Princípios de segurança e risco
Distinguir ativos, ameaças, vulnerabilidades e controlos; calcular risco com hipóteses explícitas.
Um ficheiro de notas tem três problemas diferentes. Alguém pode lê-lo sem autorização, alterar uma nota ou impedir a sua consulta. Por isso temos de dizer qual destes problemas queremos evitar antes de escolher uma ferramenta.
Propriedades de segurança
| Propriedade | O que protege | Exemplo de violação |
|---|---|---|
| Confidencialidade | A informação só chega a quem pode conhecê-la | Uma cópia de segurança fica pública |
| Integridade | As alterações seguem as regras autorizadas | Um aluno muda a própria nota |
| Disponibilidade | O serviço está utilizável quando necessário | Uma inundação de pedidos esgota o servidor |
Integridade não significa que um ficheiro nunca muda, porque um docente pode corrigir uma nota por um procedimento autorizado. Disponibilidade também não significa aceitar todos os pedidos: limitar pedidos pode preservar o serviço para os restantes utilizadores.
A autenticidade liga uma mensagem ou entidade à origem que afirma ter. A responsabilização permite relacionar ações com entidades através de registos protegidos. Um registo diz o que o sistema observou; sozinho não prova que a pessoa titular da conta fez a ação, porque a conta pode estar comprometida.
Ativo, ameaça e vulnerabilidade
Um ativo tem valor para o sistema, como dados, credenciais, capacidade de processamento ou reputação. Uma ameaça é uma causa potencial de dano. Uma vulnerabilidade é uma fraqueza que torna esse dano possível. O vetor de ataque é o caminho usado para explorar a fraqueza. Um controlo reduz a probabilidade ou as consequências.
No ficheiro de notas, o ativo são as notas e a ameaça é uma alteração não autorizada. A vulnerabilidade é permitir escrita a qualquer conta autenticada. O vetor é o caminho usado para explorar essa fraqueza, por exemplo enviar um pedido de alteração pelo endpoint. O controlo é verificar, no servidor e em cada pedido, se a conta pode alterar aquela pauta. Cifrar o disco protege outro risco, o de uma leitura do disco roubado, e não corrige esta autorização.
Também há ameaças acidentais. Apagar uma tabela por engano afeta a disponibilidade e pode exigir o mesmo mecanismo de recuperação que uma sabotagem deliberada.
Zero-day, zero-click e cadeia de fornecimento
Um ataque zero-day explora uma vulnerabilidade ainda desconhecida por quem a deve corrigir ou para a qual ainda não há correção disponível no momento considerado. Zero-click descreve outra dimensão: o ataque não precisa de interação da vítima. Uma vulnerabilidade pode ser conhecida e permitir zero-click; uma zero-day pode exigir que a pessoa abra um ficheiro. Explicita a informação e a correção disponíveis em vez de tratar as duas etiquetas como sinónimas.
Num ataque à cadeia de fornecimento, o atacante compromete um componente ou canal de que o sistema depende, como uma biblioteca, uma ferramenta de construção ou um distribuidor de atualizações. O utilizador pode seguir o procedimento de instalação normal e receber código adulterado. Autenticar a origem de uma atualização ajuda a detetar substituições no caminho, mas não garante que o conteúdo foi seguro antes de ser assinado. A defesa precisa de analisar também a produção, dependências e distribuição do componente confiável.
Risco qualitativo
O risco combina a possibilidade de um evento com as suas consequências. Numa análise qualitativa podemos atribuir categorias, por exemplo probabilidade de 1 a 3 e impacto de 1 a 3. A matriz seguinte usa o produto como regra ilustrativa de prioridade.
A representa perda de uma cópia por falha de disco, com pontuação . B representa alteração de notas por uma autorização em falta, com pontuação . Segundo esta regra, investigamos B primeiro. A conta só é útil se explicarmos por que atribuímos os valores.
Os números representam uma ordem, não probabilidades medidas nem euros. Uma pontuação 6 não prova um risco duas vezes maior que uma pontuação 3. Outra equipa pode usar escalas e prioridades diferentes.
Perda esperada
Quando o enunciado dá uma probabilidade anual e uma perda por ocorrência, num modelo de um único evento anual, a perda esperada é . A perda é se o evento ocorrer e zero caso contrário. Ponderar os dois resultados dá . Para uma falha com e euros, temos euros por ano. É uma média do modelo, não o custo que necessariamente pagaremos num ano concreto.
Um controlo de 500 euros por ano reduz para 0,02. A perda esperada residual é 400 euros, e o custo total esperado é euros. A redução líquida é euros por ano. Este cálculo não representa perdas extremas, obrigações externas nem a incerteza das estimativas, por isso não substituas uma categoria “alta” por 0,9 sem uma justificação.
Política, mecanismo, confiança e ameaça
Uma política determina comportamentos permitidos e proibidos, e um mecanismo implementa parte dessa política. O modelo de confiança diz de que entidades e componentes dependemos, e para fazer o quê; o modelo de ameaça diz que adversários e capacidades consideramos. A fronteira de confiança marca o ponto onde muda quem decide, e a superfície de ataque inclui os pontos onde entidades menos confiáveis interagem com o sistema.
«Só o titular pode consultar a sua pauta» é uma política. Verificar a relação entre sessão e pauta é um mecanismo. Assumir que o servidor de autenticação não emite sessões falsas é uma hipótese de confiança. Considerar um aluno que pode enviar pedidos arbitrários, mas não alterar o código do servidor, fixa parte do modelo de ameaça. A análise precisa de mostrar que os mecanismos cumprem a política se as hipóteses forem verdadeiras.
Modelo binário e gestão de risco
Um modelo binário formula uma propriedade e limita as capacidades do adversário. Dentro dessas hipóteses, perguntamos se algum atacante pode violar a propriedade. Um resultado sobre o modelo não elimina erros da implementação nem ataques que ficaram fora, como um canal lateral de tempo.
Na gestão de risco, comparamos consequências, plausibilidade e custo de controlos. Podemos aceitar algum risco residual, por exemplo uma interrupção limitada, sem afirmar que o evento se tornou impossível. As estimativas podem estar erradas, por isso revemos a análise quando mudam o sistema, as ameaças ou a evidência.
A correção para entradas válidas não demonstra segurança para entradas hostis. Uma aplicação pode devolver a pauta certa a um docente e também devolvê-la a uma conta não autorizada. O teste funcional do primeiro caso não prova que o segundo foi impedido.
Privacidade e metadados
Privacidade inclui o uso e divulgação de informação sobre pessoas, não apenas manter o conteúdo secreto. Um serviço pode cifrar mensagens e continuar a revelar com quem falamos, a que horas e de onde. Estes metadados podem permitir inferir atividades.
Confidencialidade é uma propriedade técnica de acesso à informação. Uma utilização autorizada pelo sistema pode continuar inadequada para a finalidade acordada. Precisamos de explicitar dados, finalidade, entidades e contexto, sem assumir que cifragem equivale a privacidade.
Tratar o risco
Podemos reduzir o risco com controlos, evitar a atividade que o cria, partilhar consequências através de contratos ou aceitar o risco residual com uma decisão explícita. Uma cópia de segurança reduz as consequências de uma perda; não impede que o atacante leia os dados. Uma apólice pode partilhar custos; não restaura, por si, um serviço.
Para responder a um caso, escreve a cadeia completa: ativo, evento, fraqueza explorada, efeito e controlo. Termina com o risco residual. Essa última parte evita respostas como «usar HTTPS resolve a segurança».
Exercícios
Custo total do controlo
Num modelo de um evento anual, a probabilidade é 0,08 e a perda por evento é 25 000 euros. Um controlo custa 600 euros/ano e reduz a probabilidade para 0,02. Qual é o custo total esperado por ano depois do controlo?
Pista
Calcula primeiro a perda esperada residual.
Solução
A perda residual é euros/ano. O total é euros/ano. Antes esperávamos 2 000 euros, por isso a redução líquida é 900 euros/ano.
Erros frequentes
Não uses a probabilidade antiga no risco residual. Não confundas a redução líquida com o custo total.
Uma cópia que não devia ser pública
Uma cópia intacta das notas ficou pública durante uma hora, mas o serviço continuou a funcionar. Identifica a propriedade diretamente violada e explica por que uma cópia de segurança adicional não resolve o problema.
Pista
Distingue leitura, alteração e interrupção.
Solução
Há violação de confidencialidade: alguém sem autorização pôde conhecer o conteúdo. O enunciado não mostra violação de integridade nem disponibilidade, porque o conteúdo não mudou e o serviço respondeu. Precisamos de restringir acesso às cópias e investigar a exposição; criar outra cópia melhora a recuperação, mas não impede a leitura que já aconteceu nem desfaz os dados já copiados.
Confere a tua resposta:
- Identifica confidencialidade como violação direta.
- Não deduz alteração de notas ou indisponibilidade sem evidência.
- Explica que outra cópia melhora recuperação, mas não retira o acesso já ocorrido.
Erros frequentes
Enumerar CIA sem distinguir o efeito observado não responde ao caso.
Da fraqueza ao risco residual
A pauta de uma cadeira está num ficheiro. Qualquer conta autenticada consegue chamar o endpoint de alteração. Uma conta de aluno foi usada para mudar uma nota. Constrói a cadeia completa e propõe um controlo.
Pista
Segue o pedido do atacante até à operação perigosa.
Solução
O ativo são as notas e a propriedade é a integridade. A ameaça é alteração não autorizada. A vulnerabilidade é aceitar escrita de qualquer conta autenticada. O vetor é o pedido direto ao endpoint de alteração. O controlo verifica no servidor, em cada pedido, se aquela conta pode alterar aquela pauta. Resta risco residual: contas legítimas comprometidas e outras rotas com a mesma falha.
Confere a tua resposta:
- Identifica ativo, ameaça e propriedade afetada.
- Distingue vulnerabilidade de vetor com o caminho concreto.
- Propõe controlo no servidor e termina com risco residual.
Erros frequentes
Não confundas a fraqueza com o caminho usado para a explorar. Cifrar o disco não corrige esta autorização.