Transmissão de dados
Sinais, codificação, multiplexagem, potência, Nyquist, Shannon e probabilidade de erro.
Para enviar 00, 01, 10 e 11, um emissor pode usar quatro níveis de tensão; cada símbolo representa dois bits. O recetor precisa de distinguir os níveis depois de o canal atenuar e deformar o sinal e de o ruído se somar a ele, e acrescentar níveis permite representar mais bits por símbolo mas reduz a separação entre valores que o recetor tem de reconhecer.
Banda, símbolos e débito
A largura de banda , em Hz, mede frequências disponíveis; o débito binário , em bit/s, mede bits por segundo; o ritmo de símbolos , em baud, mede símbolos por segundo. Com símbolos distintos, cada símbolo representa bits quando é potência de dois, e sem sobrecarga:
A 2400 baud com 16 símbolos, obténs bit/s, isto é, 4 bits por símbolo. Uma transmissão real pode reservar bits para codificação e controlo.
O período de um sinal de frequência é . A velocidade de propagação do sinal não é o débito: aumentar bit/s reduz o tempo de colocar um pacote no cabo, sem obrigatoriamente reduzir o tempo de esse sinal percorrer o cabo. A página de desempenho separa estas duas parcelas com unidades próprias.
Meios e representação
O par entrançado reduz interferência por acoplamento, o coaxial usa blindagem e a fibra tem baixa atenuação e imunidade eletromagnética. Rádio e micro-ondas partilham espectro e satélites podem trazer propagação relevante conforme a órbita.
Em banda base, codifica-se diretamente a sequência de bits em níveis ou transições. NRZ usa níveis; Manchester introduz uma transição em cada bit para facilitar a sincronização, à custa de mais transições.
Um canal passa-banda transporta uma faixa em torno de uma frequência portadora , em vez de frequências desde zero. A modulação adapta o sinal a essa faixa: altera amplitude em ASK, frequência em FSK e fase em PSK. QAM combina amplitude e fase.
Simplex permite uma direção; half-duplex permite ambas, à vez; full-duplex permite ambas simultaneamente. Esta distinção explica por que uma Ethernet comutada full-duplex não usa deteção de colisões.
Canal e sincronização
Num canal linear e invariante no tempo, é o sinal enviado, o recebido e a resposta do canal a um impulso. Sem ruído aditivo, . Esta convolução combina o sinal enviado com o efeito do canal ao longo do tempo.
Em frequência, : determina como o canal altera cada componente de frequência. Se o canal atenuar componentes de alta frequência, os pulsos deixam de ter transições tão nítidas, e o ruído acrescenta outra componente à observação do recetor.
O teorema da amostragem permite reconstruir um sinal ideal sem frequências acima de Hz se o amostrarmos a mais de amostras/s. O valor é a taxa de Nyquist usada nas contas ideais da cadeira; a igualdade exige cuidado com componentes exatamente no limite. Por exemplo, uma senoide de Hz amostrada nos seus zeros a amostras/s parece sempre zero. Amostrar não garante comunicação sem erros num canal com ruído.
NRZ-L associa bits a níveis. NRZ-I associa um dos bits a uma transição, segundo a convenção. Manchester introduz uma transição no meio de cada bit e facilita recuperar o relógio; a convenção de sentido da transição deve ser indicada. Uma sequência longa sem transições dificulta a sincronização em certas codificações.
Em 4B/5B, cada grupo de quatro bits vira cinco bits de código escolhidos para favorecer transições. Para transportar 80 Mbit/s de dados, o código exige 100 Mbit/s antes de outras sobrecargas. Codificação de linha e modulação não são sinónimos: a primeira representa os bits; a segunda altera parâmetros de uma portadora.
Multiplexagem
FDM separa fluxos por frequência, TDM por intervalos temporais e WDM por comprimentos de onda na fibra. Na TDM síncrona, um intervalo reservado pode ficar vazio. Na multiplexagem estatística, atribui-se serviço a quem tem dados, exigindo identificação dos fluxos e gestão de filas.
Com quatro fontes de 64 kbit/s numa TDM sem sobrecarga, o agregado precisa de 256 kbit/s. Se cada trama transportar um byte de cada fonte, há 8000 tramas/s e quatro bytes por trama. Qualquer byte adicional de sincronização aumenta o débito necessário em 64 kbit/s.
Potência e decibéis
Para uma razão de potências:
Uma perda de 3 dB reduz aproximadamente a potência a metade. Ganhos e perdas em dB somam-se ao longo do percurso. Para tensões, a expressão exige impedâncias iguais.
Nyquist e Shannon
Para um canal ideal sem ruído, com banda limitada e níveis distinguíveis, o modelo de Nyquist conta símbolos por segundo e bits por símbolo. Só depois de fixar estas hipóteses usa na cadeira:
Para ruído gaussiano, o limite de Shannon é:
São limites sob modelos definidos, por isso nenhuma modulação prática garante atingi-los. Quando o enunciado impõe ambos, calcula Nyquist e Shannon e fica com o menor: aumentar a constelação sobe Nyquist, mas não ultrapassa o teto do ruído.
Exemplo. Hz, , SNR de 20 dB. Nyquist dá bit/s e Shannon dá bit/s, por isso o menor limite é cerca de 26,6 kbit/s.
Num canal passa-baixo de 2 kHz que transporte 12 kbit/s, Nyquist exige , logo e níveis. Oito níveis distinguem três bits por símbolo; com menos níveis, o ritmo de símbolos do modelo não chega ao débito pedido.
Aumentar apenas o número de símbolos não permite ultrapassar 26,6 kbit/s neste canal. Para os 32 kbit/s de Nyquist serem compatíveis com Shannon, seria necessária uma SNR linear de pelo menos , cerca de 24,1 dB. Respeitar ambos os limites é necessário neste modelo; não prova que uma implementação concreta atinja esse débito.
De erros de bit a erros de trama
A BER é a probabilidade de erro de bit no modelo e a FER é a de trama. Se cada bit falha com probabilidade independente e a trama tem bits:
Para , . Se os erros chegam em rajadas, a independência não vale.
Com e , . Se tentativas independentes repetirem a mesma trama vezes, a probabilidade de pelo menos uma chegada correta é , e não , que exige que todas sejam corretas.
Uma trama maior aproveita melhor um cabeçalho fixo, mas oferece mais posições onde pode ocorrer um erro. Nos mesmos dados, duplicar para 20000 dá . Não se duplica exatamente a FER, e o modelo deixa de valer se os erros forem correlacionados.
Potência absoluta e propagação rádio
dBW mede potência face a 1 W; dBm, face a 1 mW. Assim com P em W, e . 100 mW equivalem a 20 dBm e a −10 dBW. dB sozinho exprime uma razão, não uma potência absoluta.
Para antenas isotrópicas ideais, campo distante e espaço livre, a relação de Friis é , com comprimento de onda . A perda em dB é . Antenas reais acrescentam os ganhos e outras perdas ao orçamento.
Mantendo frequência e antenas, duplicar a distância aumenta a perda em cerca de 6,02 dB. Mantendo distância e ganhos, duplicar a frequência tem o mesmo efeito. Reflexões, obstáculos e multipercurso podem tornar este modelo inadequado num edifício; não é uma previsão universal do sinal Wi-Fi.
Exercícios
Calcular erro de trama
Bits com erros independentes de probabilidade 0,001. Para uma trama de 100 bits, qual é a probabilidade de pelo menos um erro?
Pista
É mais simples calcular primeiro a probabilidade de nenhum erro.
Solução
1−0,999^100≈0,095208. A aproximação Lp=0,1 é próxima, mas não é exata.
Erros frequentes
Confundir pelo menos um erro com exatamente um erro.
Interpretar retransmissões
FER=0,2 e tentativas independentes. Depois de 3 tentativas, qual a probabilidade de a trama ter chegado corretamente pelo menos uma vez?
Pista
O insucesso significa falhar nas três tentativas.
Fechar um orçamento de potência
Um emissor envia 20 dBm e o canal perde 30 dB, sem outros ganhos. Calcula a potência recebida em dBm e mW. Agora duplica a distância, mantendo frequência e antenas, num modelo de espaço livre isotrópico em campo distante. Calcula a nova perda, potência recebida e razão entre potências. Explica por que um valor negativo em dBm não significa potência negativa.
Pista
Mais uma pista
Solução
A receção inicial é 20−30=−10 dBm. Em mW, vale . Duplicar a distância aumenta a perda em dB: passa a 36,02 dB, e a receção a −16,02 dBm.
A potência divide-se por quatro, passando a 0,025 mW. O sinal negativo em dBm indica potência menor que a referência de 1 mW; ambas as potências em watts continuam positivas. Esta variação exige as hipóteses do modelo de espaço livre, não descreve automaticamente uma sala com obstáculos.
Confere a tua resposta:
- Subtraio perda em dB à potência em dBm.
- Converto a potência absoluta para mW.
- Aplico a relação inversa com o quadrado da distância.
- Distingo dB de dBm.
Escolher níveis para um débito
Um canal passa-baixo tem 2 kHz de largura e transmite 12 kbit/s sem sobrecarga. Quantos níveis de sinal exige o modelo de Nyquist?
Pista
Relaciona débito, banda e bits por símbolo.
Solução
12000=2×2000×log2M, logo log2M=3 e M=8 níveis. Menos níveis exigiriam mais símbolos por segundo do que o modelo permite.
Erros frequentes
Confundir baud com bit/s e responder 6000.
Dimensionar símbolos e ruído
Um canal de banda 3000 Hz usa quatro níveis e SNR de 20 dB. Impõem-se os modelos de Nyquist e Shannon, sem sobrecarga.
- Calcula os dois limites e decide se 15 kbit/s é compatível com ambos.
- Mantendo a banda, escolhe o menor alfabeto de tamanho potência de dois que respeita Nyquist a 15 kbit/s. Que ritmo de símbolos exige?
- Calcula a SNR linear mínima imposta por Shannon para esse débito. A SNR original chega?
Pista
Mais uma pista
Solução
Nyquist dá bit/s. Shannon usa e dá bit/s. Quatro níveis não permitem 15 kbit/s neste modelo.
São necessários pelo menos bits por símbolo. O menor alfabeto potência de dois é , com três bits por símbolo. O ritmo necessário é baud, inferior a 6000.
Shannon exige , cerca de 14,91 dB. A SNR original de 100 chega. Esta verificação dos limites não garante que uma modulação prática atinja a capacidade.
Confere a tua resposta:
- Converto SNR de dB para razão linear.
- Verifico ambos os limites.
- Escolho oito símbolos e 5000 baud.
- Inverto Shannon e distingo limite de garantia prática.