças é zero.
Uma força de para cima atua em e outra de para baixo em . Ambas dão torque anti-horário. A resultante é zero, mas . Um corpo livre pode começar a rodar sem acelerar o seu centro de massa. Força resultante nula, por si só, não garante equilíbrio de um corpo rígido.
Momento de inércia
Para um eixo, , em . Cada parcela pesa a massa com o quadrado da distância perpendicular ao eixo, porque um ponto mais afastado tem mais velocidade para a mesma velocidade angular.
Uma haste uniforme de comprimento e massa , com eixo perpendicular pelo centro, tem densidade . Um segmento à distância contribui com . Logo
O teorema dos eixos paralelos dá , quando os eixos são paralelos e um passa pelo centro de massa. Para a mesma haste com eixo por uma extremidade, , logo .
| Corpo e eixo | Momento de inércia |
|---|---|
| Aro fino, eixo perpendicular pelo centro | |
| Disco ou cilindro maciço, eixo de simetria | |
| Esfera maciça, eixo por um diâmetro | |
| Haste fina, eixo perpendicular pelo centro |
Estes valores pressupõem densidade uniforme. A forma do corpo sem o eixo não determina o valor de , por isso confirma sempre o eixo da tabela.
Dinâmica num eixo fixo
Para um corpo rígido a rodar num eixo fixo com inércia constante, a componente axial satisfaz as relações abaixo.
A mesma relação vale para momentos calculados em torno do centro de massa, mesmo quando o centro de massa acelera. É essa versão que usamos no rolamento: translação do centro de massa mais rotação em torno dele.
A igualdade vetorial só pode ser usada quando o eixo e a distribuição de massa a permitem, como num eixo principal. Numa rotação geral, não tem de ser paralelo a , porque a inércia depende da direção.
Um disco de e tem . Uma força tangencial de no bordo dá e . Partindo do repouso, ao fim de , e . O trabalho coincide com . A potência instantânea é .
Equilíbrio de um corpo rígido
O equilíbrio estático exige simultaneamente e . Escolhe para os momentos o ponto onde atua uma reação desconhecida, porque essa reação sai da equação.
Uma viga uniforme de e peso tem apoios nos extremos e uma carga de a do apoio esquerdo. Se são as reações verticais, . A reação em tem braço nulo relativamente a esse apoio. A reação em roda a viga no sentido anti-horário; os dois pesos rodam-na no sentido horário:
Logo e . O peso da viga atua no centro por ser uniforme. Um apoio que só empurra exige reação não negativa. Se a conta exigir tração num contacto simples, o contacto suposto deixa de existir, ou seja a viga levantaria.
Braços numa prancha inclinada
Uma prancha uniforme de comprimento e massa está articulada numa extremidade, a um ângulo da horizontal. Uma carga de massa repousa a distância da articulação, medida ao longo da prancha. Uma força vertical para cima na outra extremidade mantém o equilíbrio. Para o conjunto prancha e carga, os contactos entre as duas são internos.
O braço de cada força vertical é a distância horizontal à articulação. Assim,
Como , a mesma projeção cancela em todos os termos:
O valor não depende da inclinação neste modelo. Se substituirmos a força vertical por uma força horizontal para a esquerda, o seu braço passa a , enquanto os pesos conservam os braços horizontais. O equilíbrio exige então
A orientação da força decide qual projeção usar. Não acrescentes um cosseno só por a prancha estar inclinada. A carga precisa de um contacto ou fixação que a mantenha em repouso; as equações do conjunto não verificam, por si só, essa condição.
Rolamento sem deslizamento
Num corpo que rola numa superfície parada, o ponto de contacto tem velocidade instantânea nula. A velocidade desse ponto soma translação e rotação: . Por isso, . Em movimento unidimensional com sinais coerentes, .
A energia é
Um cilindro maciço desce uma rampa a . O atrito estático aponta para cima da rampa e produz o torque em torno do centro. A direção saiu das equações com a condição de rolamento, não de uma regra de contrariar o movimento: o centro desce e o atrito aponta para cima. Escolhendo a descida positiva,
A condição dá . Substituindo na equação de translação,
Para o cilindro maciço, . Assim, e . Para , e . O modelo só vale se .
Partindo do repouso e percorrendo , . Pela energia, a altura perdida é e , dando o mesmo resultado. O atrito estático não dissipa energia neste modelo de superfície parada e rolamento ideal. Se houver deslizamento ou deformação com resistência de rolamento, esse balanço muda, por isso confirma o regime antes de usar a energia.
Roldana com inércia
Uma massa desce desenrolando um fio num disco de massa e raio , com eixo fixo sem atrito. O fio não desliza. As equações são
Como , e . A massa não cai livremente, porque parte da energia põe o disco a rodar. Numa máquina de Atwood com , escolhemos o positivo para baixo em , para cima em e no sentido de rotação da descida de . As equações são
Com , somamos as equações dos corpos e eliminamos . Obtemos . As tensões diferem para produzir o torque. No limite , recuperamos a roldana ideal.
Pêndulo físico
Um corpo rígido suspenso num eixo horizontal sem atrito, a distância do centro de massa, tem torque gravítico . Medimos desde o equilíbrio com o centro de massa por baixo do eixo. Para pequenos ângulos em radianos,
Uma haste uniforme de comprimento , suspensa pela extremidade, tem e . Logo . Não é o período de um ponto material a um metro do eixo, porque a massa está distribuída.
Conservação e precessão
Uma pessoa numa plataforma sem torque externo reduz de para . Se inicialmente , mantém-se e a velocidade final é . A energia cresce de para , porque a pessoa faz trabalho interno ao fechar os braços.
Ver precessão lenta
Num giroscópio em rotação rápida, um torque perpendicular a muda sobretudo a direção de . Seja a distância do apoio ao centro de massa e o ângulo do eixo com a vertical. Na aproximação de precessão lenta e regular, o torque gravítico tem módulo e a mudança de direção exige . Para , obtemos . Desprezamos a nutação e supomos que o momento angular é dominado pela rotação rápida. Sem torque externo, o vetor momento angular mantém-se.
Impacto e energia de rotação
Um disco inicialmente parado, de massa e raio , gira num eixo fixo sem atrito. Uma pequena massa chega tangencialmente ao bordo a e fica presa. Durante o impacto, o torque externo axial é desprezável, mas o apoio pode fornecer impulso linear. Conservamos o momento angular em torno do eixo, sem impor conservação do momento linear do conjunto.
Antes do impacto, . Depois, a inércia é a soma do disco e da pequena massa no bordo, . Logo
A energia inicial é e a final é . O impacto inelástico transforma cerca de noutras formas de energia. Não uses conservação da energia cinética para calcular , porque o enunciado descreve um choque inelástico.
Ver energia de um volante
Num volante de inércia, a energia recuperável entre duas velocidades é . Com , uma descida de para disponibiliza antes de perdas. Se a potência útil média for e não houver perdas, essa energia dura . O trabalho de um torque variável calcula-se por ; não se deve usar se o torque variar.
Exercícios
Equilíbrio da viga
Uma viga uniforme de 4 m e peso 200 N tem apoios nas extremidades. Uma carga de 100 N está a 1 m do apoio esquerdo. Qual a reação do apoio esquerdo, em N?
Pista
Toma momentos no apoio esquerdo para obter primeiro a reação direita.
Mais uma pista
4R_B = 200 × 2 + 100 × 1; R_A + R_B = 300.
Solução
Escolhe momentos em B para eliminar R_B: 4R_A = 200 × 2 + 100 × 3. Então R_A = 700/4 = 175 N e R_B = 300 − 175 = 125 N. O peso da viga atua no centro por ser uniforme.
Erros frequentes
Esquecer o peso da viga ou trocar a reação esquerda pela direita.
Verificar o rolamento
Um cilindro maciço parte do repouso numa rampa a 30°. Qual o coeficiente mínimo de atrito estático para rolar sem deslizar? Dá um número adimensional.
Pista
O atrito necessário vem das equações de translação e rotação.
Mais uma pista
Para o cilindro, f = Mg sin θ/3 e N = Mg cos θ.
Solução
Das equações Ma = Mg sinθ − f e fR = Iα com a = Rα, obtém-se f = Mg sinθ/3. Então μ_s mínimo = f/N = tan(30°)/3 ≈ 0,19245. Um atrito disponível menor torna inválida a hipótese de rolamento puro.
Erros frequentes
Assumir rolamento sem verificar se o contacto pode fornecer o torque necessário.
Momento angular e trabalho interno
Uma pessoa numa plataforma tem inércia total inicial de e velocidade angular de . Ao fechar os braços, reduz a inércia para . Despreza o torque externo axial e as perdas. Calcula a velocidade angular final e a variação de energia cinética. De onde vem essa energia?
Pista
Solução
O momento angular axial mantém-se: . Assim, .
A energia inicial é . A final é . O aumento de vem do trabalho muscular ao aproximar a massa do eixo. Torque externo nulo conserva momento angular, mas não impede trabalho interno.
Confere a tua resposta:
- Calculo velocidade angular final de 6 rad/s.
- Obtenho energia inicial de 8 J e final de 24 J.
- Relaciono o aumento de 16 J com trabalho interno, sem torque externo.
Aro com eixo na periferia
Pista
Mais uma pista
Solução
Erros frequentes
Escolher a conservação num eixo fixo
Pista
Mais uma pista
Solução
Erros frequentes
Mudar o eixo da haste
Pista
Solução
Erros frequentes
Período de uma haste suspensa
Pista
Mais uma pista
Solução
Erros frequentes
A força roda, o braço muda
Uma prancha uniforme de e massa faz com a horizontal. Está articulada na extremidade inferior. Uma carga de , fixada à prancha, está a da articulação, medidos ao longo da prancha. Usa .
- Que força vertical para cima na extremidade superior mantém o equilíbrio? Qual a reação vertical da articulação sobre o conjunto?
- Se substituirmos essa força por uma força horizontal para a esquerda no mesmo ponto, qual deve ser o seu módulo?
Pista
Solução
Para a força vertical, os três braços contêm . Depois de cancelar esse fator não nulo,
Logo . O equilíbrio vertical dá , portanto .
A força horizontal tem braço . Os torques dos pesos continuam a ter o fator . Assim, e , cerca de . A articulação fornece também a reação horizontal que equilibra essa força. Usar o comprimento total como braço para todas as forças perderia a diferença entre os dois casos.
Confere a tua resposta:
- Obtenho 50 N para a força vertical e reação vertical de 30 N na articulação.
- Obtenho 50√3 N para a força horizontal.
- Distingo os braços horizontais dos pesos do braço vertical da força horizontal.